top of page

É proibido proibir de proibir

O inadmissível é a censura, chaga das piores ditaduras; voltar e reinar em pleno regime democrático, pelas mãos e canetadas daqueles que deveriam ser os guardiões da Liberdade e da Constituição

(In)felizmente, para quem nasceu depois dos anos 1980, ainda que no século passado, censura era apenas uma palavra antiga, abstrata, banal e quase sem sentido.

Felizmente porque, até recentemente, como algumas doenças, a censura estava oficialmente erradicada no Brasil. Infelizmente, porque ela voltou; claro, aos poucos, sorrateiramente, mas com toda força, há quase quatro anos, atingindo o insuportável em 2022, coincidentemente, ano de uma eleição presidencial e capital.

O inadmissível é a censura, chaga das piores ditaduras; voltar e reinar em pleno regime democrático, pelas mãos e canetadas daqueles que deveriam ser os guardiões da Liberdade e da Constituição.

Em nome da “Liberté” milhares foram guilhotinados pela Revolução Francesa. Caso de Madame Roland que, ao caminhar para o cadafalso, onde seria decapitada pelos “amigos” revolucionários, teria suspirado: “Oh liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!”.

Tudo é tão surreal que estes mesmos guardiões estão censurando até seus pares, como vimos recentemente, contra uma declaração do ex-ministro do STF, Marco Aurélio Mello, que ousou opinar sobre o candidato Lula.

O mesmo Marco Aurélio que, dia 20 agora, citou o colega Gilmar Mendes, citando Machado de Assis, citado por Millôr Fernandes: “O melhor modo de apreciar o chicote é ter-lhe o cabo na mão. Mas o chicote muda de mãos”.

Quem nasceu antes e até bem antes dos anos 1980 lembra bem do estúpido fantasma da censura. Principalmente durante o chamado Regime Militar.

Naquela época, a censura, chamada de Coisa das Sombras, das Trevas e dos Anos de Chumbo, além de temida, era, à boca miúda, ridicularizada.

Para quem não sabe ou não lembra, os programas de televisão, eram antecedidos por um selo, um carimbo na tela, “liberando” a atração com uma famosa assinatura. A da “saudosa” Solange Teixeira Hernandes, “que chefiou o órgão de censura durante a ditadura militar”, sinônimo de mordaça, motivo de risos amarelos e piadas.

A censura é, por natureza, estúpida e exercida por estúpidos. Reza a lenda que, no mesmo período, de sinistra memória, uma batida policial teria confiscado o clássico da literatura francesa, “O Vermelho e o Negro” (1830), de Stendhal, por causa do vermelho no título, um incentivo à subversão... Pode? Podia!

Ignorância rimando com truculência! Mas, recentemente, um livro infantil, de Monteiro Lobato, “Caçadas de Pedrinho”, clássico de mil gerações, foi “retirado das escolas depois de acusado pelo Conselho Nacional de Educação de conter passagens racistas”. Ignorância, truculência e estupidez, da ditadura do politicamente correto, que guilhotina até inocentes marchinhas de Carnaval.

Mas não sejamos ingênuos. A censura nunca acabou no Brasil e no mundo. Ela apenas deixou de ser política, para ter motivação econômica. Em plena democracia, muitos jornalistas foram e são perseguidos, processados e demitidos apenas por desagradarem a linha da publicação, leitores, assinantes e anunciantes, os verdadeiros “donos do pedaço”.

Mas voltemos ao pior, o que estamos vendo em 2022, diariamente. A censura começou desmonetizando e derrubando páginas na Internet e agora, proibindo, censurando palavras, nomes, definições, opiniões, fatos e verdades. Intolerável!

E o mais “engraçado” é que a esquerda - as “vítimas” da antiga censura; aquela censura pesada e idiota, lá do Regime Militar, principalmente nos anos 1970 - hoje, cala-se. Se bobear até aplaude a arbitrariedade entre quatros paredes.

A “velha nova esquerda” não condena, nem ri dos absurdos. Por exemplo, esta semana, em Goiás, um “promotor de justiça” mandou investigar uma adega que vendia certo vinho por R$ 22. Pasmem, 22! O número do presidente Bolsonaro... Pode? Tá podendo...

Vão acabar tirando o número 22 da matemática e a letra B do alfabeto.

Peguemos, sem meias palavras, o caso da Jovem Pan, proibida de dar nome aos bois, de chamar pedra de pedra, Lula de Lula. A Jovem Pan deveria fazer o que praticavam os jornais no auge da “censura da ditadura militar”: no lugar de notícias, receitas de bolo! Seria hilário ver o Augusto Nunes e seus colegas do programa “Os Pingos nos Is”, na Jovem Pan, ensinando a fazer um “Escondidinho de Carne”.

Brincando, sempre com genialidade, o mesmo Millôr Fernandes gritava: “querer liberdade é coisa de escravos”. A piada virou realidade e tem graça nenhuma. Em pleno ano de 2022 somos escravos e reféns pedindo liberdade contra ditatoriais e monocráticas canetadas.

Atribui-se a Martin Luther King frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Onde estão os bons? O gato comeu?

Para terminar, outra frase muito batida e espancada, mas imortal, infinita e, mais que nunca, necessária: “Discordo do que você diz, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”, disse o pensador francês Voltaire, esculpindo o mantra dos paladinos da liberdade de expressão.

bottom of page