A hora de partir



A idéia de que um relacionamento alcançou sua data de validade é quase antagônico para mim. Creio que a morte do amor pode ser uma tragédia, sim! Sou muito esperançosa na minha maneira de olhar a vida e para o amor, e torço para que os casais prevaleçam. Mas também trabalho com alguns casais, em meu consultório, para os quais o amor virou ódio, e a esperança virou amargura.


Por mais triste que seja, ‘as vezes a decisão mais acertada a ser tomada é partir. Não há porque se tentar um resgate, quando se percebe que o relacionamento acabou. Nesses casos, os casais precisam de sua força interna e de apoio externo, profissional e afetivo, para lidar com a dor no coração e seguir em frente, em busca de uma vida mais feliz e enriquecedora.


Porque será que os relacionamentos fracassam apesar das medidas para recuperá-lo ou melhorá-lo? Em alguns casos, a resposta é simples. Talvez um dos cônjuges queira sair e ser quem é, sem querer assumir a contribuição dele ou dela para o problema. Muito encontram dificuldades que impedem a intimidade do casal, o que acaba trazendo insegurança para um ou para outro.


Entretanto, na maioria dos casos a decisão de salvar o casamento ou de desistir dele não é tão clara. Muitas vezes um dos cônjuges fica surpreso, ou até chocado, quando ouve do outro que deseja sair da relação. Parece que são duas pessoas que não estão vivendo no mesmo relacionamento. Como se um não soubesse o que acontecia com o outro ou o que o outro estaria sentindo. Esse tipo de conversa é comum em consultórios, porém é quase impossível discernir quais desses relacionamentos tem recuperação.


Mas chega um momento que é preciso que o casal tome consciência, encare a sua verdadeira situação, e possa dizer e enxergar que a parceria passou da validade. No entanto, mesmo nesse momento, o casal começa, e tem necessidade, de contar a própria história, seu passado em comum. Há pouco meio-termo: tem lembranças românticas, memórias alegres, amargas, distância emocional, traições, momentos emocionantes, mas houve algo que mudou. Mal entendidos, falta de conexão, de admiração, comunicação difícil ou quase impossível, foco principal no negativo e no que não está bom, é a principal narrativa do casal infeliz falando da própria história.


Porém, esse momento é de grande importância, pois estão tomando uma decisão que irá afetar de forma profunda a vida de cada um, e se tiverem filhos, deles também. Vale a pena procurar uma reparação? Será que estamos presos nessa história que construímos, como tivéssemos que ser fiéis a ela? Se for possível, serenidade é fundamental. O casal só poderá continuar se os dois quiserem a mesma coisa. Assim, o relacionamento precisaria ter folego para continuar, uma nova história dali pra frente, pois senão permanecem infelizes e casados, levando vidas paralelas nas quais coabitam, mas sem a cumplicidade necessária a uma relação que seguirá seu caminho fortalecida, apesar da dificuldade ocorrida.


Assim, casais com um sistema fraco de ternura e admiração tendem a recordar as primeiras impressões desfavoráveis dos cônjuges. Suas palavras passam frieza em vez de ternura, e desprezo em vez de admiração. Ao invés de contarem um episódio divertido ou feliz, escolhem falar sobre problemas ou situações que geraram desconexão ou tensão. E tudo piora quando a noção de nós é perdida. Focam no que querem ganhar em um jogo de soma zero.


Os casais que descrevem a história do relacionamento como sendo caótica geralmente estão infelizes no presente. Não contam histórias de união e superação ou de aprender com as experiências negativas. Não há a percepção nas descrições deles de que as dificuldades e os conflitos passados fortaleceram a confiança mútua. A vida, e o relacionamento, apenas passou. É hora de partir.








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