A mente criativa da Sauer

Atualizado: 22 de nov.

Diretora criativa da renomada joalheria deu uma pausa em suas  criações para contar sobre sua história, alicerces e valores inegociáveis.



Stephanie Wenk tinha cerca de cinco anos quando escutou  pela primeira vez sobre Jules Sauer, judeu que, por medo  da perseguição nazista se refugiou ainda adolescente em  diversos países até fixar morada no Brasil. Foi em Belo  Horizonte, em 1942, que Jules fundou a Amsterdam Sauer  (hoje apenas Sauer).


Como muitas vezes acontece no caso dos amores à  primeira vista, Stephanie se encantou instantaneamente  pela história de Jules e pelo mundo das pedras preciosas.  Apaixonou-se pelas cores, pela variedade e pela energia  que sentiu emanando das gemas. Desde 2014 ela trocou a  moda e a psicologia pela joalheria e dedica toda sua paixão  e entusiasmo ao design de joias. Das consultorias informais  e colaborações, a família Sauer rapidamente intuiu o grande  potencial de Stephanie e decidiram lhe conceder o ofício de  diretora criativa da marca. Ela era a pessoa certa, no lugar  certo, na hora certa.


Mas o processo foi longo. Antes de assumir a complexa  e delicada responsabilidade dentro do marca, passou anos  estudando e aprendendo com seu padrasto Daniel Sauer,  filho de Jules Sauer e com o próprio Jules, dupla a quem  ela atribui fonte de inspiração e imenso respeito. “Jules  era um sonhador, uma pessoa mística e extremamente  ligada à energia das pedras (...) Ele sabia sobre o poder de  cura delas muito antes de pautas como autoconhecimento,  autocuidado, Yoga”, relembra.


Quando escolhida para perpetuar o legado de Jules,  falecido em 2017 aos 95 anos, Stephanie começou a  imprimir novos códigos nas peças com mais ludicidade e  irreverência em suas colaborações, sem esquecer do DNA  da marca com as mais refinadas sensibilidades estéticas  transmitidas por gerações. Completando sua 20ª coleção  na Sauer pouco tempo depois que a etiqueta comemora 80  anos, Stephanie ressalta que cada participação foi repleta  de descobertas inesquecíveis que se tornaram experiência  e, com o tempo, expertise.


Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Stephanie  Wenk reafirma mais uma vez sua paixão por pedras  preciosas e seu extraordinário talento criativo. “Acho que  atualizei e perpetuei os códigos da Sauer numa linguagem  absolutamente contemporânea.”. Para alcançar tal  excelência, a designer está sempre em busca de novas  formas, novas jogadas criativas, novas inspirações, novas  combinações de gemas e também a implementação de  novas técnicas. “Eu amo o que faço e me sinto muito  afortunada em poder reescrever a história de uma marca  tão importante na história do Brasil”, orgulha-se.


Como foi o seu caminho até chegar a colaborar com a Sauer pela primeira vez?


Sempre fui criativa e esteta, mas queria buscar outra  formação acadêmica, então ingressei no curso de Psicologia  na Puc Rio. Enquanto estava na faculdade comecei uma  marca de roupas com minha irmã e uma amiga num  exercício criativo sem muitas pretensões. A partir daí veio  um convite para trabalhar em uma marca de moda do Rio,  a Auslander que estava tendo um momento na época. Daí  entendi que de fato trabalhar com isso estava mais alinhado  ao meu propósito. Depois dessa experiência e atrás de mudança e bagagem em trabalhar em uma grande marca  me mudei para São Paulo onde trabalhei por três anos e  meio na parte criativa da Schutz com Alexandre Birman.  Há oito anos comecei a colaborar aos poucos com a Sauer  trazendo ideias para projetos e coleções. Foi dando certo e  fui adquirindo cada vez mais funções e responsabilidades  tendo conquistando o meu lugar sempre com muito trabalho.


Como foi a receptividade do público que era  acostumado a uma joalheria mais clássica aos  elementos e assinatura que você imprimiu em suas colaborações?


Acho que eu atualizei e perpetuei os códigos da Sauer numa linguagem absolutamente contemporânea. Acho que  hoje em dia não temos clientes, temos colecionadores das  nossas coleções, eu enxergo dessa forma. Fazemos joias com  significado que vão muito além de objetos para adornar.


Em uma entrevista, você afirma que aprendeu  com Jules Sauer que “pedras preciosas carregam um lado emocional forte”. Como essa afirmativa  reflete no seu trabalho como designer?


Jules Sauer (fundador da marca e pai do meu padrasto),  pessoa que eu tive o privilégio de conviver por muitos anos,  era um sonhador, uma pessoa mística e extremamente  ligada à energia das pedras. Não era incomum ter pedras  nos bolsos e ao lhe encontrar ele colocava uma pedra na  sua testa (ou em algum outro ponto do corpo) fazendo  uma espécie de alinhamento energético. Ele tinha extrema  sensibilidade e uma relação profunda com as pedras. Ele  sabia sobre o poder de cura delas muito antes da pauta  autoconhecimento e autocuidado estarem em voga. Ele  fez yoga a vida toda, visitava a Índia.


Em sua 20ª colaboração para a marca, quais  você diria que são os principais e novos desafios  que enfrenta em seu trabalho e que não existiam nas suas primeiras coleções?


Trilhei meu caminho na Sauer com muito respeito e  admiração por todos que lá passaram antes de mim e soube  deixar de lado o que não nos servia mais para dar espaço  ao novo. Aprendo diariamente com minha equipe e isso  é fundamental, pois compartilhamos a mesma visão e a  mesma paixão não só pela arte da joalheria, mas pela história  da marca. Estou cercada de pessoas maravilhosas e sei que  sem elas nada disso seria possível. Queremos trabalhar para  sermos cada dia mais uma empresa sustentável, inclusiva e  com boas práticas de trabalho onde nossos colaboradores  sejam valorizados. Nossas coleções refletem esse ambiente  de alguma maneira, a energia das pedras e a nossa sinergia nos movem diariamente para que continuemos a fabricar sonhos, marcar momentos e trazer felicidade às pessoas.


Suas coleções são marcadas pela irreverência,  criatividade e um aspecto lúdico. Com notória paixão  pela arte, como ela tem influenciado suas criações?


Tento alinhar tradição e modernidade, navegando e honrando  o arquivo com o desejo do moderno, do novo, evoluindo mas  permanecendo fiel aos valores da marca. Para ser relevante no  presente, é importante ter uma compreensão da história e das  raízes. Tento trazer um diálogo nas coleções com profundidade  cultural. Questões e inquietações do nosso tempo fazem parte  da nossa pesquisa e são temas de coleções. Fomentar a cultura e  promover o diálogo entre todas as formas de arte e movimentos  criativos é fundamental para a marca. Tentamos fazer isso sem  perder a leveza, o humor e com um pouco de irreverência também.


Qual seria o seu conselho para alguém que é mais jovem  e quer emplacar no mercado de design de joias?


A joia é algo que requer perfeccionismo. Você tem que respeitar o  craft e ter uma base de artesãos de qualidade antes que haja espaço  para muita criatividade. Tive a sorte de herdar um ateliê onde tive  a liberdade de experimentar novas técnicas, pois as fundações já  estavam no lugar. Ser curioso, consumir muitas referências, não só  de joias, claro, se aprofundar nas pesquisas, criar uma identidade  única, não cair em armadilhas do que o vizinho está fazendo,  montar uma boa equipe, ter extremo cuidado em todas as partes  do processo são alguns dos meus conselhos. Sempre haverá espaço  para joias feitas com originalidade, executadas com qualidade e  alinhadas com propósito e o espírito do tempo.


Por que você faz o que faz e o que faz tudo valer a pena  para você?


Eu amo o que faço e me sinto muito afortunada em poder  reescrever a história de uma marca tão importante na história do  Brasil. Mas sem dúvidas, o que faz tudo valer a pena pra mim, o que  mudou minha vida completamente e me faz querer ser melhor a  cada dia é meu filho de quatro anos, o Felix.

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