Cadu Doné: Fábio e a torcida do Cruzeiro

Liturgia, elegância: no segundo em que se atinge determinado patamar de grandeza dentro de uma instituição, os súditos desta nunca hão de sequer flertar com o esquecimento

Para muitos torcedores, Fábio - agora no Fluminense - ainda é maior jogador da história do Cruzeiro (Foto: Marcelo Gonçalves)


Na derrota para o Fluminense na última terça, 12, a torcida do Cruzeiro protagonizou novo show no Mineirão. Tornou-se rotineiro. Bateu o próprio recorde de público presente na temporada no gigante da Pampulha. Quantidade e qualidade: estádio repleto, lotado, e apoio incondicional ininterrupto. Cânticos entoados em uníssono nos 90 minutos. Fidelidade e compreensão reafirmadas mesmo após o revés por 3 a 0 – e ressaltemos: a equipe já vinha de dois resultados adversos e de pelo menos uma atuação bem fraca.

Dito isso, cheguemos a um recorte específico: as manifestações da multidão direcionadas ao goleiro Fábio, para muitos, o maior jogador da história da Raposa – ainda ficaria com Tostão, mas está longe de configurar absurdo eleger o arqueiro que agora defende o tricolor carioca. Antes do cotejo, louvável homenagem – “ponte que partiu, é o melhor goleiro do Brasil, Fábio!”. Depois, porém...

Apito inicial. Vaias em todas as oportunidades nas quais Fábio recebia a bola recuada. Notemos bem: este tipo de comportamento não surgiu dirigido ao rival, de forma geral, e apenas continuava quando o “camisa 1” oponente também participava da peleja; o vociferar com conotação negativa restringia-se exclusivamente ao personagem em tela.

Muito provavelmente, a postura da massa celeste contemplou o seguinte raciocínio: aplausos enquanto o duelo não está em curso; pressão nos instantes em que a redonda era disputada. Um afago antecedendo a lógica “nenhuma pessoa é maior do que o clube”.

O fato de Fábio ter sido agraciado com demonstrações de carinho enquanto aquecia, certamente ameniza a sensação de crítica que vou apontar; todavia... Diante de ídolos com folhas de serviços prestados irretocáveis, longevas, na minha visão, em nenhuma circunstância – a não ser, claro, um desrespeito advindo destas figuras –, vaias e/ou xingamentos, piadas com teor “maldoso”, devem existir.

Liturgia, classe, elegância, gratidão a toda prova, respeito à história de um sujeito que se entrelaça de modo umbilical à do clube como um todo: no segundo em que se atinge determinado patamar de grandeza dentro de uma instituição, os súditos desta nunca hão de sequer flertar com o esquecimento. E não são apenas os fãs azuis a padecerem com deslizes desta natureza.




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