Darwin no século XXI: quem sobrevive?


Vocês já tentaram explicar algum aspecto do mundo digital para alguém de maior idade e/ou que não quer realmente fazer parte dessa revolução tecnológica? É desesperador em um primeiro momento, mas, depois, tomamos uma lição de humildade quando pensamos que eles sobreviveram a coisas muito mais brutais do que um post maldoso no Facebook ou tiveram que lidar com situações piores do que ficar sem internet.

Não sou tão nova que não me recordo de um mundo sem internet, nem tão velha a ponto de precisar de ajuda com as tecnologias mais novas. Nasci no mundo analógico e fui crescendo juntamente com o mundo digital. Sou da época da internet discada - aquele barulhinho irritante pode ser nostálgico -, dos desenhos animados com dias e horários marcados e das notícias vindas do jornal nacional, jornal impresso ou revista. Na atual conjuntura, parece outro mundo, e, muitas vezes, acho que Aldous Huxley estava correto, é um admirável mundo novo.

Esse momento nostálgico me levou a levantar alguns questionamentos. Os jovens que cresceram só com o mundo digital sobreviveriam em mundo analógico? Se não puderem só clicar em uma solução, ela existiria e eles conseguiriam encontrá-la? (Sim, estou sendo um pouco maldosa, mas à medida que os anos passam, entendo e me identifico cada vez mais com os velhos rabugentos…) O que Darwin pensaria da nossa capacidade de reverter doenças antes tidas como fatais e de conseguirmos alterar o ambiente em que vivemos? Sua teoria ainda funcionaria? Os mais aptos estão sobrevivendo ou quem sobrevive são os com maior acesso tecnológico, independente de aptidão? É a seleção natural ou artificial? (Infelizmente, inteligência não é um fator tão determinante quanto eu gostaria, pois já dizia Isaac Asimov: “A inteligência é um acidente da evolução e não necessariamente uma vantagem”).

A pandemia dos últimos dois anos nos mostrou que não estamos tão preparados ou evoluídos como gostaríamos de pensar. A natureza ainda é capaz de nos surpreender e de nos assustar. Temos a capacidade de visualizar o universo de bilhões de anos atrás e de criar inteligências artificiais capazes de fazer cirurgias e detectar doenças, mas um “simples” vírus ou protozoário ainda nos confunde. É uma incongruência avassaladora, mas, ao contrário do que muitos pensam, ela também é normal. Uma vez que todos os seres biológicos evoluem, não consigo entender como ainda esperamos que vamos conseguir curar todas as doenças ou vencer a morte… Como nos disse Luiz Fernando Veríssimo: “Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.”

Por isso, por mais fascinante que as novas tecnologias possam ser, elas sempre estarão se desenvolvendo concomitantemente com os seres vivos. Mesmo com a evolução das máquinas sendo exponencialmente maior que a biológica - alguém se lembra de Exterminador do Futuro? - ela ainda assim está ligada a fatores externos que podem dificultá-la. Sarah Connor que o diga! Dessa forma, devemos aprender a utilizar esses recursos a nosso favor e não de maneira a dificultar a vida ou ignorar conceitos básicos… Mais uma vez as palavras de Asimov se provam verdadeiras: “O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria”. E por último, devemos sempre nos lembrar que o mundo de hoje não é imutável e que o conhecimento que temos agora pode ser considerado errado em um futuro próximo. Devemos sempre questionar os preceitos existentes e não nos apegar às máximas que conhecemos. As decisões que tomamos no presente devem levar em conta o mundo de amanhã, permitindo, assim, um progresso mais sensato e uma evolução mais inteligente.



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