Desventuras em série


Viajar é ver na prática se o Estoicismo funciona de verdade! Quando Zenão, no século IV a.c., criou os primeiros preceitos dessa filosofia, ele tinha acabado de perder tudo em um naufrágio. Depois da minha última viagem, compreendo porque ele quis se espiritualizar… era isso ou sair matando pessoas em massa. Além disso, viajar faz você questionar sua fé na raça humana, se ainda tiver alguma, claro.

Quando nos preparamos para uma viagem é tudo maravilhoso, imaginamos todos os passeios que vamos fazer e lugares a visitar. E a pandemia nos deixou ainda mais sedentos por essas experiências. Porém, sempre esquecemos do fato que a lei de Murphy existe e ela te atacará quando você menos espera. Na largada o universo já estava tentando me avisar para ficar em casa, mas ao invés de escutar resolvi ir saracotear na Europa. No dia de viajar chutei um móvel e machuquei o dedo do pé - bom, a bem verdade é que quebrei o dedo. Mas, entre UM dedo do pé - possivelmente quebrado - e uma viagem internacional, adivinhem qual ganha? (Dica: temos dez dedos do pé). E lá fui eu, mancando e sorrindo para pegar o avião. Claro que o vôo estava atrasado, além de ter proporcionado momentos de tensão pré-embarque, pois, desde a nova lei que permite às cias aéreas cobrarem por bagagens, os passageiros querem levar até o sofá de casa como mala de mão. Logo, em vôo lotado isso ia dar problema, e deu. Os funcionários ficaram fazendo terrorismo conosco, pedindo voluntários para despacharem as bagagens de mão até o destino final sem custo, mas se não tivesse o número X de voluntários, todas elas seriam despachadas. Emocionante, não? Consegui embarcar agarrada na minha malinha de mão! O desembarque em SP foi pura lição de civilidade, como já estávamos mais de uma hora atrasados e muitos passageiros tinham conexões em Guarulhos, foi um empurra-empurra, briga e falta de educação com os comissários de bordo, todo mundo achando que tinha mais direito do que aquele que estava a frente. Tudo isso para um desembarque remoto, ou seja, tivemos que entrar em um ônibus e esperar ele encher para depois alcançarmos o portão. Meu vôo internacional que se seguiu foi até bem básico e calmo, até estranhei.

Aterrissei na terra da finada rainha cheia de esperança e felicidade! Ia encontrar e ficar na casa de uma amiga querida. Eis que no terceiro dia, minha amiga tem um surto psicótico - ou ela sempre foi doida e nunca percebi - e me expulsa de sua casa. Lá fui eu, arrastando meus pertences pelas ruas de Londres, aos prantos, à procura de um hotel. E vamos combinar, na atual conjuntura econômica, chorar em moeda estrangeira não é legal… Depois de todo o choro, raiva e estresse, finalmente cheguei na Holanda para encontrar meus pais. Não ficamos em Amsterdã propriamente, mas em uma região mais rural do país, em uma linda cidade chamada Apeldoorn. Com paisagens bucólicas, castelos, florestas, pastos e vacas, tive a oportunidade de relaxar e pelo menos salvar o resto da viagem. Assim, consegui me preparar psicologicamente para a etapa final dessa odisséia: o vôo de volta.

É de se pensar que isso seria tranquilo, não? Sonho de uma noite de verão… Após pagar o olho da cara por um taxi para me levar ao aeroporto, chego para fazer o check-in, só para ter a atendente me perguntando: “a senhora recebeu alguma notificação da companhia?”. Claro que isso não significava um upgrade ou alguma regalia. Simplesmente tinham cancelado a minha passagem de volta. Maravilha! Nessa altura do campeonato não perdi a calma nem a educação, nada mais me afetava, já estava abraçada com Buda… Com muita luta e ligações internacionais, a cia aérea conseguiu refazer o meu bilhete e consegui embarcar. Vitória! Só que não. Tive que fazer uma conexão em Madri - primeira e única vez que faço isso. Pensei que fosse voltar para o Brasil a pé, pois levei 1h30 - isso mesmo que leram, UMA HORA E MEIA - para trocar de terminal, “dentro” do mesmo aeroporto. Tive que pegar dois ônibus e um trem…

Porém, como todos sabemos, não há nada tão ruim que não possa piorar. Eis que chego em São Paulo e percebo que uma de minhas malas havia sido aberta! Não só aberta como revirada e teve itens roubados - meus cheirosos perfumes… Doce ilusão a minha de que o pior seria passar pela aduana… Já estava no limite de minhas forças, só queria voltar para casa, abraçar meu cachorro e ficar deitada na posição fetal até 2023; mas ainda restava o vôo para Belo Horizonte, que não podia passar desapercebido obviamente. Embarquei na aeronave e tive que ficar uma hora esperando um comissário de bordo ser encontrado e entrar na nossa aeronave para poder decolar. Com a derrota estampada na cara, desembarquei em Confins para fazer o “B.O” da mala violada junto à cia aérea, mais uma luta que ainda não terminou. Após todos esses perrengues, fiquei me questionando: por que diabos eu queria tanto viajar? Teria sido mais fácil, tranquilo e barato ter ido visitar um amigo em Lagoa Santa. Fica a dica!


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