Guardiola e as mentiras do senso comum

Colunista: Cadu Done


Como em basicamente tudo, em opiniões que se tornaram onipresentes a respeito de Guardiola, no senso comum, os erros seguem se espalhando com a altivez de quem pronuncia um aforisma nietzschiano retirado, vá lá, de Ecce homo – tido quase unicamente como “polêmico”, “controverso”, quem diria, no próprio “senso comum iniciado”, quando nada tão além do brilhantismo e da originalidade haveria de saltar aos olhos.


As proposições que se espalham no senso comum são edificadas em leituras superficiais que ressoam como opiniões sensatas e inteligentes, o que leva o homem médio a pronunciá-las em suas interações justamente pela ânsia por ganhar o afago da plateia. Exemplo: em rodas lotadas de quem nunca assistiu a 90 minutos de partidas das equipes do gênio catalão ganha corpo uma visão que o diminui em demasia por não ter vencido a Liga dos Campeões sem Messi.


Não nos tocamos para o seguinte: em toda sua carreira – Barça, Bayern e City –, Guardiola nunca teve uma “má fase”. Lembro-me de um começo de temporada pelos Citizens em que isso chegou a ser levantado; era exagero, despropositado. Mais e importantíssimo para que se construa uma história justa: na ESMAGADORA maioria de TODA sua caminhada, os times de Guardiola eram os melhores do mundo durante cada instante, cada mês, cada rodada; em quase todas as poucas exceções, não abandonavam o pódio nestes pequenos “lapsos” normalmente preenchidos por Bayern e/ou Liverpool.


Guardiola erra. E vacilou em perdas na Champions. Espelhou o Lyon sem a menor necessidade e foi eliminado. Escalou meio-campo demasiadamente frouxo diante do Chelsea e perdeu a final. Na última quarta – apesar de a retirada de De Bruyne sempre nos deixar um tanto hesitantes, com a pulga atrás da orelha –, não cometeu erros concretos, palpáveis. Guardiola não tem conquistado tanto a Europa; azar do Velho Continente.

E na sabedoria do gênio que estava do outro lado: o sensacional Ancelotti não trepidou ao considerar, sim, o papel da sorte no esporte. Como Woody Allen em Match Point. Os manuais dos “coaches de Instagram” idealizam, fantasiam em torno de uma romantizada meritocracia de modo a promover injustiças, estupidez e culpa de quem não está não por ausência de qualidades, e sim pelo fato de as circunstâncias terem sorrido só para o vizinho; são os “vencedores da vida” do mundo contemporâneo, os promotores do viver pelo parecer (em detrimento do ser, usualmente). O italiano que ganhou ao menos um título em todas as cinco grandes ligas mundiais pensa diferente.

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