Philippe Vallois, esporte e homofobia

O futebol permanece como recorrente refúgio da intolerância. Pena que aos preconceituosos das arquibancadas, a sensibilidade do cineasta nada diria.


Philippe Vallois: desconhecido no Brasil cineasta francês retrata o esporte em algumas de suas obras (Foto: Lu Lacerda)


Cine Humberto Mauro. Um oásis. Graças ao seu brilhante curador, Bruno Hilário – capaz de nos brindar não apenas com o indie, o autoral clássico e/ou novo, mas também com o que foge até do alternativo mais óbvio –, uma mostra única: “Philippe Vallois: cartografias do desejo”. 50 anos de carreira, pioneiro do cinema LGBT+, filmografia multifacetada no que compete a gêneros e estilos, criações inteligentíssimas e, ainda assim... Um completo desconhecido no Brasil. Com a exibição de cinco longas e dois curtas deste gênio, a melhor casa da sétima arte na nossa capital – junto com o "Belas"... – desfez o crime de manter talento tão ímpar amplamente fora de qualquer circuito.


Gostaria aqui de abordar apenas as implicações estéticas, filosóficas, o vanguardismo (...) das obras-primas do nosso personagem do dia. Mas esta é uma coluna de esportes. E não é que o tema aparece com alguma frequência...


Em “O círculo dos pervertidos”, em meio a estupendas reflexões, por exemplo, acerca da teoria do Eterno Retorno, de Nietzsche, nos deparamos com uma foto de Roger Pipa, “o atleta mais bonito da França em 1972”, descrito qual um “modelo grego”; no fim da fita, de modo singelo, descobrimos que aquela imagem exercera na narrativa papel mais relevante do que o inicialmente vislumbrado...


Ainda neste esforço carregado de jogos existenciais, referências às Olimpíadas de Munique, em 1972, surgem frequentemente. O Vallois, digamos, já experiente, interpretado com esmero pelo próprio, dá de presente à sua “versão” mais jovem uma valiosa moeda comemorativa da citada competição. Números do massacre advindo naquela oportunidade na Alemanha são listados. Em determinado momento, a condição do evento edificado na Grécia antiga enquanto símbolo da paz é questionada. De quebra, o protagonista do labor em tela veste por muitos minutos da história um uniforme antigo dos “Springboks”, a seleção sul-africana de Rugby.


No surrealista "Éramos um só homem”, de 1979, há um cachorro nomeado “Ajax”. Elucubrando que o lançamento do trabalho ocorrera em período de enorme hype do futebol holandês, conjecturei que o nome poderia ser uma homenagem ao clube de Amsterdam. Vallois me assegurou que não se tratava disso (e sim de uma piscadela à “Ilíada”, de Homero).


O futebol, por certo prisma, permanece como recorrente refúgio da homofobia. Pena que aos imbecis das arquibancadas, a sensibilidade de Vallois nada diria...








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