Quem dança seus males espanta


No feriado de Finados deste ano, comemorou-se também o Dia Mundial do Ballet. Atualmente tem-se dias comemorativos para tudo e todos, se eles são relevantes ou não vai depender da sua atenção ao calendário ou se a data tem alguma significância pessoal. No meu caso, a dança - em especial, o Ballet Clássico - tem sido parte da minha vida desde que eu me entendo por gente. Minha mãe sempre teve um apreço muito grande por essa arte e quis que eu também o tivesse. Aos 4 anos de idade, fui colocada em uma turma de Ballet.

Se gostei ou não, não posso afirmar, mas fui dançando conforme a música. Na adolescência tive uma fase rebelde e quis trocar o Ballet pelo Jazz - que estava na moda, mas ela se manteve firme e falou que eu faria os dois, pois no futuro eu me arrependeria se largasse o clássico…

Felizmente, ou infelizmente dependendo de como vocês veem um acerto materno, isso se provou verdadeiro. Como reza o ditado: cada mãe sabe o filho que tem… Abandonei o Jazz e qualquer outro tipo de dança, exceto o Ballet clássico, que permaneceu - e permanece ainda hoje - necessário em minha existência. Não importa onde estou ou o que estou fazendo da vida, tenho que dançar. É curioso como algumas coisas de nossa infância se perpetuam e tornam-se hábitos indispensáveis - ou, melhor dizendo, tornam-se parte de quem somos.

Porém, ser bailarina é mais do que simplesmente colocar um par de sapatilhas e sair dançando. É desafiar e levar seu corpo a novas alturas e possibilidades. Destravar a mente e abandonar os medos para alcançar novos movimentos e passos. A dança não é só algo artístico ou uma coleção de passos coreografados, mas uma forma de se expressar e uma paixão que vem de dentro. Como nos disse Rudolf Nureyev: "Técnica é o que você usa quando fica sem inspiração.” No início, você pode não ser muito coordenado ou ter muito ritmo, porém, um amor pelo movimento tem que existir. Não existe bailarina, dançarino, coreógrafo ou coreógrafa que não diga que a dança é movida por essa emoção. Isso é o que separa os meros praticantes dos verdadeiros artistas. “Grandes bailarinos não são grandes por causa de sua técnica, mas por causa de sua paixão (Martha Graham)”.

Tive muita sorte de ter encontrado professores que sempre foram apaixonados por essa arte e conseguiram transmitir isso para mim e para meus colegas. Viver de arte no Brasil não é uma tarefa fácil! Todos acham lindo um Ballet de repertório bem dançado, mas ninguém se pergunta ou para para pensar nos anos de trabalho e dedicação que foram necessários para alcançar esse sucesso. Sem contar que o retorno financeiro muitas vezes deixa a desejar, uma vez que o reconhecimento por parte da sociedade pode ser bem pífio. “Ah, você é dançarino(a) ou professor(a) de dança? Que legal…- dito com um sorriso amarelo.” Considero a maior hipocrisia as pessoas clamarem por programas culturais ou se dizerem cultas, mas não quererem apoiar seus artistas. Por isso, esse pode ser um caminho árduo, contudo, essas pessoas não poderiam ter feito outra coisa, pois dançar era e permanece sendo imperativo em suas vidas. Dançam não porque elas QUEREM dançar, mas porque elas TEM que dançar, é um prazer e um dever, uma chama que queima por dentro. Nas palavras de Margot Fonteyn: “Ballet é mais do que uma profissão - é um modo de vida.” Assim, fica aqui o meu mais sincero agradecimento a todos aqueles que já passaram por minha vida dançante e me ajudaram a alimentar essa paixão.