- Atualidades
- julho 27, 2025
- 7 minutos
Entrevista: Parentalidade positiva
Especialista Fernanda Teles aborda a relevância de uma criação bem-sucedida na família

A educação parental surgiu como um movimento para orientar pais, mães e responsáveis na adoção de práticas de criação conscientes, respeitosas e assertivas, com a finalidade de fortalecer o vínculo familiar e estimular o desenvolvimento cognitivo e o bem-estar físico, emocional e mental dos filhos. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, a psicóloga e especialista em educação parental, Fernanda Teles, que também é CEO e sócia do Seminário Internacional de Mães, conta um pouco sobre como o modelo de criação bem-sucedida é um dos pilares na prevenção da violência contra crianças.
Nos últimos anos, a educação parental se consolidou no Brasil e ganhou ainda mais força após ser incluída na lei federal n° 14.826, como uma das estratégias de prevenção da violência contra crianças. Qual é a relevância da parentalidade positiva para as famílias?
Ao ser oficialmente incluída como estratégia de prevenção à violência contra crianças, a parentalidade positiva ganha respaldo institucional como uma abordagem essencial para a construção de famílias mais seguras, conscientes e saudáveis. Trata-se de reconhecer que o cuidado emocional, a construção de vínculo e a educação respeitosa são formas reais de proteção. Essa abordagem oferece aos pais fundamentos claros para lidar com os desafios da criação de filhos sem recorrer a práticas punitivas, humilhantes ou negligentes. Ao priorizar o respeito mútuo, a empatia e a presença afetiva, ela previne a violência — física e emocional — e cria um ambiente propício ao desenvolvimento integral da criança. É um caminho que convida os adultos a serem responsáveis por sua postura diante da infância, reconhecendo que cuidar de quem cuida de todo mundo é também um ato de transformação social.
Quais são os princípios da educação parental?
A educação parental é um campo estruturado e ético que promove práticas conscientes de cuidado e orientação a partir dos seguintes princípios: presença afetiva: estar emocionalmente disponível, e não apenas fisicamente presente; escuta ativa e validação emocional: compreender que as emoções da criança merecem atenção e acolhimento; limites com sentido: não basta dizer “não”, é preciso comunicar com firmeza e empatia o porquê; cuidado com o vínculo: as relações são mais importantes do que os comportamentos isolados; autorresponsabilidade dos adultos: o comportamento da criança é responsabilidade compartilhada, mas a condução da relação é tarefa do adulto; educação com coerência: a criança aprende mais pelo exemplo do que pela instrução. Esses princípios favorecem o desenvolvimento da criança e tornam o ambiente familiar mais humano e colaborativo.
De que maneira a abordagem empodera os pais e estimula uma relação saudável com seus filhos, com impactos que perduram até a fase adulta?
A parentalidade positiva oferece aos pais ferramentas práticas e compreensão emocional para enxergar o comportamento da criança e do adolescente além da superfície. Isso os ajuda a conduzir conflitos com mais clareza e a construir uma base relacional sólida, marcada por confiança, cooperação e respeito. Ao educar com consciência, os pais conseguem tomar decisões com menos reatividade e mais intencionalidade. Isso fortalece os laços familiares e reduz os ruídos emocionais da convivência. Com o tempo, essa forma de conduzir a educação forma adultos mais seguros, empáticos e conscientes de seus próprios valores e limites. E para os pais, o impacto também é profundo: há mais conexão, menos culpa e uma percepção real de que é possível educar com firmeza e gentileza ao mesmo tempo.
Quais são os prejuízos, a curto e longo prazo, de uma criação baseada no autoritarismo, na permissividade e na falta de diálogo?
Cada um desses estilos parentais desregulados gera impactos importantes: o autoritarismo gera medo, insegurança e bloqueia a expressão emocional da criança; a permissividade deixa a criança sem orientação, gerando confusão sobre limites e responsabilidade; a negligência ou ausência de diálogo leva à desconexão emocional e à solidão precoce. A curto prazo, isso se traduz em crises de comportamento, ansiedade, agressividade, dependência emocional ou apatia. A longo prazo, os efeitos podem incluir dificuldade de estabelecer vínculos saudáveis, baixa autoestima, transtornos de ansiedade, culpa crônica e padrões relacionais tóxicos. A parentalidade positiva surge como um convite ao equilíbrio: uma educação que acolhe e orienta, que escuta e limita, que ama e conduz.
Como o Seminário Internacional de Mães tem influenciado a percepção das famílias sobre a parentalidade positiva, atuando também como um espaço de acolhimento e troca de experiências?
O Seminário Internacional de Mães é o maior evento de maternidade do Brasil e a cada ano se consolida como um movimento cultural e afetivo de transformação da experiência materna. Em sua 11ª edição, o evento levou ao palco vozes potentes como Daiana Garbin, Leo Fraiman, Verônica Oliveira, Sheylli Caleffi, Mônica Pitanga, Izabella Camargo e Thiago Godoy, que vivem, pesquisam e compartilham as diversas camadas da maternidade real. Como sócia diretora, eu tive a honra de ser a anfitriã do evento e conduzir milhares de mulheres para uma jornada de autoconhecimento, pertencimento e reconexão com a própria história. Com vivências sensoriais, rodas de conversa e momentos de escuta, o seminário promoveu aprendizado, acolhimento real, reconhecimento emocional e segurança para que cada mãe pudesse se ver e se permitir ser vista. Ao trazer temas como ambivalência materna, violência online, inclusão, saúde mental, educação com propósito e finanças familiares, o evento ajudou milhares de mulheres a se reconectarem com sua força. Esse é um dos maiores legados do seminário: em um mundo que sobrecarrega a mãe e apaga a mulher, nós criamos um espaço onde ambas podem existir com dignidade, verdade e potência.