- Entrevista
- janeiro 18, 2026
- 7 minutos
Entrevista: Arquitetura de transformação urbana
Arquiteto urbanista aborda o design como estratégia urbana e ambiental

A arquitetura enfrenta hoje o desafio de equilibrar viabilidade econômica, impacto social, responsabilidade ambiental e qualidade urbana. Para Alexandre Nagazawa, arquiteto urbanista e diretor da Bloc Arquitetura Imobiliária, a arquitetura não é um objeto isolado, mas uma ferramenta ativa de transformação da cidade.
Com mais de duas décadas de atuação em Minas Gerais, sua trajetória articula projeto arquitetônico, incorporação imobiliária e desenvolvimento de novos negócios a partir de uma visão sistêmica do território. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Nagazawa fala sobre as a arquitetura que transforma ambientes e promove interação social.
O que a Bloc Arquitetura Imobiliária faz de diferente, e como o conceito de humanizar projetos, valorizando negócios, se traduz em um empreendimento de Belo Horizonte?
Humanizar, para nós, é reconhecer que um edifício não termina em seus limites físicos. Ele se estende à rua, à calçada, às relações sociais e ao impacto ambiental que produz. Cada projeto é pensado como parte de um sistema maior, no qual arquitetura, infraestrutura, paisagem, água e pessoas estão interligadas. Isso se traduz em decisões objetivas, como térreos ativos, convite ao espaço público, mistura de usos e incorporação da natureza como conforto ambiental. O design, nesse contexto, não é acabamento nem luxo. Ele é estratégia urbana e ambiental. Quando bem conduzido, promove bem-estar, pertencimento e equilíbrio climático, gerando valor cultural, social e econômico duradouro. Por isso, adotamos o design biofílico como princípio estruturante, essencial para mitigar eventos climáticos extremos e fortalecer cidades mais resilientes. Arquitetura de qualidade não é inimiga do mercado, mas condição para sua sustentabilidade no longo prazo.
Qual pensador do urbanismo teve a maior influência prática em sua visão de cidade e qual a lição mais valiosa podemos aplicar nas cidades?
Jane Jacobs teve influência decisiva na nossa visão de cidade ao demonstrar que a vitalidade urbana nasce da diversidade, das calçadas ativas e da presença constante das pessoas no espaço público. Essa leitura reforça a compreensão de que arquitetura não é apenas forma, mas construção de relações. Quando o mercado imobiliário prioriza soluções padronizadas, fachadas genéricas e edifícios que pouco dialogam com a rua, ele contribui para cidades mais pobres, menos seguras e menos interessantes de se viver. Nesse sentido, o mercado não deve ser visto apenas como obstáculo, mas como campo de atuação crítica. Quando o projeto articula viabilidade econômica, responsabilidade urbana e qualidade arquitetônica desde o início, o design deixa de ser um custo e passa a ser um ativo urbano, capaz de transformar a cidade e qualificar a vida cotidiana.
Como o senhor avalia o projeto de revitalização da rua Sapucaí em um cenário de resgate da vitalidade do espaço público e de convivência?
A revitalização da Sapucaí evidencia como as cidades possuem potências latentes que aguardam condições adequadas para emergir. Ali já existiam paisagem, memória, vocação cultural, economia local e comunidade. A intervenção revelou esses valores ao devolver protagonismo ao espaço público. Em contraste com ruas ladeadas por edifícios estéreis e fechados, a Sapucaí passou a oferecer permanência, convivência e identidade, fortalecendo a economia local e o sentimento de pertencimento.
Quais outros projetos e avanços significativos o senhor considera que BBH tem dado para se tornar uma cidade mais planejada e preparada para o futuro?
Belo Horizonte avançou em digitalização e desburocratização dos processos urbanísticos, o que é importante, mas insuficiente diante dos desafios contemporâneos. Uma cidade preparada para o futuro precisa ir além da norma e enfrentar a baixa qualidade arquitetônica que marca grande parte da produção recente. Isso exige investir em infraestrutura verde, drenagem sustentável, conforto climático, mobilidade caminhável, espaços públicos qualificados e edifícios que contribuam para a paisagem, em vez de empobrecê-la.
Em termos de arquitetura e urbanismo, qual o passo mais urgente que Belo Horizonte precisa dar para se tornar uma cidade verdadeiramente mais humana e inclusiva?
Revisar a legislação urbanística é necessário, mas isso precisa vir acompanhado de uma mudança cultural na forma como o mercado imobiliário produz a cidade. Investidores e incorporadores têm papel central na definição do desenho urbano e da qualidade dos edifícios. Mais do que liberdade formal, precisamos de responsabilidade urbana. Mistura de usos, densidade bem orientada, desenho biofílico, adaptação climática e qualidade arquitetônica devem ser compromissos reais. Cidades mais humanas nascem de escolhas melhores, inclusive do mercado.
O senhor estabelece que a arquitetura deve ser responsável pela formação da cidade. O que exatamente abrange essa formação? E quais os riscos quando esse papel é negligenciado?
A formação urbana é uma responsabilidade compartilhada, mas investidores, incorporadores e construtores exercem papel decisivo ao definir implantação, programa e qualidade arquitetônica. Essas escolhas moldam a cidade por décadas. Quando o design é tratado como detalhe secundário, surgem cidades mais quentes, impermeáveis, excludentes e visualmente empobrecidas. Edifícios estéreis, sem relação com a rua, sem sombra, sem vegetação e sem vida urbana tornam-se regra, ampliando ilhas de calor, enchentes e vulnerabilidade climática. O arquiteto precisa ocupar um papel mais ativo e estratégico, no executivo, no legislativo e inclusive como empreendedor. Quando quem projeta também legisla, constrói, amplia-se a capacidade de alinhar qualidade urbana, responsabilidade ambiental e viabilidade econômica. A cidade ganha quando o espaço construído deixa de ser mercadoria genérica e passa a ser suporte real para a vida coletiva.