- Atualidades
- janeiro 19, 2026
- 10 minutos
O oceano fala. É preciso aprender a escutar
Oceanógrafa brasileira Katharina Grisotti concilia ciência, arte e expedições transoceânicas para reconectar pessoas ao planeta

Luís Otávio Pires
Em 2026, um novo filme promete convidar o público a silenciar o ruído do cotidiano para ouvir algo mais profundo: o som real que a Terra emite a partir de seus oceanos. É dessa vibração quase imperceptível — um conjunto misterioso de baixas frequências geradas pelas águas do planeta — que a oceanógrafa e documentarista brasileira Katharina Grisotti constrói seu novo trabalho autoral, com apoio de uma ONG internacional. Embora seja um documentário ambiental – ainda sem data de lançamento – o projeto nasce como um gesto poético: um convite para lembrar quem somos e de onde viemos.
“Esse filme parte de um som real da Terra para falar da nossa desconexão com a natureza e com nós mesmos. Ele surge de uma experiência muito concreta da minha própria história com o oceano, inclusive com imagens filmadas em Super 8 durante a travessia do Atlântico. Isso trouxe uma camada de verdade muito grande para o filme”, afirma.
Apesar de profundamente pessoal, o projeto dialoga com um sentimento coletivo. Em um mundo marcado por crises ambientais, excesso de informação e sensação de ruptura, a jovem oceanógrafa de 27 anos aposta menos em respostas prontas e mais na experiência sensível.
“Eu gostaria que as pessoas permitissem que o filme fosse menos algo a ser compreendido e mais algo a ser vivido. Talvez não sair com respostas, mas com boas perguntas. Se ficar aquela faísca que convida a explorar tanto o oceano quanto a si mesmo, então o filme cumpriu seu papel”, afirma.
Galeria – Mar Brasileiro, um dos documentários de Katharina Grisotti sobre o oceano:
Entre o mar e a imagem
Nascida em Itapevi, na Grande São Paulo, Katharina Grisotti cresceu cercada por câmeras, roteiros e ilhas de edição. Filha de uma documentarista e de um diretor de arte e fotógrafo, ela brinca que nasceu “no meio do audiovisual”. Caçula de quatro irmãos, divide atualmente sua rotina entre São Paulo e Santa Catarina, sempre com o oceano como eixo.
Ainda assim, sua trajetória profissional não começou atrás das lentes, mas nas exatas. Formada em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP), Katharina quase seguiu outro caminho.
“Eu sempre fui muito ligada às artes e às ciências humanas. Estudei teatro a vida toda e cheguei a pensar em prestar artes cênicas. Mas quando vi ‘oceanografia’ na lista da Fuvest, alguma coisa me chamou. Foi uma intuição muito forte, mesmo sem saber nada sobre o mercado de trabalho”, relembra.
A graduação, no entanto, não foi simples. “É um curso 100% de exatas, então eu sofri bastante para me formar”, conta. Ainda assim, foi nesse ambiente que ela começou a construir a ponte que hoje define sua carreira: a tradução sensível da ciência.
“Eu via muita arte nas aulas. Lembro de assistir a um timelapse de fitoplâncton em microbiologia e aquilo parecia um espetáculo de dança. Enquanto todos estavam focados nos números, eu estava impactada emocionalmente com o que estava vendo”, acrescenta.
Traduzir dados do oceano em pertencimento
Durante a graduação, Katharina se aproximou da comunicação científica, ao atuar em projetos da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, ao lado do professor Alexander Turra. A experiência rendeu, entre outros frutos, a websérie O Mar Dentro da Concha, financiada por um edital do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e gravada durante um estágio em uma pequena ilha no mar Egeu, na Grécia.
“Eu não acho que migrei da ciência para o audiovisual. Eu ampliei o que entendo por ser cientista. A ciência é uma lente para olhar o mundo, e o audiovisual é outra lente, uma ferramenta de tradução. Ele cria um espaço emocional para que os dados sejam absorvidos”, ressalta.
Para Katharina, essa intersecção é fundamental em um momento histórico marcado por excesso de alertas e paralisia coletiva. Segundo ela, ninguém muda por culpa ou por números. As pessoas mudam por pertencimento. Para a oceanógrafa, os dados são necessários, mas sozinhos geram medo. Já a arte mobiliza – acredita.
Galeria – Momentos de expedições que viraram documentários da oceanógrafa:
Essa visão ganhou corpo nas expedições realizadas com a família Schurmann, por meio da iniciativa da Voz dos Oceanos, voltada à conscientização sobre o lixo marinho. Com eles, Katharina atravessou o Pacífico e, mais recentemente, o Atlântico.
“Foi muito importante demais viver aquilo que eu só conhecia por fórmulas matemáticas. Sentir as correntes, as ondas, os lugares que eu via apenas no mapa mudou completamente minha relação com o mundo”, destaca.
As viagens revelaram contrastes profundos: ilhas remotas cobertas por lixo plástico e, ao mesmo tempo, comunidades tradicionais que oferecem lições de esperança. Ela lembra que a equipe, ao chegar a ilhas onde provavelmente mais pessoas foram ao espaço do que pisaram ali, mesmo assim havia muito lixo. Para ela, aquilo foi simbólico e assustador.
Em contrapartida, a convivência com povos polinésios transformou sua visão sobre futuro e resiliência. Lembra que viu mulheres plantando mangues, um por um, para proteger suas vilas dos ciclones. E que elas sabiam exatamente por que estavam fazendo aquilo, mas não deixavam de sorrir. Segundo ela, aquilo a ensinou que uma relação baseada na reciprocidade com a natureza gera força – não medo.
O oceano como protagonista invisível
Katharina é enfática ao afirmar que a crise ambiental é, antes de tudo, uma crise de relação.
“A gente vive em um planeta que é 70% água, que regula o clima, a temperatura, o ciclo da vida. Mas seguimos tratando o oceano como pano de fundo”, alerta.
Segundo a documentarista, três grandes ameaças pesam sobre os mares: lixo plástico, pesca predatória e mudanças climáticas. Mas há uma ainda maior: a desinformação. Explica que cerca de 80% do lixo que chega ao mar vem do continente. “Não importa se você está em BH, no Guarujá ou na Polinésia — tudo está conectado”, afirma.
O aquecimento dos oceanos – explica – enfraquece as correntes marinhas que regulam o clima global, ao intensificar eventos extremos. Na sua visão, o oceano responde muito rápido ao que a humanidade faz em terra. Por isso, não existe a expressão “jogar fora”.
Esperança e responsabilidade
Apesar do cenário alarmante, Katharina evita discursos fatalistas.
“Eu não gosto da ideia de ponto de não retorno, porque ela paralisa. A natureza é extremamente inteligente e tem uma capacidade incrível de adaptação e regeneração, especialmente quando protegida”, acredita.
Ela cita exemplos como o arquipélago de Alcatrazes, no litoral paulista, que apresentou forte recuperação após se tornar área marinha protegida. Para ela, o desafio está menos na ausência de soluções e mais na demora em implementá-las.
Políticas públicas baseadas na ciência, gestão de resíduos, transição energética, ampliação das área marinhas protegidas e democratização da informação são, segundo Katharina, caminhos inadiáveis.
Um chamado pessoal
A oceanógrafa deixa uma mensagem simples e poderosa, especialmente para quem vive longe do mar:
“Cada copo de água que a gente bebe já foi água salgada um dia. A maior parte do oxigênio que respiramos vem do oceano. A vida começou lá. O oceano foi a nossa casa. Talvez até o nosso primeiro útero. Reconstruir essa relação começa quando a gente sai do automático e lembra que está tudo conectado”, sugere.











