Entrevista: É preciso encarar de frente o problema da obesidade

Entrevista: É preciso encarar de frente o problema da obesidade

Especialista aborda a complexidade da obesidade como doença crônica e a urgência de abordagens multidisciplinares

médica Flávia Coimbra
Flávia Coimbra: “Precisamos de uma mudança cultural que reconheça a obesidade como doença e não como falha moral” (Foto; Arquivo Pessoal)

 

A obesidade, há muito tempo estigmatizada como mera questão de escolha individual, é hoje reconhecida como uma doença crônica multifatorial. Para entender os impactos e as estratégias de combate a essa epidemia global, o CIDADE CONECTA conversou com Flávia Coimbra Pontes Maia, endocrinologista cooperada da Unimed-BH e diretora da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, que oferece uma perspectiva mais profunda sobre o tema, seus desafios e as estratégias essenciais para a gestão da saúde.

A obesidade é frequentemente vista como falta de força de vontade. Qual a sua leitura sobre essa percepção e a realidade da doença?

Essa é uma afirmação perigosa. A obesidade é uma doença crônica, complexa e multifatorial, que não depende das escolhas pessoais. Fatores genéticos, ambientais, sociais e psicológicos interagem, tornando a perda e manutenção do peso um desafio imenso. A visão simplista de “comer menos e se exercitar mais” ignora a biologia e o contexto de cada indivíduo, perpetuando o estigma e dificultando o tratamento adequado. 

Quais são os principais fatores estruturais que impulsionam o aumento da obesidade, especialmente no Brasil?

Vivemos em um ambiente obesogênico. A facilidade de acesso a alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas, o sedentarismo imposto pela vida moderna, o excesso de tempo de tela e a redução do gasto energético em atividades diárias são cruciais. Esses fatores criam um desequilíbrio calórico e metabólico que favorece o ganho de peso, afetando inclusive crianças e adolescentes em escala alarmante.

A intervenção precoce é crucial. Em que momento um indivíduo deve buscar ajuda médica, mesmo que apenas com sobrepeso?

A busca por ajuda deve ser imediata ao identificar sobrepeso, especialmente se houver fatores de risco associados. Condições como colesterol alto, diabetes, hipertensão, problemas articulares ou apneia do sono são sinais de alerta. A intervenção precoce por meio de mudança de estilo de vida e até o uso de medicações para tratamento adequado pode prevenir a progressão para a obesidade e suas comorbidades mais graves, melhorando significativamente a qualidade de vida e reduzindo custos de saúde a longo prazo.

Quais são os erros mais comuns que as pessoas cometem ao tentar perder peso e que podem agravar o quadro?

Sem dúvida o erro mais frequente é a adoção de dietas restritivas extremas. Elas causam perda de massa muscular, que podem levar a deficiência de vitaminas e minerais, e acarretam a um padrão alimentar compulsivo, elas geram frustração e o temido efeito sanfona. Outro equívoco é focar apenas em exercícios cardiovasculares, negligenciando o treinamento de força, essencial para a conservação da massa muscular e o metabolismo. A automedicação também é perigosa, pois pode trazer riscos sérios à saúde sem acompanhamento profissional.

Como a saúde mental se relaciona com a obesidade, e qual o papel desse elo no tratamento?

A relação é bidirecional e forma um ciclo vicioso. A obesidade pode levar a problemas como ansiedade, depressão e baixa autoestima, enquanto esses transtornos podem, por sua vez, dificultar a adesão ao tratamento e promover hábitos alimentares inadequados. O suporte psicológico é fundamental para abordar questões emocionais, desenvolver estratégias de enfrentamento e garantir a sustentabilidade do tratamento.

Diante da complexidade, qual o modelo de tratamento mais eficaz para a obesidade?

O tratamento mais eficaz é o multidisciplinar. Ele envolve uma equipe integrada de endocrinologista, nutricionista, educador físico e psicólogo. Essa abordagem permite cuidar de todos os aspectos da doença (metabólico, nutricional, físico e emocional) de forma personalizada. Em alguns casos, a medicação pode ser indicada como parte desse plano abrangente.

Olhando para o futuro, quais inovações ou mudanças de paradigma são necessárias para enfrentar a obesidade em larga escala?

Precisamos de uma mudança cultural que reconheça a obesidade como doença e não como falha moral. Isso implica em políticas públicas mais robustas para regular a indústria alimentícia, promover ambientes saudáveis e facilitar o acesso a tratamentos multidisciplinares. A inovação está na educação, na prevenção desde a infância e na integração de tecnologias para monitoramento e suporte contínuo aos pacientes. É um desafio de gestão social e de saúde que exige colaboração de todos os setores.