- Entrevista
- maio 10, 2026
- 6 minutos
Entrevista: Conexão de literatura, território e novas linguagens
Idealizadora do Fliti destaca a evolução da feira, que chega à sexta edição com a reunião de escritores e artistas consagrados

Com o tema “Escrevo, logo existo: vozes que narram o agora”, a sexta edição da Feira Literária Internacional de Tiradentes (Fliti) acontece até domingo, 10 de maio, e reúne escritores e artistas em uma programação diversa. Idealizada pela produtora cultural Cristina Figueiredo, a feira retorna à região das Vertentes, em Minas Gerais, ao ocupar espaços públicos de Tiradentes, como a Praça da Rodoviária, o Largo das Mercês e o Largo das Forras, com atividades que incluem lançamentos de livros, mesas de debate, apresentações artísticas, exposições e venda de publicações. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, a organizadora mostra otimismo e reforça o papel social da feira, com ações como a distribuição de vouchers para aquisição de livros e a circulação do Ônibus-Biblioteca Fliti.
Quais foram as principais transformações do evento ao longo desses anos?
A Fliti chega a 2026 mais madura, com atuação ampliada e maior impacto social. Ao longo dos anos, o evento evoluiu de um encontro voltado ao estímulo à leitura para uma plataforma mais ampla, que articula literatura com outras linguagens, como música, artes visuais e pensamento contemporâneo. Também houve crescimento de público e alcance, além da consolidação da feira como um dos principais eventos literários de Minas Gerais. Outro avanço importante foi o fortalecimento da relação com o território, integrando-se à dinâmica cultural e econômica de Tiradentes.
Como você avalia o papel da feira hoje no cenário literário brasileiro, especialmente fora dos grandes centros?
A feira ocupa hoje um papel cada vez mais relevante no cenário literário brasileiro, especialmente por acontecer fora dos grandes centros. Em um País marcado por desigualdades de acesso à cultura, iniciativas como a feira contribuem para descentralizar a produção e a circulação literária, ampliando o alcance de autores, editoras e leitores. Dados importantes reforçam esse cenário: um levantamento da iniciativa “Todos Pela Educação” e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira aponta que cerca de 40% das crianças não estão plenamente alfabetizadas no País. Então, mais do que levar programação de qualidade para o interior, a Fliti cria um ambiente de troca genuína, em que diferentes gerações e perfis de público se encontram. Isso fortalece não apenas o hábito da leitura, mas também a formação de novos leitores e a valorização da literatura como experiência coletiva. Além disso, ao se consolidar em Tiradentes, a feira reforça o potencial das cidades históricas como polos de economia criativa, mostrando que é possível articular cultura, turismo e desenvolvimento local de forma sustentável.
Como é feita a curadoria da programação e quais critérios orientam a escolha dos convidados?
É construída a partir de um olhar atento para a diversidade de vozes, linguagens e temas que atravessam a produção literária contemporânea. Buscamos equilibrar a presença de autores consagrados com novos nomes, criando um diálogo entre diferentes gerações e perspectivas. A curadoria também considera o contexto em que a feira acontece. O objetivo é construir uma programação plural, acessível e relevante, capaz de gerar reflexão, troca e engajamento com diferentes públicos.
A edição deste ano traz encontros que conectam literatura com outras linguagens, como música e artes visuais. Essa transversalidade é um caminho natural para o futuro das feiras literárias?
Acredito que essa transversalidade não é apenas um caminho possível, mas sim uma tendência já em curso. A literatura sempre dialogou com outras linguagens, mas hoje se torna ainda mais evidente diante das mudanças na forma como as pessoas consomem cultura e constroem repertório. Prova disso é a mesa em que participam Flora Gil, Bento e Daniel Kondo, traduzindo a poética das músicas de Gilberto Gil para o processo de ilustração de obras como Andar com Fé, Nós, a gente, Refazenda, Refloresta, Sítio do Picapau Amarelo e Tempo Rei.
Como a feira se conecta com a comunidade local e com a região das Vertentes?
A conexão da Fliti com a comunidade local e com a região das Vertentes é um dos pilares do projeto. Desde a sua concepção, a feira foi pensada para dialogar com o território, envolvendo escolas, educadores, artistas e produtores culturais da região. Esse vínculo se dá tanto por meio da programação quanto por meio das ações sociais desenvolvidas. Além do ônibus-biblioteca que vai percorrer a região emprestando títulos para jovens e crianças da região, serão distribuídos cerca milhares de vouchers beneficiando 19 municípios da região.