• Artigo
  • maio 11, 2026
  • 9 minutos

Entre intocáveis, imbrocháveis e inelegíveis: “Tchau, Bessias”

Entre intocáveis, imbrocháveis e inelegíveis: “Tchau, Bessias”

Em 2026, enfrentar o sistema pode render voto, mas pode custar a permanência no jogo

Arthur Guerra
Arthur Guerra: “O eleitor gosta de quem fala forte, denuncia abusos e não pede licença para Brasília” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

A política brasileira entrou em 2026 com uma estranha obsessão: descobrir quem será capaz de enfrentar “o sistema” sem ser engolido por ele. O eleitor gosta de quem fala forte, denuncia abusos e não pede licença para Brasília. O problema é que Brasília também aprendeu a reagir. E, quando faz isso, nem sempre usa discurso. Acaba valendo de inquéritos, foro, colegiado e até inelegibilidade. Flávio Bolsonaro conhece bem essa zona cinzenta.

Durante anos, tentaram colar nele o caso das chamadas “rachadinhas”. Juridicamente, porém, o episódio perdeu força: decisões superiores do próprio Judiciário fizeram a denúncia ser arquivada. Não há condenação criminal ativa contra ele. Ainda assim, a política brasileira tem esse talento curioso: quando o processo esfria, a narrativa continua quente e já deram um “jeitinho” de instaurar investigação por suposta difamação no “X” (antigo Twitter) por uma fala de Flávio.

Agora, o risco é outro. Falas públicas, críticas institucionais e embates políticos entram no radar de investigações. E o detalhe nada pequeno é o foro: STF. Em eventual condenação por órgão colegiado, a consequência pode deixar de ser apenas desgaste de imagem e atingir o coração de qualquer projeto eleitoral: a elegibilidade.

Romeu Zema vive tensão parecida, com sotaque “mineirês” e tudo. O ex-governador demonstrou sua indignação e subiu o tom contra o Supremo, passando a se apresentar como alguém disposto a enfrentar “Os Intocáveis”.

Com isso, viu sua popularidade crescer justamente onde esse discurso encontra terreno fértil. Em resposta, Gilmar Mendes pediu sua inclusão no inquérito do “Fim do Mundo”, sob relatoria de Alexandre de Moraes, enquanto o bate-boca público ganhou contornos pouco republicanos. Houve ironias sobre o jeito de falar de Zema, associadas ao sotaque mineiro, e declarações que levaram o próprio ministro a pedir desculpas após repercussão negativa por fala considerada homofóbica. 

A cena é reveladora: de um lado, políticos que transformam o confronto com o Judiciário em combustível eleitoral. De outro, ministros que também parecem ter descoberto o prazer perigoso do embate público. No meio, o eleitor, tentando separar coragem de imprudência, autoridade de abuso e crítica legítima de crime de opinião.

Em Minas, esse tabuleiro ainda está longe de ser definido. Cleitinho aparece frequentemente com números robustos nas conversas sobre o governo estadual, mas muitos avaliam que sua força de comunicação talvez pese e seja muito importante ainda no Senado, onde discursos curtos, diretos e viralizáveis podem ter impacto nacional.

Mateus Simões, sucessor natural do grupo de Zema e filiado ao PSD de Gilberto Kassab, é nome dado como seguro na disputa pelo governo. Gabriel Azevedo, do MDB, também se movimenta como pré-candidato, depois da experiência recente na corrida pela Prefeitura de Belo Horizonte.

Há ainda Flávio Roscoe, que se licenciou da Fiemg, filiou-se ao PL e afirmou que o cenário mais provável seria disputar como cabeça de chapa em Minas. Seu nome conversa com o setor produtivo, com a pauta da gestão e com uma direita que talvez queira combinar firmeza política com linguagem econômica. 

Mas o verdadeiro centro nervoso de 2026 pode estar mesmo é no Senado. A rejeição de Jorge Messias para o STF mudou a temperatura do jogo. O Senado recusou a indicação por 42 votos a 34, em uma derrota histórica para o governo Lula e na primeira rejeição de um indicado ao Supremo em mais de um século. Foi a atuação responsável da Casa revisora?

Demonstração institucional de independência? Recado ao ativismo judicial? Ou vingança política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, contrariado nos bastidores da indicação (preterindo seu aliado Pacheco)? A resposta depende menos da Constituição e mais do observador.

O fato é que o Senado mostrou força. E, quando isso acontece em véspera de eleição, todo mundo entende o subtexto. A partir de 2027, a composição da Casa pode ser decisiva em temas como indicações ao STF e eventuais pedidos de impeachment de ministros. Não por acaso, a disputa mineira ao Senado parece mais palpável que a corrida ao governo.

À esquerda, Marília Campos, ex-prefeita de Contagem, aparece como nome bem posicionado, com possibilidade de composição envolvendo o recém-filiado ao PSB, Jarbas Soares. À direita, o quadro é menos pacificado, chegando a se aproximar algumas vezes, até do “Centrão”.

O presidente do PL em Minas, Domingos Sávio, e Carlos Viana, do PSD, são nomes lembrados, mas enfrentam ressalvas entre eleitores mais identificados com uma direita de forte enfrentamento. Viana, vale lembrar com delicadeza mineira, foi eleito em 2018, inserto na onda bolsonarista e depois seguiu caminho próprio.

A surpresa pode vir de Marco Antônio Costa, o “Superman” da Jovem Pan, jornalista e Doutor em Direito Constitucional, filiado ao Novo, partido de Zema. Ligado à organização daqueles movimentos em praças públicas, sobre caminhões, em datas como o 7 de Setembro, protestos contra o governo e líder do movimento “#ForaMoraes”, ele é um nome claramente identificado com posições duras contra o STF, Lula e o sistema político tradicional.

Seu nome para o Senado em Minas já foi posto como opção para a “Direita Raiz”, justamente, para ocupar esse espaço de indignação organizada que nem sempre outros pré-candidatos conseguem se posicionar. 

Nada disso significa resultado definido. Pesquisa é fotografia; eleição é filme, com começo, meio e fim. Em 2018, Romeu Zema não começou como favorito. Terminou governador. Também enfrentou questionamentos e processos ao longo do caminho, mas acabou superando esses obstáculos no campo jurídico. Em política, largar atrás não significa chegar atrás. Magalhães Pinto dizia que “política é como nuvem: você olha e ela está de um jeito; olha de novo e ela já mudou”.

Em 2026, a frase parece escrita para Minas e para Brasília ao mesmo tempo. O eleitor precisará olhar além do barulho. Fato é que os pré-candidatos enfrentam uma luta contra o sistema: quem grita mais pode não chegar inteiro ao fim. Quem parece fraco hoje pode crescer quando o filme andar. E quem ocupa o Senado pode ter mais poder real sobre o futuro institucional do país do que muito governador bem votado.

No fim, intocável ninguém é. Imbrochável é bordão. Inelegível é uma perigosa consequência. 

 

(*) Advogado e professor universitário. Especialista em Direito Eleitoral, Direito Municipal, Pós-Doutor em Direito Público e Democracia; Doutor em Direito Público; Mestre em Direito Constitucional. Autor em mais de 30 obras jurídicas. Instagram: @arthurguerraadv e @EleicaoéGuerra