- Lado Bom
- maio 19, 2026
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Tecnologia mineira neutraliza toxinas de veneno
Estudo da UFMG desenvolve anticorpo monoclonal com potencial para reduzir hemorragias, necrose e efeitos graves provocados por picadas de serpentes do gênero Bothrops

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG desenvolveu um anticorpo capaz de reconhecer e neutralizar toxinas presentes no veneno de serpentes. A tecnologia pode reduzir hemorragias, necrose tecidual e outros efeitos causados por picadas de espécies do gênero Bothrops, popularmente conhecidas como jararacas.
Produzido a partir da multiplicação de uma única célula, o anticorpo monoclonal atua de forma altamente específica, reconhecendo apenas os alvos ligados às toxinas responsáveis pelo envenenamento.
Segundo o coordenador do estudo e professor do Departamento de Bioquímica e Imunologia da UFMG, Carlos Olórtegui, a tecnologia funciona como uma chave precisa, capaz de identificar e neutralizar substâncias específicas.
“Anticorpos monoclonais são ferramentas biotecnológicas produzidas em laboratório que se distinguem por serem capazes de reconhecer um único epítopo de um antígeno (a parte específica do antígeno reconhecida pelo anticorpo), oferecendo uma precisão muito superior à dos métodos convencionais”, explica.
O pesquisador detalha que esses anticorpos são gerados a partir de hibridomas, células híbridas resultantes da fusão entre células B de um animal imunizado e células de mieloma, responsáveis por garantir a sobrevivência e a produção contínua do anticorpo.
“Por serem derivados de um único clone de célula B individualizada, esses anticorpos formam um lote homogêneo e sem variações, permitindo, por exemplo, a criação de antivenenos com 100% de capacidade neutralizante contra toxinas específicas”.
A medicina já utiliza a tecnologia no tratamento de alguns tipos de câncer e doenças inflamatórias. Agora, também resulta como alternativa promissora no combate a envenenamentos causados por animais peçonhentos.
Mais precisão e menor variação no tratamento
Segundo Olórtegui, uma das principais vantagens do anticorpo monoclonal está na precisão do tratamento quando comparado aos soros produzidos de forma tradicional em cavalos.
A tecnologia permite criar antivenenos compostos exclusivamente por anticorpos neutralizantes direcionados às toxinas de interesse, tornando a ação mais eficiente.
Os anticorpos policlonais usados atualmente atuam contra diferentes antígenos aos quais o animal foi exposto. Por isso, exigem doses maiores para alcançar eficácia.
Além de reduzir variações entre lotes, o método monoclonal oferece uma resposta mais direcionada e eficiente no curto prazo.
“Além disso, o método laboratorial é mais ético e sustentável, pois o uso de animais ocorre apenas uma única vez para a coleta inicial de células, que são então “imortalizadas” em cultura para secretar os anticorpos indefinidamente”, acrescenta Olórtegui.
Desenvolvida no Laboratório de Imunoquímica de Proteínas da UFMG, a tecnologia está protegida e disponível para licenciamento.
Os acidentes com serpentes ainda representam um desafio importante de saúde pública no Brasil e em outras regiões tropicais. No País, nove em cada dez ocorrências desse tipo estão associadas a serpentes do gênero Bothrops.