O preço que os homens pagam por cuidar menos da própria saúde

O preço que os homens pagam por cuidar menos da própria saúde

É preciso desconstruir a ideia de que prevenção é exagero ou burocracia médica; fazer consultas periódicas não diminui a masculinidade de ninguém

O preço que os homens pagam por cuidar menos da própria saúde
Guilherme Canabrava : “Não são raros os casos de pacientes que adiam uma consulta por meses ou até anos, na expectativa de que o problema desapareça sozinho” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Guilherme Canabrava (*)

Por muito tempo, o imaginário masculino foi construído em torno de ideias como força, resistência e autossuficiência. Desde cedo, muitos homens aprendem que sentir dor é algo que deve ser suportado em silêncio e que procurar ajuda é sinal de fraqueza. O problema é que essa lógica, aparentemente inofensiva, cobra um preço alto: a própria vida. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram que os homens brasileiros consultam menos da metade do que as mulheres e demoram mais para procurar atendimento médico.

Na prática, isso significa que muitas doenças são descobertas apenas quando os sintomas se tornam impossíveis de ignorar. E, no caso de diversos tipos de câncer, como os de próstata, rim e bexiga, esse atraso pode fazer toda a diferença.

A negligência com a saúde também se reflete na expectativa de vida. Segundo as Tábuas de Mortalidade do IBGE, os homens brasileiros vivem, em média, 73,3 anos, enquanto as mulheres alcançam 79,9 anos. São quase sete anos de diferença. Evidentemente, diversos fatores contribuem para essa disparidade, mas o menor cuidado preventivo é um dos principais.

 

Como urologista, observo diariamente esse comportamento no consultório. Não são raros os casos de pacientes que adiam uma consulta por meses ou até anos, na expectativa de que o problema desapareça sozinho. Quando finalmente procuram atendimento, muitas vezes a doença já está em estágio avançado e as possibilidades de tratamento se tornam mais complexas.

 

O câncer de próstata ilustra bem essa realidade. De acordo com a Sociedade Brasileira de Urologia, um em cada nove homens desenvolverá a doença ao longo da vida. Ao mesmo tempo, trata-se de um dos cânceres que apresentam melhores resultados quando diagnosticados precocemente. Em outras palavras, o que muitas vezes separa um tratamento mais simples de um procedimento mais agressivo é justamente a decisão de procurar ajuda antes do surgimento dos sintomas.

É preciso desconstruir a ideia de que prevenção é exagero ou burocracia médica. Fazer consultas periódicas, realizar exames e acompanhar a própria saúde não diminui a masculinidade de ninguém. Pelo contrário: é um ato de responsabilidade consigo mesmo e com as pessoas que compartilham a vida ao nosso lado.

Cuidar da saúde não deve ser encarado como uma resposta à doença, mas como uma escolha permanente de autocuidado. Assim como fazemos a revisão do carro ou acompanhamos as finanças pessoais, também precisamos reservar tempo para cuidar do próprio corpo.

Os homens precisam compreender que coragem não é ignorar os sinais ou suportar o desconforto em silêncio. Coragem, muitas vezes, é marcar uma consulta, fazer os exames necessários e assumir o protagonismo sobre a própria saúde. Afinal, prevenir continua sendo a forma mais inteligente — e também a mais humana — de viver mais e viver melhor.

(*) Médico uro-oncologista