Democracia por encomenda
Passadas as eleições, uma pergunta permanece: estamos construindo uma democracia de verdade ou apenas aperfeiçoando a aparência de uma?

Humberto Filho
Passadas as eleições presidenciais de 2026, com a vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro, em uma virada histórica entre o primeiro e o segundo turno, ficam algumas perguntas que não querem calar. Nosso processo eleitoral é realmente justo? Os candidatos disputam em igualdade de condições? E, sobretudo, até que ponto podemos falar em democracia plena quando o próprio Estado parece se confundir com os interesses de quem está no poder?
Não questiono aqui o direito de milhões de brasileiros escolherem livremente seus representantes. Questiono algo anterior ao voto: as condições em que essa escolha é construída.
Ao longo da campanha, assisti, com perplexidade, a uma sucessão de acontecimentos que merecem reflexão. Vi o debate sobre o fim da escala 6×1 ganhar força eleitoral. Vi promessas envolvendo benefícios para microempreendedores, mudanças nas regras do Pix, restrições às bets, ampliação de programas sociais e até medicamentos para emagrecimento pelo SUS. Vi discussões sobre transporte gratuito e o uso de canais oficiais de comunicação com cidadãos.
Não sou contra políticas sociais. Muito pelo contrário. Sou contra a possibilidade de transformar a necessidade das pessoas em instrumento permanente de disputa pelo poder. Sou contra promessas que emocionam no palanque, mas cuja conta, invariavelmente, chega depois. E me preocupa quando decisões com efeitos econômicos relevantes parecem surgir ou ganhar urgência justamente às vésperas de uma eleição.
A questão é simples: onde termina a política pública e começa o uso eleitoral da máquina do Estado? Quem estabelece esse limite? E quem fiscaliza aqueles que deveriam fiscalizá-lo?
Também me inquietou a atuação do Judiciário durante o processo eleitoral. Decisões que interferem nas regras e na dinâmica da disputa precisam ser acompanhadas de fundamentação rigorosa, previsibilidade e transparência. Não basta que sejam juridicamente justificáveis. É fundamental que a sociedade compreenda seus fundamentos e reconheça a imparcialidade das instituições.
No próprio domingo da eleição, a prorrogação do horário de votação até as 19 horas, determinada pelo Supremo Tribunal Federal após solicitações relacionadas às dificuldades de acesso às urnas, acrescentou mais um episódio ao debate. Os dados posteriormente divulgados demonstraram que os votos registrados no período adicional não alteraram o resultado. Ainda assim, considero legítimo discutir a previsibilidade das regras eleitorais e os efeitos institucionais de mudanças realizadas durante a votação.
E houve ainda um capítulo particularmente preocupante: a verdadeira fábrica de fake news que tomou conta da campanha eleitoral. Chegaram ao ponto de espalhar que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Uma informação falsa, sem qualquer proposta do candidato que a sustentasse, mas que ganhou enorme repercussão, explorando a fé de milhões de brasileiros. A notícia foi desmentida, houve retratação na imprensa e o episódio chegou à Justiça Eleitoral. Mas a mentira já havia circulado.
E aqui surge outra questão inquietante: de que adianta combater a desinformação quando uma falsidade consegue alcançar milhares de eleitores antes mesmo de ser corrigida? Quem responde pelos danos que uma mentira pode causar à reputação de um candidato e à liberdade de escolha do eleitor? A democracia também é ameaçada quando a mentira se transforma em instrumento de disputa eleitoral. E esse princípio precisa valer para todos, independentemente de quem seja o alvo.
O que mais me impressiona, porém, é a naturalidade com que tantas pessoas esclarecidas relativizam determinados princípios quando eles favorecem o candidato de sua preferência. Aquilo que seria considerado um escândalo se praticado pelo adversário passa a ser tratado como estratégia legítima quando beneficia o próprio lado.
A democracia não pode ter princípios negociáveis conforme o vencedor.
Às vezes, tenho a sensação de assistir a um grande teatro político. Um espetáculo em que os personagens mudam, os discursos se renovam, as torcidas se enfrentam, mas os problemas estruturais permanecem praticamente intocados. Um teatro em que a vitória eleitoral parece valer mais do que o futuro do País.
Não afirmo que as urnas tenham sido fraudadas. Minha inquietação é outra, talvez ainda mais profunda: de que vale a liberdade de votar se não exigirmos, com o mesmo rigor, igualdade de condições, responsabilidade institucional e limites claros para o exercício do poder?
E quem paga a conta desse espetáculo?
Infelizmente, quase sempre os mais humildes.
São justamente aqueles que mais precisam de um Estado eficiente, de educação de qualidade, de segurança, de saneamento básico e de oportunidades reais. Pessoas que depositam suas esperanças em promessas sucessivas, aguardando uma transformação que parece estar sempre na próxima eleição.
É doloroso perceber como milhões de brasileiros celebram vitórias políticas enquanto continuam enfrentando as mesmas dificuldades de sempre. Não lhes falta inteligência ou dignidade. Falta-lhes, muitas vezes, a oportunidade concreta de experimentar um País que funcione independentemente de quem esteja no governo.
Enquanto isso, o mundo avança.
O Brasil, que já alimentou a ambição de se tornar uma grande potência econômica, continua enfrentando dificuldades históricas para elevar sua produtividade e transformar riqueza em desenvolvimento. Países que décadas atrás apresentavam condições econômicas semelhantes às nossas conseguiram avançar em educação, tecnologia, infraestrutura e renda.
Nós ficamos para trás em indicadores fundamentais. Enquanto outras nações investem em inovação, inteligência artificial, competitividade e formação de capital humano, ainda discutimos problemas elementares que deveriam ter sido resolvidos há gerações.
Continuamos convivendo com milhões de brasileiros sem acesso adequado ao saneamento básico, graves deficiências de aprendizagem, analfabetismo funcional e índices de violência incompatíveis com nossas pretensões de desenvolvimento.
Não se trata de negar os avanços que tivemos. Trata-se de reconhecer que eles são insuficientes diante de nosso potencial e da velocidade com que outras nações se desenvolveram.
E talvez essa seja a maior tragédia brasileira: normalizamos o atraso.
Transformamos pequenas conquistas em grandes celebrações, enquanto deixamos de cobrar as mudanças estruturais capazes de alterar verdadeiramente o destino do País. Discutimos personagens quando deveríamos discutir projetos. Defendemos políticos quando deveríamos defender princípios. Comemoramos vitórias eleitorais como se fossem, necessariamente, vitórias nacionais.
Não são.
Uma eleição pode produzir um vencedor sem produzir um País melhor. Uma maioria nas urnas não elimina a obrigação de governar para todos. E a legitimidade do voto não dispensa o dever permanente de transparência, responsabilidade e respeito às instituições.
Escrevo estas linhas com o coração triste. Não pela vitória ou derrota de determinado candidato, mas porque amo profundamente meu País. Amo nossa gente, nossa generosidade, nossa criatividade e nossa extraordinária capacidade de superar dificuldades.
É justamente por amar o Brasil que me incomoda tanto assistir à repetição de erros que nos impedem de alcançar o futuro que merecemos.
Não quero um País eternamente dividido entre vencedores e derrotados, entre salvadores da pátria e inimigos imaginários. Quero um Brasil em que o cidadão não dependa da generosidade de governantes, mas da força de instituições que funcionem. Em que a prosperidade venha do trabalho, da educação, da produtividade e da liberdade de empreender, e não da promessa eleitoral seguinte.
Há uma frase popular, frequentemente atribuída a Einstein (Albert Einstein / 1879–1955), embora sem comprovação de autoria, que resume bem essa inquietação: insistir nas mesmas atitudes esperando resultados diferentes é uma forma de insanidade.
Talvez seja hora de refletirmos sobre isso.
Porque o maior risco para a democracia brasileira não está apenas em quem vence ou perde uma eleição. Está em aceitarmos que a política continue girando em círculos enquanto o País permanece esperando.
Afinal, de que adianta vencer uma eleição se, como nação, continuamos perdendo tempo?