• Artigo
  • julho 13, 2026
  • 7 minutos

É hexa!

É hexa!

Seis Copas perdidas, desprestígio e as eleições no banco de reservas

É hexa!
Artur Guerra: “CBF atravessa há anos uma sucessão de crises administrativas, disputas de poder e batalhas de bastidores; a Seleção acabou virando o espelho dessa desorganização”

 

Arthur Guerra (*)

O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 nas oitavas de final pela Noruega. Dois gols de Haaland, um gol de Neymar e uma sensação já familiar: a de que a maior seleção da história parece cada vez mais uma grande produtora de vídeos nostálgicos.

A derrota demorou menos do que um contra-ataque norueguês para sair do gramado e desembarcar na política. Nas redes sociais, vieram as associações de sempre. Para alguns, o fracasso seria culpa do governo Lula. Outros lembraram que o Brasil também não levantou a taça durante o governo Bolsonaro. Como acontece por aqui, a bola mal para de rolar e já surge uma CPI imaginária para descobrir o culpado.

Não é novidade.

Em 1970, o governo militar soube aproveitar o tricampeonato para fortalecer o sentimento de unidade nacional. Em 1994, o Brasil voltou a ser campeão justamente quando o Plano Real devolvia esperança a um país exausto de inflação e incertezas. Futebol e política nem sempre jogam no mesmo time, mas frequentemente compartilham o mesmo humor da torcida. Esse importa!

Especialmente em ano eleitoral.

Ninguém troca de candidato porque a bola bateu na trave ou porque Bruno Guimarães perdeu um pênalti. Mas vitórias e derrotas ajudam a construir estados de espírito. Quando a Seleção encanta, o país parece acreditar mais em si mesmo. Quando fracassa, volta aquela velha sensação de que o Brasil é o eterno País do “quase”.

Talvez por isso a eliminação tenha produzido tanto barulho.

E, convenhamos, havia sinais de que algo não funcionava.

Não culpo o Ancelotti. Ao contrário. Ele talvez seja a melhor notícia que a Seleção recebeu em muitos anos. O problema é outro. Quando o técnico vira a principal estrela do time, normalmente estamos diante de um problema estrutural. Nenhuma seleção pentacampeã deveria depender de um treinador estrangeiro para se lembrar de que é pentacampeã.

O buraco é mais embaixo.

A CBF atravessa há anos uma sucessão de crises administrativas, disputas de poder e batalhas de bastidores. A Seleção acabou virando o espelho dessa desorganização. O talento individual continua aparecendo, mas o projeto coletivo parece ter sido vendido para alguma casa de apostas e nunca mais voltou.

E, sim, os jogadores também precisam suportar uma parte dessa goleada.

Talvez eu esteja ficando saudosista. Mas, hoje, eu começaria a escalar a Seleção pelo “Virgini Júnior”. Não é erro de digitação. É que muitos jogadores se tornaram tão pouco carismáticos e tão pouco identificados com a camisa amarela que o brasileiro médio já não sabe se está vendo uma seleção de futebol, um elenco de influenciadores com dancinhas estranhas ou uma campanha de publicidade.

Minha geração teve a sorte de crescer com a Copa de 1994.

Aquela Seleção tinha algo raro: raça.

Dunga, Mauro Silva, Taffarel, Aldair, Bebeto e Romário podiam ganhar ou perder, mas ninguém tinha a impressão de que estavam mais preocupados com o corte de cabelo ou o próximo post nas redes sociais do que com o próximo jogo.

A atual geração, em muitos momentos, parece excessivamente confortável com a derrota.

É duro dizer isso depois de uma eliminação em que Endrick perdeu uma oportunidade claríssima e Bruno Guimarães desperdiçou um pênalti. Os dois têm talento e muito futuro.

 

Mas qual atleticano não acha que o Hulk acertaria aquela bola fatal? E qual cruzeirense não tem certeza de que Matheus Pereira ajeitaria o meio campo de vez?

 

Mas a camisa da Seleção não costuma oferecer estágio probatório… Ela cobra.

Por isso Neymar merece um registro à parte (Sou fã mesmo!).

Foi transformado em culpado universal de todos os problemas do futebol brasileiro. Apanhou dentro de campo, apanhou fora dele e, ainda assim, continua sendo o único jogador brasileiro de sua geração capaz de produzir encantamento genuíno no torcedor. Seu gol veio tarde demais, mas sua importância para a Seleção é muito maior do que seus críticos gostariam de admitir.

Enquanto isso, Messi oferece uma aula permanente de liderança e compromisso coletivo. Cristiano Ronaldo transformou disciplina e profissionalismo em estilo de vida. São exemplos diferentes. E igualmente admiráveis.

E os argentinos?

Bem… esses merecem um capítulo próprio.

O brasileiro tem memória curta e autoestima futebolística frágil. Se a Argentina for campeã novamente, haverá impacto emocional por aqui. Não porque um título dos hermanos mude a inflação, o PIB ou a intenção de voto de alguém. Mas porque o futebol é uma poderosa fábrica de símbolos.

Vê-los vencer, enquanto o “Braza” (sic!) coleciona eliminações precoces produz uma sensação de decadência que inevitavelmente transborda para outros assuntos, inclusive a política.

No fim, talvez a derrota para a Noruega diga menos sobre o governo de plantão e mais sobre um país que anda confundindo tradição com garantia de sucesso.

O poste norueguês (Erling Haaland), aquele sujeito que consome 6.000 calorias por dia e parece ter sido fabricado em laboratório para fazer gols, simplesmente, fez o que grandes jogadores fazem em grandes jogos: Decidiu.

Nós, por outro lado, seguimos discutindo culpados, memes e teorias.

Falem o que quiserem dos argentinos. E nós falamos bastante.

Mas é difícil negar a raça política e futebolística dos hermanos.

Por enquanto, eles parecem ter entendido algo que nós esquecemos há algum tempo: camisa pesa, história inspira, tradição ajuda.

Mas nenhuma delas entra em campo sozinha. E, pelo visto, também não ganha eleição.

 

(*) Advogado e professor universitário. Especialista em Direito Eleitoral, Direito Municipal, Pós-Doutor em Direito Público e Democracia; Doutor em Direito Público; Mestre em Direito Constitucional. Autor em mais de 30 obras jurídicas.