- Artigo
- junho 9, 2026
- 11 minutos
Quando a cidade para: o que o incêndio em BH revela sobre a fragilidade dos negócios urbanos
Muita gente pensa que seguro empresarial é apenas na cobertura básica de incêndio, ou seja, a seguradora paga o conserto ou a reposição do que foi destruído, mas isso é apenas o começo

Landulfo Ferreira Junior (*)
Uma nuvem de fumaça preta tomou o céu de Belo Horizonte no domingo (7). Dava para ver do Barreiro, do Padre Eustáquio, de Contagem. O que estava queimando era a garagem da Viação Anchieta, no bairro Dom Cabral — e junto com ela, 27 ônibus novos, adquiridos entre 2024 e 2025, foram reduzidos a ferro retorcido em poucas horas.
Não houve vítimas. Três funcionários que estavam no local conseguiram sair ilesos. Mas o prejuízo material é brutal: especialistas estimam que cada ônibus urbano novo vale entre R$ 600 mil e R$ 900 mil. Faça as contas — estamos falando de um dano que pode ultrapassar R$ 20 milhões, em uma tarde de domingo.
O fogo teria começado em um lote vago logo atrás da garagem — um terreno baldio frequentado por pessoas em situação de rua —, e com a baixa umidade e a ação do vento, as chamas alcançaram rapidamente os veículos estacionados. Um posto de combustíveis vizinho chegou a correr risco de explosão. A Polícia Civil investiga se houve crime.
A cidade respirou fundo — e seguiu em frente. Mas por quanto tempo?
Na manhã desta segunda-feira, os passageiros que dependem do transporte coletivo em BH não enfrentaram alterações significativas. A operação foi preservada graças ao modelo consorciado do sistema de transporte da capital, que permite o remanejamento de veículos entre empresas quando necessário.
Boa notícia. Mas ela esconde uma fragilidade que merece atenção.
Os ônibus destruídos eram novos, adquiridos em 2024 e 2025, e foram substituídos, em um primeiro momento, por veículos da frota reserva do consórcio. O impacto imediato é o aumento da idade média da frota, com maior custo de manutenção e riscos de avarias durante as viagens. O impacto é ainda mais significativo porque o consórcio Dom Pedro II é o que menos possui veículos no atual sistema da capital mineira — perder 27 ônibus em um universo menor é proporcionalmente muito mais grave.
Em outras palavras: a cidade não parou hoje. Mas o relógio começou a contar.
O que isso tem a ver com qualquer empresa da cidade? Tudo.
A Viação Anchieta não é uma empresa descuidada ou improvisada. É uma operadora de transporte público formal, integrante de um consórcio regulado pela Prefeitura de Belo Horizonte, que opera linhas essenciais para dezenas de milhares de pessoas. E ainda assim, um domingo à tarde foi suficiente para eliminar um patrimônio de dezenas de milhões de reais.
Isso é o que os especialistas em gestão de riscos chamam de evento de cauda — aquele acontecimento que ninguém espera, que a empresa não planeja porque “nunca vai acontecer aqui”, e que quando ocorre pode ser definitivo.
Não é necessário ser uma empresa de ônibus para entender o risco. Pense em:
- O restaurante cujo equipamento de cozinha causa um incêndio numa sexta-feira à noite.
- O armazém logístico que perde estoque por um curto-circuito na madrugada.
- O escritório contábil que tem seus servidores destruídos por um vazamento numa sala do andar de cima.
- A oficina mecânica vizinha a um posto de gasolina — exatamente como aconteceu no Dom Cabral.
Em todos esses casos, o dano material é apenas a primeira camada do problema. A segunda, muitas vezes mais grave, é a interrupção das operações: sem equipamentos, sem estoque, sem espaço físico, a empresa deixa de faturar — mas continua com suas obrigações. Salários. Aluguel. Impostos. Fornecedores.
É aí que muitas empresas não sobrevivem ao sinistro.
O seguro existe exatamente para isso — e vai além do que a maioria imagina
Quando se fala em seguro empresarial, muita gente pensa apenas na cobertura básica de incêndio: a seguradora paga o conserto ou a reposição do que foi destruído. Isso é verdade — mas é apenas o começo.
Uma proteção bem desenhada para um negócio como o da Viação Anchieta envolveria, pelo menos, quatro camadas:
A primeira cobre o patrimônio físico destruído — o prédio da garagem, as instalações, os equipamentos. É a cobertura de incêndio, raio e explosão, presente em qualquer apólice empresarial básica.
A segunda cobre especificamente a frota. Para empresas de transporte, os veículos são o ativo principal, e uma cobertura de frota contra incêndio permite a reposição dos ônibus sem descapitalizar o caixa da empresa — o que, num evento desse porte, pode ser a diferença entre a recuperação e a falência.
A terceira — e aqui está o ponto que pouquíssimas empresas contratam, e que é provavelmente o mais importante — cobre os lucros cessantes, ou seja, a perda de faturamento durante o período em que a empresa está paralisada ou com operação reduzida. A garagem queimou. Os ônibus sumiram. A empresa não consegue operar com plena capacidade. Mas os salários vencem. O aluguel vence. Os impostos vencem. Quem cobre esse buraco? A cobertura de lucros cessantes existe precisamente para isso — ela paga as despesas fixas e o lucro médio da empresa enquanto ela se reconstrói.
A quarta cobre a responsabilidade civil perante terceiros. O posto de combustíveis vizinho quase explodiu. Moradores dos arredores ficaram expostos à fumaça tóxica. Se as chamas tivessem atingido imóveis próximos, a empresa poderia responder por esses danos. A cobertura de responsabilidade civil protege o patrimônio da empresa contra eventual ação judicial movida por terceiros prejudicados que, dependendo do caso, podem superar o próprio valor dos bens destruídos.
Nenhuma dessas coberturas é sofisticada ou exclusiva de grandes corporações. Todas estão disponíveis para empresas de qualquer porte, e o custo de contratá-las é uma fração do prejuízo que um único sinistro pode causar.
O lote vago que ninguém viu como risco
Há um detalhe no incêndio do Dom Cabral que merece destaque, porque é mais comum do que parece.
O foco inicial do fogo teria sido em um lote vago logo atrás do pátio da empresa, frequentado por pessoas em situação de rua. Um terreno abandonado. Um risco externo, fora do controle da empresa, que ninguém contabilizou como ameaça real ao patrimônio.
Esse é exatamente o tipo de vulnerabilidade que uma boa gestão de riscos identifica — e que uma vistoria periódica das condições do entorno poderia ter sinalizado. Não para impedir o incêndio, necessariamente, mas para estar preparado para ele: sistema de detecção de fumaça, distância adequada entre os veículos estacionados, acesso facilitado para o Corpo de Bombeiros, plano de evacuação documentado.
Há ainda outro ângulo jurídico relevante aqui: se a investigação confirmar que o incêndio foi causado por terceiro identificável — ou mesmo por omissão do Município na gestão do lote vago abandonado —, a seguradora que vier a indenizar a empresa de ônibus passa a ter o direito legal de cobrar o responsável pelo prejuízo. É o chamado direito de sub-rogação, previsto no Código Civil: quem paga o sinistro “recebe” o direito de buscar o ressarcimento de quem causou o dano. Mais um motivo pelo qual ter seguro não é apenas proteção — é também instrumento jurídico de recuperação.
Prevenção e proteção não são a mesma coisa, mas uma complementa a outra.
Gestão de riscos não é burocracia — é estratégia de sobrevivência
Há uma percepção muito comum no tecido empresarial brasileiro, especialmente entre pequenas e médias empresas, de que seguro é custo. Um gasto que compete com outras prioridades e que, “se Deus quiser”, nunca vai precisar ser acionado.
Esse raciocínio inverte a lógica. Seguro não é o custo de se proteger. É o custo de continuar existindo quando o imprevisto acontecer.
Uma boa gestão de riscos começa antes de escolher qualquer apólice. Ela passa por entender quais são os ativos mais críticos do negócio — aqueles cuja destruição comprometeria a operação de forma irreversível —, mapear de onde vêm os principais riscos e só então desenhar uma proteção proporcional a esse diagnóstico. Sem esse mapeamento, a empresa pode pagar por coberturas que não precisa e deixar descoberto exatamente o risco que poderia destrui-la.
A pergunta que toda empresa deveria se fazer hoje
Se amanhã um incêndio, um alagamento, um furto ou uma falha estrutural atingisse o seu negócio — quanto tempo você conseguiria operar? Uma semana? Um mês? Ou a empresa simplesmente não resistiria ao impacto?
E mais: se esse sinistro fosse causado por algo fora do seu controle — um lote vago abandonado, um vizinho negligente, uma falha na rede elétrica pública —, você teria como se recuperar sem depender exclusivamente de uma batalha judicial que pode levar anos?
A resposta honesta a essas perguntas é o ponto de partida de qualquer diagnóstico de riscos sério. Feito com o suporte de um especialista, esse diagnóstico transforma a proteção patrimonial de uma despesa em uma decisão estratégica — talvez a mais importante que um empresário pode tomar antes que o céu fique preto de fumaça.
BH voltou a circular normalmente na segunda-feira. A cidade seguiu em frente. A empresa atingida, agora, enfrenta o desafio de reconstruir. E a resposta sobre como será esse processo depende, em grande parte, de decisões tomadas muito antes daquele domingo.
(*) Advogado é especializado em Direito de Seguro e diretor de Desenvolvimento de Novos Negócios da Carlini Advogados