Entrevista: A ciência em prol da vida

Entrevista: A ciência em prol da vida

Embriologista destaca as principais evoluções científicas da área 

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Renata Lima Bossi: “ A reprodução assistida é uma área onde tecnologia e ciência caminham juntas”  (Foto: Izabela D’Paula)

 

Quando se fala em reprodução assistida, não podemos esquecer do embriologista, que tem papel fundamental no tratamento da infertilidade. A embriologista-chefe da Clínica Origen, Renata Lima Bossi, é referência no segmento no Brasil. No País, somente ela e, mais uma embriologista, em atividade, detém o título emitido pela Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE).

Essa certificação representa reconhecimento internacional de competência técnica e conhecimento teórico-científico e significa que o profissional está atualizado com as melhores práticas, padrões de segurança e ética exigidos pela comunidade científica europeia.

Renata Lima Bossi é graduada como bióloga pela PUC Minas, possui mestrado e doutorado em Reprodução Humana e Patologia Ginecológica pela Faculdade de Medicina da UFMG. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, a embriologista aborda os aspectos principais da reprodução assistida.

Qual é a importância de um Embriologista em um tratamento de reprodução assistida? 

O embriologista é peça-chave na jornada da reprodução assistida. Ele é responsável pela recepção e processamento de gametas (óvulos e sêmen), preparação dos gametas e inseminação de óvulos (ICSI), cultivo e avaliação embrionária, congelamento (vitrificação) e descongelamento, biópsia embrionária para análise genética (quando indicados), garantia e documentação da qualidade do processo, e implementação de boas práticas de biossegurança e rastreabilidade. Além do trabalho técnico, atua em integração com médicos, enfermeiras e psicologia, traduzindo resultados laboratoriais para decisões clínicas seguras e individualizadas.

Quais foram as principais evoluções científicas na área de Embriologia nos últimos anos? E como isso beneficiou os pacientes? 

Os avanços resultaram em maior segurança, melhores taxas de implantação e nascimento, opções ampliadas (como preservação de fertilidade) e tratamentos mais personalizados, com menos transferências desnecessárias e menor risco de múltiplas gestações. São eles: Vitrificação (criogênica ultrarrápida) — elevou a sobrevida de óvulos e embriões após descongelamento, ampliando opções de preservação e reduzindo riscos. Muito importante para pacientes oncológicas ou que querem adiar a maternidade. Time-lapse (monitorização contínua por vídeo) — permite acompanhar o desenvolvimento embrionário sem perturbar o cultivo, ajudando na seleção embrionária, pois possibilita visualizarmos eventos que antes eram desconhecidos. Melhorias em meios de cultivo e incubadores — ambientes mais estáveis e específicos aumentam a qualidade do desenvolvimento embrionário. Diagnóstico genético pré-implantacional (PGT) — identifica aneuploidias (número de cromossomos a mais ou a menos) e determinadas doenças genéticas no embrião, antes da sua transferência para útero. É feito somente com indicação médica. Técnicas avançadas de microinjecção (ICSI) e preparo seminal mais refinado — melhoraram resultados em casos masculinos. Automação e IA aplicada à análise de imagens e dados — já auxilia na padronização de avaliações e seleção dos melhores embriões para transferência e congelamento.

Nos últimos anos, houve significativas mudanças de estilo de vida das pessoas. Isso causou impactos na qualidade e quantidade dos gametas (óvulos e sêmen)? 

Sim. Os fatores comportamentais e de saúde pública influenciam a produção e qualidade de óvulos e espermatozoides. Entre os impactos, estão: efeitos adversos do consumo excessivo de álcool, alterações hormonais associadas ao sobrepeso e obesidade, efeitos do estresse crônico e problemas de saúde mental, além de exposições ambientais e aumento da idade materna/paterna. No homem, isso costuma refletir em parâmetros seminais (concentração, motilidade e morfologia); na mulher, além da quantidade (reserva ovariana), a qualidade dos óvulos pode ser afetada. Por isso, enfatizo a importância da avaliação pré-concepcional, orientação nutricional, manejo de comorbidades, cessação do tabagismo e consumo moderado de álcool, além de suporte psicológico sempre que indicado — intervenções capazes de melhorar potencialmente os resultados de tratamento.

Qual é a Importância do investimento contínuo em tecnologia e como a Clínica Origen trata isso? 

A reprodução assistida é uma área onde tecnologia e ciência caminham juntas: investir em equipamentos, meios, capacitação e controle de qualidade significa maior segurança, reprodutibilidade e melhores resultados. Na prática, isso reduz erros, melhora a sobrevida de gametas/embriões, permite diagnósticos mais precisos e oferece opções (como preservação de fertilidade) que antes não existiam. Na Clínica Origen, esse investimento é contínuo e estratégico: avaliamos evidências antes de incorporar novas tecnologias, treinamos a equipe, temos uma manutenção rigorosa e adaptamos fluxos para que inovações sejam implementadas com segurança e foco no benefício ao paciente.

A Inteligência Artificial já influencia o setor de Reprodução Assistida? Já existem benefícios com uso da tecnologia? Qual é a expectativa de aumentar o sucesso dos tratamentos com a IA?

A IA já influencia o setor: há algoritmos para análise de imagens e vídeos de embriões, ajudando a predizer qual embrião tem maior chance de implantação; sistemas de automação para análises seminais e seleção espermática para ICSI; sistemas de análise e predição de nascido vivo conforme qualidade e número de óvulos; ferramentas de gestão de dados laboratoriais que melhoram rastreabilidade e eficiência. Os benefícios atuais incluem maior padronização na avaliação, suporte à tomada de decisão e ganho de tempo operacional. No entanto, a IA é complementar — não substitui a experiência clínica e o olhar crítico do embriologista. A expectativa é que, com mais evidência clínica e estudos prospectivos, a IA aumente a acurácia na seleção embrionária e contribua para melhores taxas de sucesso, mas sua integração deve ser cautelosa, validada clinicamente e transparente para pacientes. A IA, no futuro, poderá ajudar na seleção dos embriões cromossomicamente normais. No momento estão sendo realizadas pesquisas, mas ainda com resultados que não podemos utilizar na prática clínica.

Fale um pouco sobre as suas atividades na Clínica Origen? 

Estou na Clínica Origen há 22 anos. Desde que me integrei à Origen, assumi responsabilidades que vão desde a implementação e padronização de protocolos de laboratório (cultivo, criopreservação e rastreabilidade) até a formação continuada da equipe, auditoria interna de qualidade e participação ativa nas decisões clínicas multidisciplinares. Trabalhei para alinhar práticas laboratoriais com as melhores evidências científicas e para garantir que as inovações tecnológicas se traduzam em ganhos reais para os pacientes. Sempre me interessei muito por pesquisa e a Origen foi um terreno fértil para que meu instinto de pesquisadora pudesse florescer.