- Entrevista
- julho 5, 2026
- 6 minutos
Entrevista: Arquitetura do corpo
Os brasileiros estão no topo das estatísticas quando o assunto é cirurgia plástica: só em 2024, mais de 2 milhões de cirurgias foram realizadas no País

(Foto: Arquivo Pessoal)
O Brasil realizou cerca de 2,35 milhões de cirurgias plásticas estéticas em 2024, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), número que supera, inclusive, o registrado nos Estados Unidos. Para além do aspecto cultural, os números posicionam o País como referência nos congressos médicos internacionais, sobretudo no campo das técnicas de refinamento.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, o cirurgião plástico Fernando Lamana atribui essa reputação à combinação entre a solidez da formação médica e o investimento contínuo em protocolos de segurança hospitalar. Para ele, é importante o planejamento individualizado e o respeito à fisiologia do paciente como fatores determinantes para evitar procedimentos mal executados.
A que fatores você credita o crescimento exponencial das cirurgias plásticas no Brasil?
Nossa formação acadêmica está entre as mais rigorosas do mundo, exigindo anos de especialização em cirurgia geral antes mesmo do ingresso na cirurgia plástica. Além disso, o Brasil é um celeiro de inovação técnica; muitas das manobras cirúrgicas e protocolos de segurança adotados globalmente foram desenvolvidos aqui. Esse protagonismo, no entanto, se sustenta principalmente pela entrega de resultados previsíveis e seguros, apoiados no domínio de tecnologias que contribuem para uma recuperação mais eficiente.
Quais foram os avanços tecnológicos mais significativos nos últimos anos?
Vivemos a era da tecnologia assistida. Na cirurgia de contorno corporal, por exemplo, o uso de radiofrequência interna e tecnologias de plasma para retração da pele ampliou as possibilidades de tratamento da flacidez sem grandes cicatrizes. Procedimentos como a Lipo HD e a Ultra HD, que utilizam tecnologia ultrassônica, permitem esculpir a definição muscular com alta precisão, preservando os vasos sanguíneos e favorecendo uma recuperação mais rápida e confortável. Soma-se a isso um conjunto cada vez mais robusto de técnicas minimamente invasivas, como o ultrassom microfocado e a radiofrequência fracionada (Morpheus), que atuam na flacidez e na qualidade da pele sem necessidade de grandes cortes.
Muito se fala sobre a Lipo de Alta Definição (Lipo LAD). Qual a sua visão sobre essa tendência e os riscos de resultados exagerados?
A Lipo LAD é um avanço importante quando há indicação adequada. O “segredo” está na parcimônia. A proposta deve ser valorizar a musculatura que o paciente já possui, e não “desenhar” um abdômen que não condiz com o restante do biotipo. O maior risco é a padronização: corpos que parecem saídos de um molde. Defendo que a cirurgia deve ser alinhada a um protocolo de tratamento integrado de emagrecimento e mudança no estilo de vida, para que os resultados sejam ainda melhores, e sustentados por um estilo de vida saudável. Assim, é possível chegar a um resultado mais natural, sem artificialidade.
O explante de silicone também se tornou um tema central nos últimos anos, inclusive entre famosas como Carolina Dieckmann e Isabeli Fontana. Como você interpreta essa tendência e o que a paciente precisa saber sobre o procedimento?
Na verdade, a indicação real para o explante ocorre quando há o diagnóstico de BIA-ALCL, suspeita clínica de seroma tardio ou aumento súbito de volume, casos muito raros, que demandam investigação minuciosa, geralmente com imagem, punção do líquido acumulado ao redor da prótese, exames específicos. Se o problema for confirmado, o tratamento costuma envolver retirada do implante e da cápsula ao redor. Há também alguns casos de mulheres que optam pelo explante por não se identificarem mais com aquele volume ou por se sentirem desconfortáveis com a prótese. Tecnicamente, trata-se de uma cirurgia de reconstrução, já que, após anos com a prótese, há distensão da pele e alterações na glândula mamária. Em alguns casos, precisamos associar técnicas como o lifting ou o uso do próprio tecido da paciente para restabelecer forma e sustentação, sempre respeitando as características individuais e o tempo de cicatrização.
Os homens estão ocupando mais espaço nas clínicas de cirurgia plástica?
Sem dúvida. O público masculino quebrou o tabu de que o cuidado com a imagem é algo exclusivamente feminino. Hoje, há procura crescente por procedimentos como correção de ginecomastia, lipoaspiração de definição e cirurgias faciais, a exemplo da blefaroplastia. Outra mudança clara é a faixa etária: pacientes mais jovens buscam prevenção e ajustes pontuais, enquanto os mais maduros buscam o que eu costumo definir como “gerenciamento do envelhecimento”, focando em manter o aspecto jovial de forma equilibrada.
Como você avalia a segurança do paciente hoje em comparação ao passado? O que mudou nos protocolos?
A segurança evoluiu em níveis exponenciais. Hoje, o planejamento cirúrgico começa semanas antes, com exames laboratoriais rigorosos e, muitas vezes, avaliações multidisciplinares. Recursos como imagens 3D e o uso da inteligência artificial já permitem simular resultados e personalizar cada etapa da cirurgia com alto grau de precisão. No ambiente cirúrgico, utilizamos dispositivos de compressão pneumática para prevenir trombose, monitoramento anestésico avançado e protocolos de jejum abreviado, que melhoram a resposta metabólica. Isto é: a cirurgia plástica contemporânea é, acima de tudo, segura.