- Entrevista
- agosto 10, 2025
- 8 minutos
Meio ambiente é assunto de todos
A Feira Nacional de Artesanato, que acontece em Belo Horizonte de 15 a 23 de agosto, traz este ano o tema sustentabilidade; evento irá compensar mais de um milhão de toneladas de carbono

A agenda ambiental vem se fortalecendo a cada ano. No Brasil, ela está ainda mais atual do que nunca, já que o País sediará, pela primeira vez, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, encontro global que reúne quase 200 países para discutir soluções para o meio ambiente e as mudanças climáticas.
A COP 30, que acontecerá em novembro, em Belém, vem despertando setores em prol do assunto. Um deles é o de eventos e, em Belo Horizonte, a Feira Nacional de Artesanato, que acontece há 36 anos, compensará mais de um milhão de toneladas de carbono, de acordo com a organizadora Tânia Machado.
Nesta entrevista ao Cidade Conecta, Machado fala sobre isso e outras ações concretas que a feira adotará rumo à sustentabilidade, o que pode inspirar o segmento em que atua.
Gostaria que você comentasse sobre a escolha do tema da 36ª edição e sua relação com o artesanato.
Este ano, a feira chega com um compromisso renovado: promover a arte e a cultura de maneira responsável e sustentável. Assim, o tema é a sustentabilidade, com foco na compensação de gases de efeito estufa (GEE) gerados durante a sua realização. Com a crescente conscientização sobre o impacto ambiental de grandes eventos, o nosso se propõe a dar um passo importante na preservação do meio ambiente, tomando ações concretas para minimizar sua pegada de carbono. Para isso, todas as emissões de GEE associadas à logística, transporte e infraestrutura do evento serão compensadas por meio de projetos ambientais certificados, como o plantio de mudas de árvores nativas e a recuperação de áreas degradadas. Em relação ao artesanato, ao valorizarmos e promovermos as produções que respeitam os recursos naturais e a cultura regional, reforçamos o compromisso da feira com o meio ambiente e com a cultura local.
Qual o impacto ambiental da Feira Nacional de Artesanato? Vocês já conseguiram mensurá-lo?
Com base em cerca de 60% dos dados que temos de 2023, quando consumimos 158.244 Kwh de energia, calculamos que a Feira tenha gerado naquele ano pelo menos 1.126,2 toneladas de carbono, tendo em vista que as principais fontes de emissão dos gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global e as mudanças climáticas, incluem a queima de combustíveis fósseis, atividades industriais, além da agricultura e desmatamento. Certamente, essa emissão será maior este ano, considerando que a expectativa é de que cerca de cem mil pessoas se desloquem até o Expominas nos cinco dias de feira, sendo 3.500 expositores e mais de 10 mil pessoas que virão de suas cidades/estados e 1.500 prestadores de serviço. O evento é também um grande gerador de lixo: aproximadamente de sete a nove toneladas! Esses levantamentos citados nos fizeram criar ações concretas para minimizar esse impacto a partir deste ano.
Quais são essas ações?
O plantio de mudas de árvores nativas, a reutilização ou reciclagem de pelo menos 80% do lixo gerado, a adoção de sacolas, pratos, talheres e copos biodegradáveis, premiações de artesãos que retornarem com suas embalagens para as suas oficinas de origem de forma que elas possam vir a ser reutilizadas e dos artesãos cujos produtos sejam sustentáveis, oferecendo um cash back referente a 5% do valor pago pelo estande. Teremos também o lançamento do selo “Artesanato Sustentável”, que identificará todos os artesãos que se comprometem com práticas sustentáveis, e uma plataforma para que o público possa verificar quanto de gases de efeito estufa uma família emite por ano, por exemplo, com um banho, com o lixo gerado, com o uso de eletrodomésticos e de transporte próprio, dentre outras. Teremos ainda oficinas artesanais gratuitas, na qual serão utilizadas somente matérias-primas de material reciclado, ou seja, o público será incentivado a transformar lixo em arte, sempre conduzido por artesãos experientes.
A FNA 2025 lançou também concursos que incentivam a sustentabilidade. Fale sobre isso.
Artistas, artesãos e entusiastas da arte poderão participar de dois concursos como incentivo às práticas sustentáveis: o “Concurso de Presépios Feitos com Materiais Reciclados” e “Esculturas Feitas com Sucatas.” Para participar, o artesão/artista já pode se inscrever pelo site da feira (www.feiranacionaldeartesanato.com.br). As obras serão avaliadas por um júri especializado, que levará em conta a criatividade, o uso de materiais reciclados e a originalidade. As melhores peças serão expostas durante a Feira, que acontecerá de 3 a 7 de dezembro, no Expominas, e poderão ser premiadas através de votação do público presente.
O artesanato é uma expressão autêntica, artística e cultural que, muitas vezes, preserva tradições e técnicas passadas de geração em geração. Como a tradição e a inovação podem contribuir para a redução do impacto ambiental?
As novas tecnologias não reduzem o trabalho autoral do artesão e a qualidade do produto final. Pelo contrário, contribuem para peças criativas, personalizadas e ainda podem favorecer o meio ambiente. A impressão 3D, por exemplo, reduz o desperdício de insumos e já existem filamentos recicláveis para impressão. Materiais como fibra de coco e de bambu são biodegradáveis e renováveis, utilizam menos recursos para a sua produção, diferentemente das fibras sintéticas, e podem ser empregados em peças de decoração. A adoção de energia solar para alimentar equipamentos, como fornos de cerâmica, ou para a iluminação do local de produção artesanal, substitui fontes de energia poluentes. Outro exemplo é o uso de tecnologias para extração e fixação de tintas biodegradáveis – com sensores de PH para controlar a tonalidade e garantir a durabilidade –, feitas a partir de plantas, sementes e cascas.
Hoje, a maioria dos artesãos está mais atenta ao impacto ambiental e entende que é um dever de todos – e não só de grandes indústrias, mineradoras e madeireiras – assumir um compromisso com o meio ambiente. Muitos artesãos têm buscado novos usos para resíduos que sobram ou os doam para outros artesãos. Fibras que não têm mais utilidade, vão para a compostagem. Fios de bordado excedentes enchem almofadas. Cada vez mais o artesão evita usar o plástico, opta pelo papel e papelão biodegradáveis ou que podem ser reciclados.