- Entrevista
- maio 31, 2026
- 7 minutos
O universo mágico dos quadrinhos
Até 31 de maio, BH recebe a 8ª CDQCON: Feira da Casa dos Quadrinhos e reunirá mais de 80 artistas, lançamentos, oficinas, bate-papos e muito mais

A capital mineira mergulha no universo dos quadrinhos com a 8ª CDQCON: Feira da Casa dos Quadrinhos. A programação gratuita ocupará o anexo da Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais e, pela primeira vez, o MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, em parceria com o Museu É Nerd.
A diretora artística da CDQCON, quadrinista, ilustradora e professora, Nami Vianna, nesta entrevista ao CIDADE CONECTA fala sobre sua trajetória, representatividade feminina e a evolução da feira como espaço de encontro entre artistas, público e mercado criativo.
Quando o seu interesse por quadrinhos e ilustração se transformou em um projeto profissional e como as suas experiências influenciam a sua direção artística da CDQCON?
Eu amo quadrinhos desde que me entendo por gente, e crescer numa família nipo-brasileira me deu acesso a diferentes tipos de histórias desde muito cedo. Cresci com Maurício de Sousa, Disney, Ghibili, tudo junto e misturado, o que me deixava com muita vontade de contar as minhas histórias e criar meus personagens também. Acho que tudo isso que me cercava acabou se refletindo na minha produção profissional, que também é bem diversa. Venho publicando ilustrações desde os meus 15 anos, e comecei nos quadrinhos e zines com 19 anos. Nos últimos sete anos, somei uma dezena de publicações entre projetos solos e coletivos, feitos com técnicas tradicionais e digitais. Para mim, todas essas experiências me dão a capacidade de fazer uma curadoria diversificada no Corredor dos Artistas da CDQCON, já que posso dizer que conheço as influências e métodos usados por boa parte dos nossos artistas. Mas claro, os créditos não são só meus. Temos uma equipe de cinco curadores bem diferentes uns dos outros para garantir uma seleção justa e imparcial do nosso time.
Como você define o seu processo criativo e sua linguagem artística e o que você busca compartilhar com alunos e novos artistas em um mercado dinâmico que exige criatividade, inovação e resiliência?
Eu gosto de me definir como uma ilustradora e quadrinista que conta histórias simples para pessoas não-tão-simples. Eu encontro muito conforto em buscar referências autobiográficas, não acho que consigo contar histórias sem contar um pouquinho de mim ali, e a maioria dos meus trabalhos começa com rabiscos aleatórios nos cantos dos meus cadernos. Sou obcecada com cadernos, encho vários ao longo do ano e todo cantinho ganha um rabisquinho! Acho que é nesses momentos mais despretensiosos que as melhores ideias surgem, e isso tem muito a ver com algo que eu sempre falo com meus amigos e colegas: não dá para forçar originalidade. Se forçar a produzir e se reinventar o tempo todo é muito cansativo e nós não somos máquinas para produzir sem parar o tempo todo. O nosso trabalho reflete aquilo que estamos sentindo e o que vai surgir quando se está em constante estado de exaustão, de culpa, de autocobrança? Às vezes é melhor só parar e desenhar aquilo que nos dá conforto e relembrar porque nos apaixonamos por arte. É sempre bom lembrar que se você faz algo que te toca, que é importante para você, então com certeza tem alguém lá fora que vai sentir o mesmo e é até essa pessoa que a sua arte tem que chegar.
A cada edição, a feira celebra um artista mineiro que marcou a cena cultural brasileira. O que motivou a escolha da cineasta Tania Anaya como homenageada este ano e como você avalia a presença feminina na feira? Todo ano buscamos trabalhar a relação dos quadrinhos com alguma outra temática, seja ela de outra forma artística, como a música, ou algo mais abstrato, como Belo Horizonte. Decidimos que queríamos trabalhar a relação dos quadrinhos com a animação e o nome da Tanya como convidada surgiu logo no começo. Sempre soubemos que queríamos algum animador de BH e a Tanya é uma das mais condecoradas que temos, falando não só de premiações ao longo da carreira, mas em sensibilidade e garra. Boa parte da produção dela ainda é feita com técnicas tradicionais de animação que estão quase desaparecendo da indústria. Em tempos em que a tecnologia tem engolido a tradição, achamos que seria mais importante do que nunca valorizar isso. Fora a presença feminina na feira, que é algo que nos orgulhamos muito! Nos últimos anos, tentamos ao máximo manter uma divisão justa de gêneros no nosso corredor dos artistas, e nos últimos três anos temos 50% de presença feminina entre os selecionados. Sempre buscamos mulheres nas bancas dos nossos bate-papos e oficinas e sinto muito orgulho em ver nosso público cheio de meninas e mulheres de todas as idades.
Neste ano, a programação se expande para o MM Gerdau – Museu das Minas e do Metal, o Espaço do Conhecimento UFMG e o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil. Como essa ocupação em diferentes espaços culturais contribui para aproximar públicos e fortalecer a cena criativa local?
É muito gratificante ver a CDQCON crescendo a cada ano para, cada vez mais, abarcar mais espaços, mais artistas, mais público. E tudo isso saiu de uma feira pequerrucha que acontecia dentro da Casa dos Quadrinhos. É um sonho se tornando realidade e o apoio do Circuito Liberdade tem sido uma benção. Ampliar a feira significa que conseguimos ter mais pessoas conhecendo não só o evento, mas também os espaços culturais da cidade. Somos muito agraciados por ter tantos centros educativos com oportunidades de aprendizado gratuitas aqui em BH. Eventos com integração, como a CDQCON, são uma ótima chance de ocupar esses espaços por um público fora do usual. Acho que a união entre os espaços também ajuda a unir os públicos, já que cada aparelho já tem um público próprio estabelecido. Temos nos esforçado para promover a circulação do público entre os parceiros. É aquele ditado, a união faz a força.