- Entrevista
- maio 17, 2026
- 6 minutos
Produção artesanal que atravessa gerações
A Feira de Malhas de Tricô Sul de Minas que anualmente acontece na capital mineira se consolida como um dos principais eventos do varejo

Ao longo de três décadas, a Feira de Malhas de Tricô Sul de Minas se consolidou como um dos principais eventos do varejo de moda no País, que apresenta cerca de 150 mil peças fabricadas por quase 100 produtores de Jacutinga e Monte Sião. A feira é um ponto de encontro de uma produção artesanal que atravessa gerações, preserva sua identidade, mas incorpora tecnologia de ponta.
A edição de 30 anos acontece até domingo, 17 de maio, no Minascentro. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Dayhana Nicoleti, produtora de moda e coordenadora do evento, fala sobre a evolução da mostra e sua capacidade de integrar tradição, afeto e relevância econômica.
A Feira de Malhas de Tricô Sul de Minas se consolidou no calendário nacional de eventos do varejo da moda, mas ao mesmo tempo é associada à memória afetiva. A que se atribui essa característica? Acredito que essa conexão vem da própria origem do tricô no Sul de Minas. É uma produção que nasce dentro das casas, atravessa gerações e carrega histórias de famílias inteiras. Quando o público visita a feira, ele não encontra apenas produtos, ele encontra lembranças, aconchego, identidade. Ao longo dos anos, a feira se tornou um ponto de encontro. Muitas pessoas frequentam desde as primeiras edições, criaram o hábito de vir com a família, e esta edição do Dia das Mães constrói uma relação emocional muito forte. Então, ao mesmo tempo em que somos um evento de varejo relevante, com impacto econômico expressivo, também somos um espaço de memória, de tradição e de pertencimento.
Quais fatores contribuíram para o êxito da feira e sua longevidade? Penso que são vários fatores, mas eu destacaria três principais. Primeiro, a consistência. Ao longo de 30 anos, mantivemos o compromisso com qualidade, preço justo e a valorização do produtor. Segundo, a força do coletivo. A feira não é construída sozinha, ela é resultado do trabalho de dezenas de confecções, muitas delas familiares, que acreditam no evento como canal de vendas e visibilidade. E terceiro, a capacidade de adaptação. O mercado muda, o comportamento do consumidor muda e a feira acompanha essas transformações, seja na curadoria de produtos, na comunicação, na experiência do público e até na ação e novas estratégias, como o digital e o fortalecimento de marca. Essa combinação entre tradição e evolução é o que sustenta a longevidade.
Ao longo de 30 anos, como a feira tem conseguido preservar a tradição das malhas e do tricô do Sul de Minas e, ao mesmo tempo, empregar inovação e tecnologia nos processos de produção e criação em um mercado altamente competitivo? Existe um equilíbrio muito natural entre esses dois aspectos. A tradição está no saber fazer e nas técnicas, no cuidado com o acabamento, na cultura da produção que vem sendo passada de geração em geração. Já a inovação entra como ferramenta de fortalecimento. Hoje, vemos as confecções investindo em maquinário mais moderno, desenvolvimento de fios diferenciados, novas modelagens, além de pesquisa de tendências e posicionamento de marca. A feira atua como uma vitrine desse movimento. Ela mostra que é possível manter a essência do tricô, que é artesanal na sua origem, e, ao mesmo tempo, se aproximar da moda contemporânea e com um consumidor cada vez mais exigente. Ou seja, não é uma ruptura com o passado, mas uma evolução com identidade.
Como a feira impacta a cadeia produtiva da moda, especialmente o setor têxtil e de malharia no Brasil e na região Sudeste? O impacto é bastante significativo, principalmente para as pequenas e médias confecções, que são a base da nossa cadeia. A feira funciona como um grande canal de comercialização direta, o que melhora a margem dos produtores. Isso movimenta toda a cadeia: desde a compra de fios, passando pela produção até a logística e o varejo. Além disso, ela fortalece a visibilidade do tricô nacional, posicionando o produto brasileiro como competitivo em qualidade, design e preço, o que é essencial diante da concorrência com importados. Na região Sudeste, especialmente no Sul de Minas, o impacto também é social e econômico: geração de renda, manutenção de empregos e valorização de um polo produtivo que é muito importante para a indústria da moda no Brasil.