Artigo: Correndo para o futuro, no presente

Artigo: Correndo para o futuro, no presente

Tudo corre, principalmente o tempo. Tudo escorre, entre os dedos, principalmente cada minuto da preciosa vida. Assim, comecei a correr, até então, uma “Missão Impossível”

Humberto Filho: Correndo para o Futuro, no Presente
Humberto Filho: descobri que a corrida é poderosa forma de meditação (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Humberto Filho

Tendo saúde, temos o principal, temos tudo, ensina a sabedoria popular. Nunca fui sedentário, mas a corrida, para mim, era um território inimaginável. Sentia cansaço, dores, parava. Invejava as focadas pessoas correndo em ruas e parques. Invejava a liberdade, a leveza, a autoconfiança que a corrida parecia trazer. Elas eram Super-Heróis.

A mudança veio em um momento duro da minha vida: a perda do meu pai, há um ano. Um homem brilhante, mas que nunca foi exemplo de cuidados com a saúde. Pertencia àquela romântica geração que achava bonito fumar, beber seu “uisquezinho” e varar as madrugadas da velha guarda do jornalismo. Foi, ao vê-lo no leito, fragilizado, que percebi: precisava fazer diferente. Por mim. E pelos meus filhos.

Foi em 2024, na praia baiana de Guarajuba, com amigos e família, que compartilhei esse desejo com meu amigo Rodrigo Capanemacorredor e incentivador. Ele disse: “Corre dois minutos e meio, depois caminha o mesmo tempo. Apenas comece”. E engatinhando, comecei.

Sequer imaginava, mas vivia o início de uma profunda transformação. Aos poucos, deixei as bigornas que travavam minhas pernas, meu corpo, minha mente. Veio o primeiro quilômetro. Depois o segundo. Hoje, consigo correr 5, 6 quilômetros. Para os “atletas de plantão”, pode não ser nada. Para mim, é como pisar na Lua: “um pequeno passo para vocês, um salto gigantesco para mim”.

E descobri algo ainda mais valioso: a corrida é poderosa forma de meditação. É o momento em que silencio o mundo e ouço a mim mesmo. O corpo se move, mas a alma repousa. As ideias fluem. As angústias “tomam Doril”. E, quanto mais corro, mais clareza tenho nos pensamentos, nas decisões, na vida profissional.

Correr virou meu ritual de autocuidado. Um tempo, finalmente, dominado e só meu. Como tudo que vale a pena, exige método e disciplina. Por isso, busquei orientação profissional com Renato, treinador experiente e inspirador. Sem ele, talvez já tivesse parado e culpado a dor, o cansaço, a falta de direção.

Domingo, dia 27 de julho, realizei minha primeira prova de cinco quilômetros, a Boníssima Run de Inverno. Agora não sei até onde vou. 10 quilômetros? Meia maratona? Uma inteira? Deixo a vida me levar. Mas sei que, a cada passada, sou mais forte, mais centrado, mais inteiro.

E dedico essa conquista aos meus filhos, Dudu e Bernardo, e minha esposa Mariana. Cada passo meu é por vocês. Que vocês cresçam vendo – e se possível, correndo – que podemos recomeçar, evoluir e transformar dor em força.

A corrida me ensinou isso e, como boa professora, continua me ensinando todos os dias.

A torcida não foi pequena. Por isso vai também aqui as menções para Renato Tri, Bruno Cerqueira e Flavão (Jabutas) Moraes.