- Cultura
- novembro 25, 2025
- 6 minutos
Quando Belo Horizonte ouviu os primeiros acordes do Clube da Esquina
Livro organizado pelo jornalista e fotógrafo Cristiano Quintino resgata a memória do festival onde o movimento e seus artistas se apresentaram antes de ganharem o mundo

Em 1969, Belo Horizonte assistiu a um momento histórico sem imaginar o tamanho da semente que germinava no palco do antigo Minascentro. Entre estudantes tímidos, jurados atentos e sonhos que mal cabiam nos violões, uma canção chamada “Clube da Esquina” se classificou — mas não levou o prêmio. Meio século depois, aquela noite ressurgiu em forma de livro, ao devolver à cidade as raízes de seu movimento musical mais emblemático.
Belo Horizonte volta a mirar o passado para reencontrar um tesouro cultural escondido desde 1969 com o lançamento do livro “Primeiros Acordes do Clube da Esquina – 1969 – 1º Festival Estudantil da Canção Popular – Minas Gerais”, obra que resgata em detalhes o festival realizado no então Minascentro. Ali, uma jovem composição assinada por Lô Borges, Milton Nascimento e Márcio Borges — “Clube da Esquina” — foi classificada, mas não venceu a disputa.
O lançamento estava programado para o dia 5 de novembro. Mas devido à internação e posterior falecimento de Lô Borges, personagem de destaque na obra, o evento foi adiado para o próximo dia 27 de novembro, no Bar Museu do Clube da Esquina, em Santa Tereza — bairro onde nasceu a canção que mais tarde batizaria o movimento musical que revolucionou a MPB.
O livro nasce da iniciativa do jornalista e fotógrafo Cristiano Quintino. A ideia surgiu ainda na época do seu Trabalho de Conclusão de Curso, na Faculdade Estácio de Sá. Ele guardou o material por anos até decidir transformá-lo em obra completa.
O designer gráfico Otávio Bretas, parceiro no TCC, deu o impulso final ao sugerir que o projeto ganhasse novas dimensões. A dupla então convidou a jornalista, escritora e produtora cultural Malluh Praxedes para integrar a equipe e ampliar a pesquisa.
A investigação se estendeu por meses e revelou histórias de participantes, jurados, produtores, músicos e espectadores que presenciaram o festival. O resultado extrapolou as fronteiras iniciais e mostrou uma Belo Horizonte ainda movida pelo espírito de “terceira capital do Brasil”, enquanto Rio e São Paulo dominavam o circuito de festivais.
Entre os personagens que se destacam na narrativa estão o compositor, crítico musical e produtor Bob Tostes e Angelo Oswaldo — hoje prefeito de Ouro Preto — que aceitaram o desafio de estruturar um festival ousado para a realidade da época. O evento reuniu jovens talentos de Minas e de várias regiões do país.
O palco recebeu nomes que mais tarde se tornariam ícones da música brasileira: Marcos e Paulo Sérgio Valle, Egberto Gismonti, Affonso Romano de Sant’Anna, Tavito, Antonio Adolfo, Tibério Gaspar, Evinha, Golden Boys, Beth Carvalho, Eduardo Conde, Marilton Borges, Tavinho Moura, Toninho Horta, Joyce Moreno, Naná Vasconcelos, Nivaldo Ornelas, Nelson Angelo, Túlio Mourão, Lô Borges, Beto Guedes, Ivan Lins, Aécio Flávio, Lady Francisco, Sirlan, Flávio Venturini, Milton Nascimento, Vermelho, além das integrantes da Turma da Pilantragem — Regininha, Malu Balona e Dorinha Tapajós.
A edição traz recortes de jornais da época, a publicação original com as letras das músicas inscritas, fotos e entrevistas recentes com músicos, arranjadores, concorrentes e profissionais dos bastidores. Também inclui depoimentos de quem viveu o festival como plateia, equipe ou artista.
Homenagem a Lô Borges
O lançamento terá homenagens a Lô Borges, um dos principais personagens da obra, que nos deixou no último dia 2 de novembro. Músicos amigos do cantor e compositor irão interpretar suas lindas canções, que ficarão para sempre no repertório da MPB.
Lô havia deixado um depoimento importante sobre o festival.
“O FEC foi o único festival de que participei e tem enorme importância na minha trajetória. Entrei com minhas primeiras criações em parceria com meus amigos de vida: ‘Clube da Esquina’, com Bituca, e ‘Equatorial’, com Beto Guedes”, escreveu.
Seu irmão Márcio Borges lembra que Cristiano Quintino começou ali naquele evento, dando seus primeiros cliques.
“O tempo o transformou em um dos fotógrafos que mais registraram e eternizaram momentos icônicos dessa aventura musical, cuja semente mais fecunda nasceu no Festival Estudantil da Canção de 1969”, salienta.
O cantor, compositor e radialista Bob Tostes conta que foi ele quem convidou os jurados, junto com o jornalista Angelo Oswaldo.
“Selecionamos as 45 músicas iniciais. Ouvimos todas as 938 inscritas em reuniões na Rádio Itatiaia. A sala permanecia fechada para evitar pressões externas. O nível final surpreendeu”, recorda.
Saiba mais sobre o lançamento do livro
- Primeiros Acordes do Clube da Esquina
- Data: 5 de novembro de 2025
- Horário: a partir das 19h; entrada gratuita
- Local: Bar Museu Clube da Esquina
- Endereço: Rua Paraisópolis, 738, Santa Tereza, BH.