• maio 25, 2024
  • 7 minutos

Entrevista: Quebre tabus, seja feliz

Entrevista: Quebre tabus, seja feliz

Especialista Thais Plaza enfatiza que ainda existem muitas barreiras a serem vencidas no bilionário mercado de bem-estar sexual do Brasil

Entrevista com Thais Plaza
Thais Plaza: “é preciso naturalizar o que é natural”, diz na entrevista (Foto: Arquivo Pessoal)

Desde a pandemia, o mercado de bem-estar sexual tem alcançado novos patamares. Os produtos receberam roupagem nova e estão sendo tratados de forma mais natural. Muitos passaram a integrar a lista de recomendações médicas e as portas estão abertas para uma abordagem menos crítica sobre a sexualidade – principalmente entre mulheres.
Um grande exemplo é a empresa mineira A Sós. Com 12 anos de existência, fatura mais de R$18 milhões ao ano e cresceu 70% nos últimos quatro anos. A empresa oferta mais de 500 produtos em seu catálogo, de dermocosméticos para cuidados da saúde íntima a Toys.
Apesar da recente abertura e a expectativa de vencer antigas barreiras, a terapeuta sexual e líder da empresa, Thais Plaza, conta que ainda existe um longo caminho a ser percorrido até o sexo ser tratado como parte da saúde humana.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, ela conta quais são os desafios enfrentados atualmente e o que medidas precisam ser tomadas para transpassar essas crenças limitantes.

Quais os maiores desafios que você enfrenta hoje como terapeuta sexual?

É fazer as pessoas entenderem a importância que a sexualidade tem na vida dela e o quanto estar com uma saúde sexual plena e satisfatória interfere em todos os contextos da vida. E para isso, o grande desafio também é naturalizar aquilo que é natural, que é a saúde sexual. As pessoas têm grande dificuldade em falar sobre assuntos que envolvem a sexualidade, por possuírem vergonhas, preconceitos, tabus e não saberem dialogar sobre esses temas. Se a pessoa está com uma dor, na perna, está com alguma dificuldade de caminhar, ela vai no ortopedista e resolve o problema. Se a pessoa não está enxergando direito, ela vai no oftalmologista, faz os exames. Agora, quando ela tem uma queixa, uma disfunção sexual, ela não vai a um terapeuta sexual ou em um especialista de sexualidade. Ela desabafa para melhor amiga, para manicure, ela guarda isso como um segredo a sete chaves, mas ela não busca ajuda quando os assuntos são referentes à saúde sexual.

Ainda existe muito preconceito no setor?

Ainda existe uma grande questão em lidar com a sexualidade. Sim, nós evoluímos bastante, tem muita gente que já naturaliza esses assuntos, muitas famílias que conversam sobre sexualidade com mais naturalidade. Mas o volume que a gente cresceu ainda é muito pequeno, se a gente pensar que estamos em 2024, muitas coisas já poderiam ter sido descontruídas e naturalizadas, mas estamos bem longe disso. Ainda hoje, quando se fala em saúde sexual, as pessoas não entendem no contexto amplo da sexualidade. Muitas pessoas pensam que quando a gente fala de saúde sexual, que estamos falando apenas do ato sexual. Então, nós precisamos muito de educação sexual, de desconstruir mitos.

Qual a maior dúvida das suas clientes quanto aos produtos?

Eu tenho muito orgulho de representar a empresa A Sós, que foi a primeira a criar dermocosméticos voltados para a saúde íntima, para o autocuidado. A maior dúvida que as pessoas têm é que elas não têm nem dúvida, porque elas não colocam foco na sua saúde íntima e sexual. A grande questão nesse sentido é que muitas mulheres ainda não conhecem o próprio corpo, a própria anatomia do corpo, não sabem os cuidados que devem ter com a sua saúde íntima. Tem mulheres que fazem a higienização usando sabonetes bactericidas, e esses sabonetes, que são bactericidas, eles acabam eliminando as bactérias do bem, as que protegem a sua saúde da região íntima. Bactérias essas que evitam a candidíase, a infecção urinária. Quando a gente fala sobre uma linha de dermo de cuidado íntimo, nós não estamos falando só de prevenção de doenças, mas também do toque, do conhecer o próprio corpo, as suas regiões íntimas, a dar mesma atenção que é dada para o cabelo, para pele e outras partes do corpo. Incentivamos as mulheres a terem o mesmo cuidado com a sua saúde íntima e sexual.

Quais produtos são os mais procurados?

São produtos muito mais voltados para relação com o outro, para performance, do que para o autocuidado, para saúde pessoal. As mulheres procuram algo para ter uma relação melhor com o marido. O produto que faz com que o homem a ache boa de cama, ou que a faça ser lembrada, ou produtos para apimentar uma relação que não está indo muito bem.

Ainda existe muita desinformação?

Sim, ainda existe muita desinformação. Existem muitas mulheres que não conhecem o próprio corpo. Sim, muitas mulheres têm preconceito e acreditam que o sexo, o auto prazer, o autoconhecimento é pecado, algo proibido, sujo. Muitas veem a sexualidade e o próprio sexo como algo para servir o outro. Entrega o controle remoto do prazer na mão da outra pessoa. Não tem autonomia no próprio prazer. Muita mulher morre sem saber o que é um orgasmo. E não são apenas as mulheres, ainda tem muito homem que leva o sexo e o prazer pautado na pornografia, naquilo que ele vê nos filmes, nos vídeos.

O que você acha que deve ser feito para que esses preconceitos e tabus terminem e as mulheres consigam realmente se auto descobrir?

Primeiro é naturalizar o que é natural. Entender que assim como a pessoa tem a necessidade de dormir, de comer, de fazer suas necessidades fisiológicas, a saúde sexual também é um direito básico do ser humano. A informação que precisa ser disseminada é a definição de sexualidade segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS, que coloca a saúde sexual como um direito fundamental das pessoas. Segundo ponto é trabalhar educação sexual, procurar terapeutas sexuais, sexólogos, ter palestras nas escolas, que não sejam focadas apenas na questão de prevenção sexual pelo medo, dizendo quais são os problemas que podem acontecer na sexualidade, mas trazendo pelo viés da naturalidade, da conversa, do diálogo, de tirar dúvidas, naturalizar o prazer, naturalizar a prevenção sexual. Esse é o caminho mais saudável.

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