Mobilidade urbana em Belo Horizonte segue no caminho certo, apesar dos desafios

Mobilidade urbana em Belo Horizonte segue no caminho certo, apesar dos desafios

Faixas exclusivas para ônibus: um transtorno ou uma necessidade para a cidade? Hoje já são 138 quilômetros de pistas

Mobilidade urbana em Belo Horizonte
A capital mineira tem ampliado sua malha de faixas exclusivas para ônibus, com a meta de saltar dos atuais 74 para mais de 138 quilômetros, a fim de melhorar a mobilidade urbana (Foto: SetraBH / Divulgação)

 

O crescimento acelerado das grandes cidades brasileiras tem imposto um desafio cada vez mais evidente: como garantir mobilidade eficiente em um espaço urbano limitado e saturado por veículos individuais? Congestionamentos diários, longos tempos de deslocamento e aumento da poluição revelam um modelo centrado no automóvel que já não responde às necessidades da maioria da população.

Em Belo Horizonte, esse debate ganha contornos práticos. A capital mineira tem ampliado sua malha de faixas exclusivas para ônibus, com a meta de saltar dos atuais 74 para mais de 138 quilômetros. A medida, inserida no Programa de Redução do Tempo de Viagem no Transporte Coletivo, busca reorganizar o espaço viário para priorizar quem transporta mais pessoas, reacendendo a discussão sobre qual modelo de mobilidade deve orientar o futuro da cidade.

A Prefeitura de Belo Horizonte inaugurou recentemente as novas faixas exclusivas nas avenidas Cristóvão Colombo e João Pinheiro, na região Centro-Sul. Com um investimento de R$ 139,4 milhões, via Novo PAC, a medida é parte do Programa de Redução do Tempo de Viagem no Transporte Coletivo. Mas o que está por trás dessa intervenção viária? Não se trata apenas de pintar o asfalto; trata-se de reordenar o espaço público para priorizar quem transporta mais gente.

 

 

Eficiência comprovada na mobilidade

A lógica é simples e poderosa. Enquanto um carro transporta, em média, 1,2 pessoa, um único ônibus pode levar mais de 70 passageiros – ocupando um espaço muito menor na via. Nas avenidas que receberão as melhorias, 67% das pessoas que circulam nos horários de pico já utilizam o transporte coletivo. Se todas elas optassem pelo carro, cerca de 5 mil veículos adicionais disputariam espaço nas mesmas pistas, ampliando congestionamentos que já fazem parte da rotina da cidade.

Priorizar o transporte coletivo gera efeitos quase imediatos. Segundo a prefeitura, a expectativa é elevar em 12% a velocidade média dos ônibus no pico da tarde, encurtando o tempo de espera nos pontos e diminuindo o percurso diário de milhares de passageiros. A medida não é uma aposta isolada. Estudos da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU) indicam que faixas exclusivas podem reduzir o tempo de viagem em até 40%, tornando o sistema mais pontual, previsível e confiável.

Sustentabilidade

Para além da fluidez, os benefícios ambientais são uma das vantagens dessa política. Com base nos dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o transporte é de fato um setor crítico para a descarbonização no Brasil.

O setor de transportes é, de forma consistente, um dos maiores emissores dentro da categoria de energia, sendo responsável por cerca de 48% das emissões de gases de efeito estufa (GEE) provenientes da queima de combustíveis. Dentro do segmento de transportes, os automóveis de passeio representam a grande maioria dessas emissões, chegando a aproximadamente 71% desse total. Quando um ônibus fica retido no congestionamento, ele polui mais e consome mais combustível.

Apesar dos benefícios comprovados, a implantação de faixas exclusivas costuma gerar resistência — especialmente entre quem depende do carro no dia a dia. Em Belo Horizonte, a adequação da Avenida Cristóvão Colombo implicou a retirada de 19 vagas de estacionamento rotativo, uma mudança que naturalmente provoca desconforto inicial. No entanto, a lógica por trás da medida é objetiva: quanto mais eficiente for o transporte coletivo, menos veículos disputarão espaço nas mesmas vias.

Quando o ônibus anda melhor, parte dos usuários deixa o carro em casa. Isso significa menos congestionamento, menos disputa por estacionamento e deslocamentos mais previsíveis para todos — inclusive para quem continua dirigindo. O espaço viário é limitado, e organizá-lo de forma mais racional não representa perda, mas ganho de fluidez.