- Negócios
- dezembro 18, 2025
- 7 minutos
Baixa produtividade trava crescimento do Brasil, alerta presidente da Fiemg
Flávio Roscoe aponta contradições da política econômica, juros altos e distorções no mercado de trabalho como entraves ao desenvolvimento

Luís Otávio Pires
Por mais que os números indiquem crescimento, a economia brasileira segue presa a um problema estrutural que impede avanços mais consistentes: a baixa produtividade.
A avaliação é do presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, que analisa com cautela a expansão de cerca de 2,4% do PIB nacional e aponta entraves que limitam o desenvolvimento do País e de Minas Gerais. O executivo participou nesta quinta-feira, 18, do tradicional almoço com a imprensa, na sede da Fiemg, em Belo Horizonte, quando é feito um balanço do ano.
Segundo Roscoe, o crescimento brasileiro em 2025 foi puxado majoritariamente pelo agronegócio e pela indústria extrativa, especialmente o setor de petróleo — realidade que não se reflete de forma homogênea nos estados. Em Minas Gerais, a ausência da produção petrolífera e o desempenho abaixo da média nacional do agronegócio fizeram com que o crescimento estadual fique aquém do índice nacional.
“A indústria extrativa nacional cresceu perto de 8%, enquanto em Minas ficou em torno de 1,9%, porque boa parte desse avanço veio do petróleo, que nós não temos aqui. Isso puxa a média nacional para cima e deixa Minas abaixo”, explica.
Apesar desse cenário, Roscoe destaca um ponto positivo: a indústria de transformação mineira tem apresentado desempenho superior à média nacional, resultado direto, segundo ele, da melhoria do ambiente de negócios e da política de atração de investimentos adotada pelo Estado nos últimos anos.
O presidente da Fiemg avalia que o Brasil vive hoje um momento de desalinhamento na condução da política econômica. De um lado, o Banco Central eleva a taxa de juros para conter a inflação; do outro, o governo federal mantém uma trajetória de expansão dos gastos públicos.
“Temos forças que se anulam e, pior, ambas gastando dinheiro público. O governo acelera o gasto e o Banco Central freia a economia com juros altos. Isso gera uma expansão da dívida dos dois lados”, avalia.
Para Roscoe, sem rigor fiscal, não haverá queda sustentável da taxa de juros. “Enquanto houver risco inflacionário alimentado pelo gasto público, o Banco Central continuará usando a única ferramenta que restou: elevar os juros”, completa.
Outro fator que afetou o desempenho industrial mineiro foi o chamado “tarifaço” aplicado pelos Estados Unidos. Embora o impacto tenha sido menor do que o inicialmente projetado — graças à retirada de vários produtos da lista e ao adiamento da entrada em vigor das tarifas —, o executivo alerta que o problema permanece, especialmente para 2026, quando o efeito será sentido ao longo de todo o ano.
Setores como ferroligas e transformadores, relevantes em Minas Gerais, estão entre os mais prejudicados. “O mercado americano é o maior comprador de produtos industrializados do mundo. Não há como substituir esse mercado no curto prazo”, ressalta.
Baixo desemprego esconde queda de produtividade
Embora Minas Gerais apresente uma taxa de desemprego em torno de 4%, abaixo da média nacional, Roscoe faz um alerta: o dado não reflete necessariamente uma economia saudável.
“Parte significativa da população simplesmente desistiu de procurar emprego formal e passou a depender de programas sociais ou do mercado informal”, explica.
Segundo ele, essa dinâmica tem impacto direto na produtividade do País.
“O mercado informal é de baixo valor agregado, não exige qualificação e é muito menos produtivo. Isso faz com que a produtividade média do Brasil caia, e produtividade é o que sustenta crescimento econômico no longo prazo”, acrescenta.
Roscoe defende que os programas sociais sejam reformulados para dialogar com o mercado de trabalho, ao funcionar como renda mínima temporária, com porta de saída baseada em qualificação e inserção profissional.
“Não é justo que quem trabalha, paga impostos e sustenta a previdência não tenha acesso a benefícios, enquanto quem não trabalha pode permanecer indefinidamente no programa”, critica.
O presidente da Fiemg também demonstra preocupação com a expansão acelerada do crédito consignado privado, que já alcançou cerca de 12 milhões de trabalhadores em poucos meses. Segundo ele, a ausência de limites para as taxas de juros e o comprometimento excessivo da renda líquida podem empurrar trabalhadores para fora do mercado formal.
“Muitos acabam pedindo demissão acreditando que a dívida se encerra, o que não é verdade. O débito permanece e cresce, tornando inviável a permanência no emprego formal”, alerta.
A Fiemg, em conjunto com centrais sindicais, propôs ao Ministério do Trabalho limite para as taxas de juros, teto de comprometimento da renda e restrições ao uso desse crédito para apostas eletrônicas.
Para Flávio Roscoe, sem enfrentar a questão da produtividade — seja por meio da qualificação profissional, do estímulo ao emprego formal ou do equilíbrio fiscal — o Brasil continuará crescendo abaixo do seu potencial.
“Não se trata apenas de crescer 2% ou 3%. Sem produtividade, esse crescimento não se sustenta. O País precisa corrigir seus sinais econômicos e recolocar o trabalho formal no centro da estratégia de desenvolvimento”, conclui.