Estudo abre caminho para nova geração de vacinas contra a malária

Estudo abre caminho para nova geração de vacinas contra a malária

Pesquisa feita pela UFMG publicada na revista Nature identifica alvos capazes de ampliar a proteção contra diferentes espécies e fases do parasita

Estudo abre caminho para nova geração de vacinas contra a malária
Pesquisa conduzida por cientistas do CTVacinas da UFMG identifica antígenos com potencial para ampliar a eficácia das vacinas contra a malária (Foto: Pexels / Reprodução)

 

Pesquisadoras do CTVacinas da UFMG publicaram um estudo que pode abrir caminho para uma nova geração de vacinas contra a malária. A pesquisa identificou antígenos presentes em diferentes espécies e fases do parasita, o que poderá contribuir para o desenvolvimento de imunizantes mais amplos, duradouros e eficazes contra a doença.

O trabalho, liderado pelas pesquisadoras Camila Barbosa, Luna de Lacerda e Caroline Junqueira, avança sobre um dos principais desafios da imunologia: identificar componentes do parasita capazes de estimular uma resposta protetora dos linfócitos T, células fundamentais para a eficácia das vacinas.

A publicação também representa um marco para a ciência brasileira. Trata-se do primeiro estudo conduzido integralmente por mulheres brasileiras a ser publicado na Nature, uma das revistas científicas mais prestigiadas do mundo.

Segundo a pesquisadora Luna de Lacerda, o reconhecimento evidencia a relevância da produção científica nacional. 

 

“Trata-se de um simbolismo muito forte. Isso mostra a força da ciência produzida no país e o protagonismo das pesquisadoras brasileiras em uma descoberta de alcance mundial”, destaca.

 

Desafios dos imunizantes atuais durante estudo

Embora já existam vacinas aprovadas contra a malária, elas ainda apresentam limitações importantes. Os imunizantes disponíveis concentram sua ação principalmente na fase inicial da infecção, com eficácia variável ao longo do tempo e exigem doses de reforço. Além disso, a maioria das vacinas concentra sua proteção em apenas uma espécie do parasita.

Identificar quais proteínas da malária os linfócitos T deveriam reconhecer foi um dos maiores desafios da área. Diferentemente dos anticorpos, essas células de defesa conseguem eliminar o microrganismo após sua instalação no organismo. 

 

 

Foi justamente essa lacuna que motivou o estudo publicado na Nature. A pesquisa partiu de uma descoberta anterior da própria equipe do CTVacinas, que demonstrou que o Plasmodium vivax, espécie predominante nas Américas, infecta reticulócitos, glóbulos vermelhos jovens que preservam mecanismos capazes de apresentar fragmentos do parasita ao sistema imunológico.

A partir dessa observação, as pesquisadoras identificaram que proteínas internas do parasita permanecem altamente conservadas ao longo da evolução, ao contrário das proteínas de superfície, que sofrem mutações frequentes para escapar do sistema imunológico. Como desempenham funções essenciais para a sobrevivência do microrganismo, essas proteínas sofrem poucas alterações ao longo do tempo e mais vulneráveis.

Presença em diferentes fases e perfis genéticos

As pesquisadoras encontraram esses alvos nos estágios presentes no mosquito, no fígado, no sangue e até nos hipnozoítos, forma dormente responsável pelas recaídas da malária causada pelo P. vivax.

Na prática, isso significa que futuras vacinas desenvolvidas a partir desses antígenos poderão oferecer proteção simultânea contra diferentes espécies e em distintos momentos da infecção.

Segundo Luna, essa capacidade decorre do fato das proteínas se conservarem ao longo da evolução do parasita. Como desempenham funções essenciais para sua sobrevivência, sofrem poucas alterações entre as diferentes espécies e fases do ciclo de vida.

Outro resultado importante é a forma como os antígenos reagem ao sistema imunológico. As pesquisadoras demonstraram que muitos deles são apresentados por meio da molécula HLA-E, uma variante que apresenta baixa diversidade genética entre diferentes populações humanas. Essa característica pode facilitar o desenvolvimento de vacinas eficazes para pessoas com perfis genéticos distintos.

No editorial que acompanha a publicação, as editoras da Nature afirmam que o estudo preenche uma lacuna histórica no desenvolvimento de vacinas contra a malária.

 

“O estudo representa um panorama antes oculto dos alvos reconhecidos pelo sistema imunológico humano. Parte do estudo inaugura um novo caminho para o desenvolvimento de uma vacina amplamente protetora contra a malária e poderá influenciar pesquisas sobre outras doenças infecciosas”, conclui.