- Bem-estar
- julho 12, 2026
- 5 minutos
Yoga: uma abordagem além da performance
Saúde e bem-estar ganham novos significados e acolhimento

Em meio a um mercado de bem-estar ainda marcado por imagens de desempenho físico, corpos padronizados e promessas rápidas de transformação, a instrutora de yoga, Cecília Franco, segue em outra direção no Studio Pausa. Seu trabalho reúne yoga, meditação e terapia sonora com gongo em grupos pequenos, com foco na escuta do corpo, regulação emocional e acolhimento de quem chega atravessado por ansiedade, dor ou esgotamento.
A proposta dialoga com uma mudança mais ampla no setor, que vem aproximando as práticas de bem-estar da saúde mental e da vida cotidiana. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Cecília aborda um outro conceito de bem-estar.
O setor de bem-estar vem timidamente se afastando da ideia de desempenho físico e se aproxima do cuidado emocional. Como você enxerga isso, e em que medida o seu trabalho dialoga com essa mudança?
Percebo essa transformação quase como uma resposta coletiva ao esgotamento. Nos últimos anos o bem-estar foi vendido a partir de uma lógica de performance onde se encaixavam corpos perfeitos e alta produtividade, mas isso começou a gerar adoecimento e hoje, parece então existir uma busca mais honesta por espaços de sustentação emocional, presença e regulação interna. Meu trabalho parte de uma ideia de escuta do corpo para além de uma eventual superação, que pode ou não acontecer. As aulas são em grupos pequenos, com profundidade, continuidade e acolhimento real. Muitas mulheres chegam cansadas e trazem histórias de dor, traumas profundos e encontram aqui um espaço onde não precisam performar para serem cuidadas. Acredito que o yoga, quando preserva sua essência, não está preocupado em produzir corpos impressionantes, mas pessoas mais conscientes e inteiras.
A terapia sonora com gongo ainda é pouco conhecida por muita gente. Como ela funciona e quais os benefícios?
A terapia sonora com gongo utiliza vibração e frequência sonora como ferramenta de relaxamento e regulação do sistema nervoso. Durante a prática, o som cria uma experiência de escuta profunda que ajuda muitas pessoas a desacelerar mentalmente e a acessarem estados mais restaurativos de presença. Os benefícios mais relatados são redução de tensão, melhora do sono, sensação de relaxamento profundo e maior percepção do próprio corpo e das emoções.
Você vem de uma experiência profissional em cuidados paliativos. De que forma essa vivência molda o modo como você enxerga o bem-estar? E como as práticas auxiliam pessoas em sofrimento emocional?
Os cuidados paliativos mudaram profundamente a minha forma de enxergar o bem-estar, porque me ensinaram que cuidar não é eliminar todo e qualquer tipo de dor, mas sustentar a presença diante dela. Acompanhar processos de luto e sofrimento humano me mostrou que muitas pessoas não precisam, necessariamente, de mais desempenho ou produtividade, mas de espaços seguros onde possam respirar, sentir e existir sem precisar se defender o tempo todo. É justamente aí que o yoga, a meditação e a terapia sonora fazem sentido para mim. Essas práticas não prometem apagar o sofrimento, mas ajudam a regular o corpo, desacelerar estados de alerta constante e reconstruir uma relação mais gentil consigo mesmo. Muitas vezes, o primeiro passo do cuidado é simplesmente conseguir voltar a sentir o próprio corpo com segurança.
O que mais te preocupa em relação à forma como yoga e outras práticas são comunicadas e vendidas? Por outro lado, o que você enxerga como um avanço promissor?
O que me causa certa apreensão é quando práticas que nasceram como caminhos de consciência e cuidado passam a ser comercializadas dentro da lógica de performance, o que gera comparação entre as pessoas e até uma certa culpa em quem “não consegue atingir a meta”. Vejo, muitas vezes, o bem-estar sendo comunicado como estética. Ao mesmo tempo, acho muito promissor esse movimento crescente de pessoas buscando experiências mais honestas, profundas e humanizadas. Vejo cada vez mais gente interessada menos em “parecer bem” e mais em realmente construir presença, sustentação emocional e qualidade de vida possível dentro da realidade de cada um.