Entrevista: Burnout, quando o trabalho adoece

Entrevista: Burnout, quando o trabalho adoece

Condição deixa de ser exceção e se torna um dos maiores desafios da saúde mental no ambiente profissional, afirma Alexandre Pereira

Alexandre Pereira psiquiatra, na entrevista: Burnout, quando o trabalho adoece
Alexandre Pereira: ” O Burnout não é sinal de fraqueza individual, mas um alerta de que a forma como o trabalho está organizado precisa ser revista” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Da Redação

O avanço da tecnologia, a hiperconectividade e a pressão por resultados transformaram profundamente a relação das pessoas com o trabalho. Estar disponível o tempo todo passou a ser visto como sinônimo de comprometimento. Nesse cenário, cresce um problema que já é considerado um dos principais desafios da saúde mental no mundo corporativo: a Síndrome de Burnout.

Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um fenômeno ocupacional, a condição é consequência da exposição prolongada ao estresse crônico relacionado ao trabalho e pode provocar esgotamento físico e emocional, perda da motivação, queda de desempenho e impactos significativos na vida pessoal. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, o psiquiatra Alexandre Pereira traz mais informações sobre a síndrome de Burnout. 

O que é a Síndrome de Burnout e como ela se diferencia do estresse comum?

A Síndrome de Burnout é um estado de esgotamento físico e emocional provocado pela exposição prolongada ao estresse crônico no ambiente de trabalho. Ela é caracterizada por três componentes principais: exaustão emocional, distanciamento ou cinismo em relação ao trabalho e redução da realização profissional. Diferentemente do estresse comum, que tende a melhorar após períodos de descanso, o Burnout persiste e costuma piorar quando as condições que o provocam permanecem.

Por que os casos de Burnout aumentaram tanto nos últimos anos?

A tecnologia trouxe inúmeras facilidades, mas também criou uma cultura de disponibilidade permanente. Muitas pessoas sentem que precisam responder mensagens, acompanhar e-mails e resolver demandas a qualquer hora. Soma-se a isso o aumento das metas, equipes reduzidas, insegurança profissional, excesso de reuniões, competitividade e a dificuldade de separar a vida pessoal do trabalho. A pandemia intensificou esse cenário ao eliminar, em muitos casos, as barreiras entre casa e escritório.

Em que momento o cansaço deixa de ser normal e passa a ser um sinal de alerta?

Todo mundo se sente cansado após períodos intensos de trabalho. O problema é quando esse cansaço não melhora mesmo depois de descansar. Alguns sinais importantes são exaustão persistente, dificuldade de concentração, irritabilidade, perda de motivação, alterações no sono, ansiedade, dores musculares, dores de cabeça frequentes e queda no desempenho profissional. Muitas vezes, familiares e colegas percebem essas mudanças antes da própria pessoa.

Existem profissões mais vulneráveis ao Burnout?

Sim. Profissionais da saúde, professores, policiais, bombeiros, profissionais da tecnologia, executivos, gestores e trabalhadores da assistência social costumam estar mais expostos. Mas o Burnout pode atingir qualquer trabalhador. Pessoas muito perfeccionistas, que assumem responsabilidades excessivas, têm dificuldade para estabelecer limites ou sentem necessidade constante de agradar também apresentam maior risco.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um médico, geralmente um psiquiatra ou médico do trabalho. Não existe um exame específico para confirmar a síndrome. É importante diferenciar o Burnout de outras condições que apresentam sintomas semelhantes, como depressão, transtornos de ansiedade, alterações da tireoide, anemia e distúrbios do sono. Quando necessário, exames laboratoriais ajudam a descartar outras causas para o cansaço.

Como funciona o tratamento?

O tratamento depende da gravidade do quadro. Normalmente envolve reorganização das condições de trabalho, psicoterapia, prática de atividade física, melhora da qualidade do sono, fortalecimento da rede de apoio e desenvolvimento de estratégias para lidar com o estresse. Quando existem ansiedade intensa, depressão ou insônia importantes, medicamentos podem ser indicados. Nos casos mais graves, pode ser necessário um afastamento temporário do trabalho para permitir a recuperação.

É possível prevenir o Burnout?

Sim, e a prevenção é muito mais eficaz do que o tratamento. As empresas precisam criar ambientes psicologicamente seguros, respeitar os horários de descanso, distribuir melhor a carga de trabalho, capacitar lideranças para reconhecer sinais precoces de sofrimento e oferecer canais de apoio em saúde mental. Já os trabalhadores podem estabelecer limites para o uso da tecnologia fora do expediente, preservar momentos de lazer, cuidar do sono, praticar atividade física e manter vínculos familiares e sociais.

Ainda existe a percepção de que investir em saúde mental reduz a produtividade. Isso é um mito?

Sem dúvida. A realidade mostra justamente o contrário. Empresas que cuidam da saúde mental de seus colaboradores apresentam menor absenteísmo, menor rotatividade, menos acidentes, relações mais saudáveis e maior criatividade. O Burnout não é sinal de fraqueza individual, mas um alerta de que a forma como o trabalho está organizado precisa ser revista. Promover saúde mental significa proteger pessoas e, ao mesmo tempo, fortalecer as organizações.