- Entrevista
- agosto 23, 2026
- 10 minutos
Entrevista: Saúde da mulher em dia
Falar sobre endometriose é preciso e levar mais informações sobre essa doença inflamatória que pode repercutir em todo organismo

Alessandra Clarizia
A endometriose é uma doença inflamatória crônica que pode causar dores na região pélvica e infertilidade. De acordo com o Ministério da Saúde, a doença atinge entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva, ou seja, período em que ocorre a menstruação.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, a ginecologista e pós-doutora, com atuação em ginecologia regenerativa e sócia da Clarizia Saúde da Mulher, Dra. Alessandra Clarizia, aborda o assunto e como as mulheres devem fazer a prevenção.
A endometriose é cada vez mais compreendida como uma doença sistêmica e não apenas ginecológica. Como a inflamação crônica provocada pela doença pode afetar o metabolismo, o sistema cardiovascular e outros órgãos?
A endometriose não afeta apenas o útero e os ovários. É uma doença inflamatória crônica que pode repercutir em todo o organismo e é dependente de estrogênio. As substâncias inflamatórias, como citocinas e prostaglandinas, podem aumentar o estresse oxidativo — situação em que há desequilíbrio entre a produção de radicais livres e os mecanismos de defesa do organismo. Eles entram na circulação sanguínea e se disseminam no organismo. Essa inflamação constante pode interferir no funcionamento dos vasos sanguíneos, no metabolismo da glicose e das gorduras e na resposta do sistema imunológico. Estudos recentes mostram que mulheres com endometriose apresentam maior frequência de pressão alta e de algumas doenças cardiovasculares.
Uma grande análise publicada em 2025 encontrou risco cardiovascular aproximadamente 23% maior e risco de hipertensão cerca de 13% maior. Isso não significa que toda mulher com endometriose desenvolverá um problema cardíaco. Significa que precisamos olhar para essa paciente de maneira mais ampla, acompanhando não apenas dor, menstruação e fertilidade, mas também pressão arterial, colesterol, glicemia e estilo de vida. Além disso, a endometriose pode atingir diretamente outros órgãos, como intestino, bexiga, ureteres, diafragma e, mais raramente, os pulmões. Por isso, a endometriose não deve ser vista apenas como uma doença da menstruação ou da fertilidade, mas como uma condição crônica que exige cuidado integral.
Existe uma relação entre endometriose, resistência à insulina, alterações na glicemia e síndrome metabólica? O que as pesquisas científicas já conseguem afirmar sobre essa associação?
Sim, existe uma possível relação, mas ainda precisamos de mais estudos para entender exatamente como ela acontece. A resistência à insulina ocorre quando o organismo não responde adequadamente à insulina, hormônio responsável por ajudar a glicose a entrar nas células. Com o tempo, essa alteração pode favorecer aumento da glicemia, diabetes tipo 2, pressão alta e alterações do colesterol. A inflamação crônica da endometriose pode dificultar a ação da insulina.
Algumas pesquisas encontraram maior frequência de resistência insulínica e síndrome metabólica nessas mulheres. Um estudo de 2024 observou que mulheres com endometriose apresentaram aproximadamente o dobro da frequência de síndrome metabólica.Ainda não podemos afirmar que a endometriose seja a causa direta dessas alterações. Idade, genética, peso, alimentação, sedentarismo, sono e tratamentos utilizados também podem influenciar.
Há estudos que investigam o risco de diabetes em mulheres com endometriose. O que as evidências mostram atualmente: a endometriose aumenta o risco de diabetes tipo 2 ou a relação ainda não está comprovada? E o que sabemos sobre diabetes gestacional?
Os estudos mais recentes apontam uma associação entre endometriose e maior risco de diabetes tipo 2, mas ainda não podemos dizer que a endometriose causa diabetes. Uma grande pesquisa publicada em 2026 encontrou mais casos de diabetes tipo 2 entre mulheres com endometriose. O risco variou conforme o tipo de endometriose, o peso e a fase da vida. É um dado importante, mas trata-se de um estudo observacional: ele identifica uma associação, não uma relação direta de causa e efeito.
Em relação à diabetes gestacional, os trabalhos mais recentes também sugerem um possível aumento de risco. No entanto, outros fatores precisam ser considerados. Mulheres com endometriose muitas vezes engravidam em idade mais avançada ou utilizam técnicas de reprodução assistida, e isso também pode influenciar o risco. Portanto, a gestação deve receber atenção obstétrica cuidadosa, mas não é correto dizer que toda mulher com endometriose terá diabetes gestacional.
Diante dessas possíveis alterações metabólicas, a mulher com endometriose deveria ter uma avaliação preventiva que incluísse glicemia, perfil lipídico, pressão arterial, circunferência abdominal e outros marcadores? Com que frequência esses exames deveriam ser considerados?
Sim. A mulher com endometriose deve receber uma avaliação de saúde mais ampla. Não devemos cuidar somente da dor, da menstruação ou da fertilidade. É importante acompanhar pressão arterial, peso, circunferência abdominal, glicemia, hemoglobina glicada, colesterol e triglicérides. Também devemos perguntar sobre atividade física, alimentação, tabagismo, qualidade do sono e histórico familiar de diabetes e doenças cardiovasculares. A frequência depende da idade e dos fatores de risco de cada paciente. Além dos sintomas clínicos que ela apresenta desde relacionados à endometriose em si e os desdobramentos da doença assim como qual tratamento ela está realizando em um ginecologista com experiência em endometriose.
De maneira geral, pressão arterial e peso podem ser avaliados semestralmente ou anualmente. Glicemia e perfil de colesterol podem ser realizados inicialmente e repetidos conforme perfil bioquímico. Se a mulher já tiver excesso de peso, pressão alta, histórico familiar, diabetes gestacional anterior ou exames alterados, o acompanhamento deve ser mais frequente.
Além do tratamento ginecológico e hormonal, quais mudanças de estilo de vida podem contribuir para reduzir inflamação e risco cardiometabólico?
O estilo de vida não substitui o tratamento ginecológico, hormonal ou cirúrgico quando indicado, mas pode reduzir o risco cardiovascular, melhorar a saúde metabólica e ajudar no controle da dor e da qualidade de vida. Uma alimentação de padrão mediterrâneo é uma estratégia boa: maior presença de verduras, legumes, frutas, feijões, cereais integrais, castanhas, sementes, azeite e fontes de gorduras insaturadas, com menor consumo de ultraprocessados, bebidas açucaradas, gorduras trans, carnes processadas e excesso de açúcar. Dietas sem glúten, sem lactose ou muito restritivas não devem ser indicadas de rotina.
Restrições indiscriminadas podem provocar deficiências nutricionais e piorar a relação com a alimentação.A atividade física deve ser adaptada à intensidade da dor. Como referência geral, recomenda-se progredir para cerca de 150 minutos semanais de exercício aeróbico moderado, associados a exercícios de força duas vezes por semana. Nos períodos de exacerbação, caminhadas leves, exercícios aquáticos, alongamento e fisioterapia pélvica podem ser mais toleráveis.
O sono também é fundamental. Uma meta-análise de 2024 estimou que aproximadamente 70% das mulheres com endometriose apresentam algum distúrbio do sono. A relação é circular: a dor prejudica o sono, e o sono inadequado aumenta a sensibilidade à dor, o estresse e o risco metabólico. A acupuntura é espetacular para um sono melhor, controle da dor e aumento da qualidade de vida.
Para uma mulher que já tem endometriose e apresenta histórico familiar de diabetes, excesso de peso, alterações do colesterol e glicemia, quais cuidados e profissionais deveriam fazer parte de um acompanhamento multidisciplinar?
Essa mulher deve ser acompanhada e tratada de forma integrada o mais precocemente possível, logo após o diagnóstico. O ginecologista continua coordenando o tratamento da endometriose, mas o cuidado pode envolver outros médicos especialistas tais como cardiologista, endocrinologista e nutrólogo. O plano deve incluir avaliação periódica e dependendo do quadro, podem ser necessários exames laboratoriais e de imagem em intervalo de tempo a ser definido de acordo com a clínica e o estádio da doença. O tratamento precisa considerar simultaneamente o controle da dor, a preservação da fertilidade quando desejada, a saúde óssea, a saúde cardiovascular e o metabolismo.
Também é importante revisar medicamentos, qualidade do sono, alimentação, atividade física e repercussões emocionais. A principal mensagem é que endometriose não deve ser acompanhada apenas quando a mulher sente dor ou deseja engravidar. Trata-se de uma doença crônica, e o melhor cuidado é aquele que enxerga a paciente por inteiro, identifica precocemente seus fatores de risco e oferece prevenção individualizada.