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  • setembro 11, 2026
  • 11 minutos

Setembro Amarelo: prevenção também é se escutar

Setembro Amarelo: prevenção também é se escutar

Porque antes de chegar ao limite, existe um caminho inteiro de possibilidades

Letícia Cançado, terapeuta ocupacional, fala sobre autocuidado e prevenção em saúde mental durante o Setembro Amarelo
A terapeuta ocupacional Letícia Cançado destaca, no Setembro Amarelo, a importância da escuta de si mesmo como ferramenta de prevenção e cuidado com a saúde mental (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Letícia Cançado (*)

Setembro chegou. E, com ele, o amarelo volta a ocupar espaços, campanhas e conversas para nos lembrar de um assunto que precisa ser discutido durante todo o ano: a prevenção do suicídio.

Mas talvez falar sobre prevenção seja, antes de tudo, falar sobre vida. Sobre se cuidar. Sobre se perceber. Sobre se escutar. E sobre não esperar chegar ao limite para reconhecer que alguma coisa não vai bem.

Quando pensamos em prevenção, muitas vezes pensamos imediatamente em como identificar sinais no outro. Como perceber que um familiar, um amigo ou alguém próximo está sofrendo. E isso é, sem dúvida, muito importante.

Mas existe uma outra dimensão da prevenção sobre a qual precisamos falar: aprender a escutar a nós mesmos.

Cuidar da saúde mental começa por perceber. Perceber o que sentimos, observar nossas mudanças, fazer uma pausa para olhar para dentro e reconhecer quando alguma coisa não está bem. É fazer uma autoanálise, não para nos julgarmos, mas para nos conhecermos.

Como eu estou, de verdade? Tenho conseguido realizar as coisas que fazem parte da minha rotina? Tenho prazer nelas? Tenho me afastado das pessoas? Minha maneira de dormir, trabalhar, estudar ou me relacionar mudou? Tenho me sentido constantemente triste, angustiado, vazio ou sem perspectiva? Tenho conseguido falar sobre aquilo que estou vivendo?

Essas perguntas não servem para diagnosticar. Servem para perceber. E perceber também é uma forma de prevenção.

A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva tem ressaltado a importância do conhecimento e do autoconhecimento para reconhecer sinais de sofrimento e buscar ajuda. Conhecer a própria mente pode nos ajudar a perceber mudanças e a procurar cuidado antes que o sofrimento se intensifique.

Conhecer a própria mente nos ajuda a não sermos surpreendidos por aquilo que já vinha dando sinais.

A psicanalista Andréa Vermont também nos convida a refletir sobre a importância de compreender aquilo que vivemos. Em uma de suas falas, ela sintetiza essa ideia de maneira muito interessante:

 

“A gente é refém de tudo aquilo que desconhece. E a gente é livre com tudo aquilo que conhece.”

 

Talvez seja justamente aí que a prevenção comece. Quando conseguimos reconhecer que estamos sofrendo.  Quando entendemos que determinada situação está ultrapassando nossos recursos para lidar com ela. Quando percebemos que nossa rotina mudou, que nossos vínculos estão sendo afetados, que perdemos o prazer pelas coisas ou que estamos carregando um peso que já não conseguimos sustentar sozinhos.

Não precisamos esperar chegar ao limite para começar a cuidar. Cuidar da saúde mental também é compreender que existem ferramentas, profissionais e caminhos que podem nos ajudar.

Buscar um psicólogo, um psiquiatra, um psicanalista, um médico ou outro profissional capacitado não precisa ser o último recurso. Pode ser o primeiro passo. Pode ser prevenção. Pode ser cuidado. Pode ser uma maneira de dizer a si mesmo: eu percebi que não estou bem e não preciso atravessar isso sozinho.

Mas a prevenção também acontece dentro de casa. Nas famílias. Entre amigos. Nas relações que construímos.

Às vezes, alguém que está sofrendo não consegue dizer claramente o que está acontecendo. Pode simplesmente ficar mais quieto, se afastar, deixar de participar das coisas que antes gostava, perder o interesse ou demonstrar desesperança.

Nem toda mudança significa risco de suicídio. Mas toda mudança importante merece atenção.

Não precisamos assumir o papel de diagnosticar ou solucionar a dor de alguém. Precisamos aprender a estar presentes. Perguntar, escutar e principalmente, não julgar.

“Você está bem?” pode ser uma pergunta automática.

Talvez possamos, algumas vezes, ir um pouco além:

“Como você realmente está?”

E então ter disponibilidade para ouvir a resposta. Sem pressa de interromper. Sem transformar imediatamente a dor do outro em conselho. Sem dizer que poderia ser pior. Sem minimizar. Sem comparar sofrimentos. Porque nem sempre quem sofre precisa de uma resposta pronta.

Às vezes, precisa de alguém que consiga permanecer ao seu lado enquanto encontra palavras para aquilo que está sentindo.

O tema do Setembro Amarelo de 2026 do Centro de Valorização da Vida é justamente “Escutar é estar presente”. A campanha chama atenção para uma escuta acolhedora, sem julgamentos e sem pressa, como uma forma de oferecer apoio a quem enfrenta sofrimento emocional.

E talvez essa mensagem seja ainda mais importante em um mundo em que estamos permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, tão pouco disponíveis uns para os outros. Escutar exige presença. E presença exige tempo.

Mas existe uma escuta que precisa acontecer antes de todas as outras: a nossa própria.

Precisamos aprender a reconhecer quando estamos cansados demais, quando estamos tristes demais, quando estamos funcionando no automático, quando deixamos de fazer coisas que antes nos davam prazer. Não para transformar cada dificuldade em doença. Mas para não transformar sofrimento em silêncio.

Cuidar da saúde mental é perceber. É se escutar. É fazer essa pausa para olhar para dentro. É reconhecer a própria dor sem vergonha e sem julgamento. E é saber que existem ferramentas e caminhos para cuidar daquilo que dói. Prevenção não começa apenas quando a crise chega.

Prevenção começa muito antes. Começa quando alguém percebe. Quando alguém pergunta. Quando alguém escuta. Quando alguém procura ajuda. Quando uma família aprende a conversar sobre sentimentos. Quando uma pessoa entende que pedir ajuda não é sinal de fraqueza. E quando aprendemos que não precisamos provar nossa força suportando tudo sozinhos.

Talvez esse Setembro Amarelo possa nos fazer uma pergunta simples: Como temos cuidado da nossa saúde mental?

E talvez a resposta comece com algo ainda mais simples: Parando para nos escutar.

Porque antes de chegar ao limite, existe um caminho inteiro de possibilidades. Existe percepção, conversa, acolhimento, tratamento, ajuda, cuidado e existe vida.

Não precisamos esperar a dor gritar para começar a escutá-la.

 

(*) Terapeuta Ocupacional há mais de 20 anos, especializada em Reabilitação dos Membros Superiores e em Conceito Neuroevolutivo Bobath (infantil e adulto).