Inteligência artificial amplia rastreamento da doença de Chagas

Inteligência artificial amplia rastreamento da doença de Chagas

Pesquisa da UFMG  identificou que a ferramenta aplicada ao eletrocardiograma pode ajudar a detectar precocemente a doença em pacientes atendidos pelo SUS 

Profissionais de saúde analisam exame cardíaco durante atendimento em unidade de saúde; estudo da UFMG avalia uso de inteligência artificial no rastreamento da doença de Chagas
Pesquisa do Hospital das Clínicas da UFMG indica potencial do eletrocardiograma com inteligência artificial para identificar pacientes com doença de Chagas (Foto: HC-UFMG / Divulgação )

 

Da Redação

Um estudo conduzido pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) apontou que a inteligência artificial pode se tornar uma aliada importante no rastreamento da doença de Chagas. A pesquisa demonstrou que algoritmos aplicados à análise de eletrocardiogramas são capazes de detectar o protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença, antes do surgimento de complicações mais graves.

Transmitida principalmente pelo inseto conhecido como barbeiro, a doença de Chagas afeta mais de dois milhões de brasileiros, segundo o Ministério da Saúde. Como pode permanecer assintomática durante anos, o diagnóstico precoce é um dos principais desafios para o controle da enfermidade.

Os resultados do estudo foram publicados em agosto na revista científica Circulation. A pesquisa avaliou o desempenho do modelo AI-ECG-EPI, que combina informações obtidas pelo eletrocardiograma com dados epidemiológicos para identificar pessoas com maior risco de infecção. A proposta é integrar a estrutura já presente no Sistema Único de Saúde (Sus), o que torna a estratégia escalável e de baixo custo. 

Segundo o coordenador da Rede de Telessaúde do Hospital das Clínicas da UFMG (RTMG), professor Antonio Luiz Pinho Ribeiro, e um dos pesquisadores envolvidos no projeto, a ferramenta foi incorporada ao fluxo regular de atendimento nas Unidades Básicas de Saúde. 

 

“Quando era detectada maior probabilidade de o paciente ter a enfermidade, a técnica de enfermagem responsável pelo exame recebia um alerta, que recomendava o teste sorológico para confirmar o diagnóstico. Dessa forma, o rastreamento era feito durante uma consulta ou exame já em andamento, sem exigir uma etapa inicial separada”, explica.

 

 

Ferramenta identificou milhares de casos suspeitos 

Os pesquisadores aplicaram o modelo AI-ECG-EPI em cerca de 59 mil pessoas, entre os mais de 75 mil exames considerados elegíveis. Entre elas, mais de 6 mil resultaram positivo no rastreamento, com 3,5 mil pessoas realizando os testes sorológicos para confirmação diagnóstica.

Os resultados mostraram que 36% dos pacientes apontados pela inteligência artificial tiveram a doença confirmada posteriormente pelos exames laboratoriais.

O modelo apresentou sensibilidade de 34% e especificidade de 91%. Enquanto a sensibilidade mede a capacidade de identificar corretamente pessoas que possuem a doença, a especificidade avalia a precisão em reconhecer indivíduos que não estão infectados. 

Ribeiro ressalta que a tecnologia não substitui os métodos tradicionais de diagnóstico nem a avaliação médica.

 

“Ela não faz o diagnóstico e não substitui a sorologia, mas pode ajudar as equipes de saúde a identificar pessoas que devem ser investigadas, especialmente em regiões endêmicas para a doença”, diz.

 

Um dos resultados que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi o número de pacientes que desconheciam a própria condição. Entre os 927 casos corretamente identificados pelo algoritmo e posteriormente confirmados pelos exames laboratoriais, aproximadamente metade dos pacientes não sabia que tinha a doença de Chagas.

Segundo Ribeiro, a maior parte desses casos estava em estágio inicial, quando as possibilidades de acompanhamento e tratamento são mais efetivas. 

 

“A maioria apresentava doença de Chagas em fase inicial, situação em que a identificação oportuna amplia a possibilidade de avaliação e tratamento específico, o que pode contribuir para evitar a progressão da doença”, destaca.