Semáforos que pensam: inteligência artificial ganha espaço nas vias de BH

Semáforos que pensam: inteligência artificial ganha espaço nas vias de BH

Sistema combina dados históricos e informações em tempo real para melhorar a fluidez do trânsito e reduzir o tempo de espera nos cruzamentos

Semáforos inteligentes que usam IA
Semáforos inteligentes utilizam dados e algoritmos para ajustar os tempos dos sinais e responder às mudanças no tráfego

 

Da Redação

O sinal vermelho pode estar com os dias contados para quem passa tempo demais parado nos cruzamentos. Não porque os semáforos deixarão de existir, mas porque a inteligência artificial começa a mudar a maneira como eles funcionam. Em vez de obedecer exclusivamente a tempos predefinidos, os equipamentos inteligentes conseguem analisar o movimento dos veículos, identificar padrões e ajustar a duração dos sinais conforme as condições do trânsito. Belo Horizonte está entre as cidades brasileiras que já adotaram essa tecnologia.

Na capital mineira, a inteligência artificial está presente em cerca de 50% do parque semafórico. Curitiba também investe no sistema adaptativo, com a tecnologia instalada em 44 vias. A proposta é substituir gradualmente a lógica dos sinais programados apenas por horários por uma operação capaz de responder às mudanças no fluxo de veículos.

A busca por semáforos mais eficientes não é novidade na engenharia de tráfego. Durante décadas, o controle dos cruzamentos se baseou principalmente em programações definidas a partir de horários de pico, levantamentos históricos e estimativas de circulação. O problema é que o trânsito nem sempre segue o planejamento.

Uma chuva repentina, um acidente, uma obra ou até mesmo um evento podem alterar completamente a movimentação de veículos em poucos minutos. É justamente nessas situações que a inteligência artificial pode fazer a diferença, ao combinar informações históricas e dados em tempo real para prever o comportamento do tráfego e ajustar os semáforos.

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Scientific Reports reforça o potencial dessa tecnologia. Os pesquisadores desenvolveram um modelo que reúne informações sobre o fluxo de veículos, condições meteorológicas e eventos, além de utilizar aprendizado por reforço para prever a dinâmica do trânsito e coordenar o funcionamento dos sinais.

Segundo o CEO da Aquarela Analytics, empresa brasileira de inteligência artificial e análise de dados criada em Florianópolis (SC), Marcos Santos,  a modernização não exige necessariamente a substituição de toda a estrutura semafórica.

 

“Em muitos casos, não é preciso trocar todo o semáforo. A inteligência é adicionada à infraestrutura existente por meio de sensores, câmeras, controladores e uma camada de software capaz de analisar os dados e orientar a operação dos sinais. Isso permite modernizar a mobilidade sem necessariamente reconstruir toda a infraestrutura da cidade”, explica.

 

A Aquarela Analytics desenvolve soluções de inteligência artificial para os setores corporativo e industrial e tem entre seus clientes empresas como Mercedes-Benz, Scania, SolarBR Coca-Cola e Embraer.

Semáforos capazes de antecipar congestionamentos

A principal diferença entre os sistemas convencionais e os inteligentes está na capacidade de antecipar situações. Enquanto os modelos tradicionais seguem programações previamente estabelecidas, os equipamentos que utilizam inteligência artificial podem analisar o comportamento do trânsito e ajustar os tempos dos sinais de forma dinâmica.

 

“A IA permite que o semáforo deixe de olhar apenas para o presente. O sistema consegue cruzar dados históricos e informações que estão acontecendo naquele momento para identificar padrões e estimar como o trânsito pode evoluir. A partir disso, os tempos dos sinais podem ser ajustados de maneira mais dinâmica”, afirma Santos.

 

Na prática, os equipamentos passam a integrar uma rede de informações capaz de coordenar diferentes cruzamentos. Assim, a operação de um semáforo pode considerar não apenas o movimento de veículos naquele ponto, mas também as condições de circulação nas vias próximas.

Estudos apontam redução de atrasos e emissões

Os possíveis benefícios da tecnologia vão além da redução dos congestionamentos. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica IATSS Research avaliou sistemas de controle semafórico baseados em deep reinforcement learning, técnica de inteligência artificial que permite aos algoritmos aprender quais decisões podem melhorar o fluxo de veículos.

Em um dos cenários analisados, a utilização da tecnologia proporcionou resultados expressivos. Veja as reduções observadas em um dos cenários do estudo publicado na IATSS Research, em 2025.

  • Atrasos no trânsito: −26,4%
  • Conflitos entre veículos: −26,9%
  • Emissões de CO₂: −12%

Os resultados são específicos dos cenários estudados e não representam medições do trânsito de Belo Horizonte. Em testes realizados em cruzamentos reais nas cidades de Hangzhou, na China, e Colônia, na Alemanha, os pesquisadores também identificaram reduções de 10% a 15% nos atrasos.

Para quem enfrenta o trânsito diariamente, esses ganhos podem representar menos tempo parado nos cruzamentos, deslocamentos mais previsíveis e maior eficiência no transporte público. A diminuição das paradas e do tempo de espera também pode contribuir para reduzir o consumo de combustível e as emissões de poluentes.

 

 

Cidades inteligentes começam pelas decisões

A aplicação da inteligência artificial no trânsito faz parte de um movimento mais amplo de desenvolvimento das chamadas smart cities, ou cidades inteligentes. Nesse conceito, a tecnologia é utilizada para integrar informações, aprimorar serviços públicos e melhorar a qualidade de vida da população.

No caso da mobilidade urbana, a combinação de sensores, câmeras, dados históricos e algoritmos permite que os gestores acompanhem as condições das vias e adotem medidas para melhorar a circulação. O desafio é transformar a quantidade crescente de informações produzidas pela cidade em decisões que tenham impacto na rotina da população.

 

“Uma cidade inteligente não é simplesmente uma cidade cheia de sensores. É uma região que consegue transformar os dados coletados em decisões melhores. No trânsito, isso significa reduzir congestionamentos, melhorar a circulação do transporte público e responder mais rapidamente às mudanças que acontecem nas ruas”, completa Santos.