- Artigo
- junho 23, 2026
- 6 minutos
Apenas uma fase ou ansiedade infantil de verdade?
Medo do escuro, apego excessivo, pesadelos: dúvidas que chegam ao consultório de psicologia infantil e que precisam de análises criteriosas

Débora Fonseca (*)
Pesadelos frequentes, apego intenso, dificuldade de separação. Na maioria das vezes, ouvimos que é fase. E muitas vezes é mesmo. Mas como saber quando não é? Essa é uma das dúvidas mais comuns que chegam ao consultório de psicologia infantil. E a resposta não tem a ver apenas com idade nem com uma lista de comportamentos proibidos. Tem a ver com um detalhe bem específico: o quanto aquilo está atrapalhando a vida da criança e da família.
Ansiedade em criança tem cara de quê?
Ansiedade infantil raramente aparece como preocupação. Criança pequena não chega e diz que está ansiosa. Ela chega com dor de barriga toda segunda de manhã. Com dor de cabeça antes da apresentação escolar. Chorando na porta da escola sem conseguir explicar por quê. O corpo está comunicando algo que ela ainda não tem palavras para dizer.
A criança está sempre comunicando algo. Quando ela tem dor de barriga todo dia antes de ir para a escola e o pediatra descartou qualquer causa física, esse corpo está mandando um recado. A gente precisa aprender a ler esse recado antes que ele fique mais alto.
Outros sinais que merecem atenção: irritabilidade fora do comum, choro fácil sem motivo claro, dificuldade para dormir sozinha, recusa em participar de situações novas, e comportamentos que a criança já tinha superado voltando do nada, como pedir colo o tempo todo ou não querer ficar em nenhum cômodo sem o adulto por perto.
Então medo do escuro é ansiedade?
Não necessariamente. Cada fase do desenvolvimento tem seus medos típicos, e isso é esperado. Criança de três anos com medo do escuro é diferente de criança de nove anos que não consegue dormir com a luz apagada há dois anos e acorda a casa toda com pesadelos frequentes.
O que muda entre uma coisa e outra é a intensidade, a duração e o impacto. Uma fase passa. Uma ansiedade que não foi trabalhada tende a crescer. A criança aprende que, se evitar o que a assusta, o desconforto some. Funciona no momento. Mas com o tempo, a lista do que ela evita vai crescendo e o espaço onde ela se sente segura vai ficando cada vez menor.
Apego excessivo: carência ou ansiedade?
Essa confusão é muito comum. Pais ouvem que o filho é muito apegado, que tem que soltar mais, que está mimando demais. E ficam em dúvida se o problema é deles ou da criança.
Apego é saudável, criança precisa de base segura para explorar o mundo. O ponto de atenção é quando esse apego começa a impedir que a criança funcione. Quando ela não consegue ficar alguns minutos sozinha em nenhuma situação, quando a separação gera pânico real e não só choro de birra, quando ela regride em habilidades que já tinha conquistado, aí vale investigar o que está acontecendo.
Não é questão de mimar ou não mimar, e sim entender o que aquele comportamento específico está comunicando: pode ser um pedido de mais segurança, algo na rotina que está gerando instabilidade, ou uma demanda que precisa de espaço terapêutico para ser processada. Cada criança vai apontar para um caminho diferente.
Quando buscar ajuda?
Alguns sinais práticos para ficar de olho:
- O comportamento dura mais de quatro semanas sem melhora;
- A criança está evitando situações que antes fazia normalmente;
- Aparecem queixas físicas frequentes sem causa médica identificada;
- A rotina da família está sendo organizada em torno dos medos da criança;
- A escola sinalizou alguma preocupação com o comportamento dela.
Nenhuma avaliação psicológica vai dizer que você exagerou em cuidar do seu filho. O que ela vai fazer é te ajudar a entender o que está acontecendo e o que dá para fazer a respeito. Isso, na maioria das vezes, já traz um alívio enorme para a família inteira.
O que muda com o acompanhamento psicológico
A psicoterapia infantil não tem como objetivo criar uma criança que não sente medo. O objetivo é que ela aprenda a lidar com o desconforto sem precisar fugir dele.
Na prática, isso significa trabalhar a regulação emocional dentro e fora do consultório, orientar os pais sobre como responder aos comportamentos de ansiedade em casa, e articular com a escola quando necessário. O processo envolve a criança e a família, porque ansiedade não vive só dentro de uma pessoa: ela aparece nas relações, na rotina, nos pequenos momentos do dia a dia.
Quando a criança começa a conseguir fazer coisas que antes evitava, ela passa a ganhar confiança e os pais a ganharem tranquilidade. E todo mundo entende melhor como essa criança funciona. Esse entendimento é o que mais transforma.
(*) Psicóloga especializada em atendimento infanto-juvenil, com formação em TCC, ABA e transtornos do neurodesenvolvimento; atende crianças e adolescentes de forma presencial e on-line.