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  • dezembro 23, 2025
  • 7 minutos

Espelho: quem somos nós brasileiros?

Espelho: quem somos nós brasileiros?

O debate público que forma a nossa consciência sobre o País atualmente está eivado de engano e de desinformação

Lucas Couto é autor do artigo "Espelho: quem somos nós brasileiros?"
Lucas Couto: “O trabalho de construção de um país seguro e inclusivo aguarda a disposição de todos os brasileiros insistindo na confiança entre iguais” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Lucas Couto (*)

“Brasil no Espelho” é um livro que a gente torce para que muitos leiam porque ataca de frente um problema do nosso povo que anda se estranhando nos últimos anos. As eleições exacerbaram esse comportamento, como sabemos, mas é possível ir mais fundo para entender melhor e, principalmente, pôr fim à divisão entre os brasileiros, tão nociva para nós todos. E o que está na raiz do problema, a pesquisa e o livro mostram: é uma visão míope e deturpada de Brasil – 70% não conhecem o próprio País – e o que é pior, pensam que conhecem.

Por parte do autor do “Brasil no Espelho” houve mais do que trabalho sério e aprofundado de pesquisa. Felipe Nunes escreve na primeira pessoa e dá até exemplo da vida pessoal colocando-se como um de nós, o que de começo já funciona como um convite ao entendimento. E está aí essa outra virtude do livro que fala do País como uma unidade. Somos um único povo e somos mais definidos pelo quanto nos parecemos do que pelo quanto nos diferenciamos uns dos outros – mais um apelo à convivência pacífica.

Para se ter ideia do quanto nós desconhecemos a realidade do nosso País, a pesquisa fez quatro perguntas aos entrevistados. Sendo elas: Como está a economia do Brasil?  Como está o nível de desemprego? Como anda nossa segurança? Quantas pessoas morreram de Covid no País?

Nada menos que 42% dos entrevistados tiraram zero na “prova” e, entre os que acertaram alguma coisa, a média de acertos ficou por volta de 0,8. E aí vem o principal, perguntados sobre se teriam acertado todas as questões, 70% responderam que tinham acertado tudo, aponta o livro  “Brasil no Espelho”.

Ou seja, o debate público que forma a consciência dos brasileiros sobre o País atualmente está eivado de engano e de desinformação. Se quase todos acham que estão certos sem estarem é compreensível que o diálogo com o outro que pense diferente fique complicado.

Se estou convicto de que estou certo sobre o que penso, é claro que o outro só pode estar errado. E se a gente coloca aí o componente emocional da disputa eleitoral, dá para entender os danos que essa miopia coletiva provoca. Muita briga entre amigos, família e até confronto com morte – como já vimos.

Se há uma vantagem no “cada cabeça uma sentença” é que o Brasil está se interessando mais pelos assuntos da política e da economia. Resta saber como temperar os ânimos com informações corretas que deem a real dimensão do País e que levem ao debate proveitoso. Esse o que precisamos para melhorar nossa vida como uma nação.

 

Outro assunto tratado na obra é o quanto somos desconfiados uns dos outros. Em comparação com outros países, especialmente entre os mais desenvolvidos, estamos na rabeira, no mesmo nível dos mais pobres do mundo. Essa desconfiança atrasa o País, encarece as transações que precisam se acercar de dezenas de cláusulas contratais e, acima de tudo, acirra nossa percepção de insegurança.

 

Conforme a pesquisa publicada no livro “Brasil no Espelho”, 70% dos brasileiros que vivem nas capitais têm medo de sair na rua temendo a criminalidade, mas o problema atinge a maioria da população nos quatro cantos.

E a falta de segurança vai além da percepção de insegurança gerada pela criminalidade e a violência. Ela é ampliada na pesquisa para falar das situações de desamparo em geral às quais a população se vê submetida. Esse desamparo cobra seu preço e é um indicador para vários comportamentos dos brasileiros.

É desta forma que, quanto maior a insegurança (de qualquer povo), mais aumentam sentimentos de intolerância com o outro, rejeição de normas igualitárias, fortalecimento do comportamento de grupo. Prevalecem valores tradicionais ligados à religião, à família e rejeição ao diferente.

Da mesma maneira, valores tradicionais e conservadores se opõem aos seculares, derivados da razão e da experiência humana. O contrário desses comportamentos surge com o atendimento das necessidades humanas de sobrevivência quando prevalece a generosidade, mais confiança e abertura ao outro com predomínio de valores chamados de autoexpressão.

Pobres e ricos, inseguros e seguros diante da realidade crua da vida, brasileiros são, na média, conservadores com vários pontos em comum. Noventa e seis por cento acreditam que Deus está no comando de suas vidas. Para 96% também, família é a coisa mais importante da vida.

O Brasil é um País racista, resposta afirmativa, indo de 69% a 86% entre homens e mulheres brancos, pardos, pretos e de outras cores. Oitenta e cinco por cento têm orgulho do País, mas só 11% sentem-se muito satisfeitos com a vida atualmente. Você só pode contar com você mesmo para conseguir o que deseja? Positivo, indo de 70% a 81% entre todas as faixas de renda.

 

Neste dezembro, e prestes a entrarmos em ano eleitoral, com a ajuda do livro do professor Felipe Nunes, vale a pena considerar nossa enorme capacidade de ter fé. Não para entregar a Deus as soluções que nós, homens e mulheres, temos a condição e a obrigação de buscar. Para isso não é demais insistir no verbo esperançar que se conjuga entre pessoas que acolhem o outro como parte da solução e não como um inimigo a ser combatido.

 

E vamos ser honestos. Sabemos muito pouco sobre nosso País, precisamos saber mais para fazermos um melhor debate público. Nossa ignorância da realidade brasileira está nos causando muitos prejuízos sociais, políticos e até econômicos.

O trabalho de construção de um país seguro e inclusivo aguarda a disposição de todos os brasileiros insistindo na confiança entre iguais. E para esse País que ama a música brasileira, como mostra o Brasil no “Espelho”, vale seguir o conselho do saudoso Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”.

Viva o conhecimento!  Feliz Natal, Feliz 2026.

 

(*) Publicitário, gerente de Marketing Comunicação e eventos da Fecomércio MG