Entrevista: A arte é para todos

Entrevista: A arte é para todos

Gestora cultural há 15 anos é criadora da Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena que terá a 13ª edição em maio de 2026

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Aline Garcia: “O Circula em Cena amplia impacto ao atuar diretamente em cidades do interior que, muitas vezes, não têm acesso a equipamentos culturais”
(Foto: Helena Leão)

 

Aline Garcia, 46 anos, é empresária e gestora cultural. Atua no setor cultural há mais de 15 anos e é diretora da Olhar Cultural e criadora da Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena. Especialista em gestão de empreendimentos culturais, desenvolve projetos voltados para a democratização do acesso à arte, a formação de públicos e o fortalecimento da economia criativa no interior de Minas Gerais. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA a gestora cultural o cenário cultural em Minas e conta sobre o Tiradentes em Cena.

 

Aline, como surgiu a ideia de criar esse projeto? Desde quando ele surgiu e qual o objetivo?

O Circula em Cena nasceu há dois anos como um desdobramento natural do Tiradentes em Cena, que realizo desde 2013 em Tiradentes. A ideia surgiu da necessidade de levar para outras cidades aquilo que já vínhamos fazendo com a Mostra: formação, circulação artística, mediação cultural e criação de novos públicos. Nosso objetivo é descentralizar o acesso à cultura, fortalecer as redes locais e garantir que mulheres, jovens e trabalhadores da cultura tenham acesso a oportunidades de capacitação, criação e valorização.

Como você vê o cenário cultural em Minas e no Brasil?

O cenário cultural em Minas e no Brasil é muito diverso e pulsante, mas ainda desigual. Dados da pesquisa Hábitos Culturais dos Brasileiros mostram que cerca de 60% dos municípios brasileiros não possuem teatros ou casas de espetáculo, e em mais de 70% das cidades do interior não há cinemas em funcionamento. Além disso, bibliotecas, museus e centros culturais estão concentrados nos grandes centros. Isso cria um abismo no acesso à arte para milhões de brasileiros. Por outro lado, vejo uma geração de artistas e produtores muito criativos, que resistem e inovam, mesmo diante das dificuldades.

O Tiradentes em Cena surgiu quando? Como você o vê?

A ideia nasceu em 2013, quando percebi que Tiradentes, apesar de ser um polo turístico e cultural de grande relevância, não contava com um espaço dedicado às artes cênicas. Criei o Tiradentes em Cena com o propósito de democratizar o acesso à arte, aproximar artistas do público e fortalecer a cena local, oferecendo também oportunidades de formação. Desde o início, o objetivo foi ir além de uma mostra de espetáculos: criar um espaço de encontros, circulação e diálogo entre diferentes linguagens e territórios. Ao longo dos anos, a Mostra se consolidou como referência em Minas Gerais e hoje é reconhecida como um catalisador de redes culturais e sociais, que gera formação, pertencimento e novas conexões. Além da programação artística, realizamos a Rodada de Negócios “Vendendo o Peixe”, que aproxima artistas de programadores culturais de várias partes do Brasil, ampliando as possibilidades de circulação das produções. Esse movimento tem sido fundamental para projetar o trabalho dos artistas locais e inserir Tiradentes em um circuito nacional das artes cênicas. 

Existe hoje apoio para a formação cultural no país?

Existe apoio à formação cultural no país, mas ele continua muito limitado frente à demanda e à desigualdade de acesso. Um exemplo importante é a Lei Paulo Gustavo (Lei Complementar nº 195/2022), que representou o maior investimento direto já feito no setor cultural brasileiro, com cerca de R$ 3,8 bilhões destinados a estados, municípios e ao Distrito Federal. Embora tenha surgido como medida emergencial no pós-pandemia, a lei trouxe a vantagem de contemplar profissionais da cultura por meio de editais, prêmios e aquisição de bens e serviços.

O Tiradentes em Cena já tem data para o ano que vem?

Sim. Em 2025 o festival acontece de 13 a 17 de maio, em Tiradentes. Teremos uma programação diversa, plural e gratuita, que reúne espetáculos, oficinas, debates e ações formativas, fortalecendo a inclusão e o diálogo cultural. Durante esses dias, a cidade se transforma em um verdadeiro palco a céu aberto, com pontos de encontro espalhados pelo território e múltiplas atividades que aproximam artistas, público e comunidade.

Como isso fomenta a cena das artes cênicas no Brasil?

Ao abrir espaço para grupos independentes e produções de várias regiões do país, o festival promove circulação e visibilidade. Também traz programadores culturais, jornalistas e curadores para Tiradentes, o que amplia a chance de os artistas circularem em outros estados e até fora do Brasil. Já o Circula em Cena amplia esse impacto ao atuar diretamente em cidades do interior que, muitas vezes, não têm acesso a equipamentos culturais. Juntos, os projetos fortalecem a cena local e nacional.

Quais impactos o projeto traz para o turismo na cidade?

O impacto é enorme. Durante os dias do festival, a cidade recebe artistas, técnicos, produtores e visitantes de várias regiões, movimentando pousadas, restaurantes, bares, comércios e serviços. Além do impacto econômico direto, o Tiradentes em Cena projeta a cidade como um polo cultural, diversificando sua vocação turística, que vai além da gastronomia e do patrimônio histórico, e atraindo um público interessado em experiências culturais.