- Entrevista
- outubro 12, 2025
- 8 minutos
Entrevista: Direito, tecnologia e capital
Advogada mineira Priscila de Oliveira Spadinger fala sobre os desafios de criar uma holding pioneira em venture building para startups jurídicas

Advogada, empreendedora e investidora, Priscila de Oliveira Spadinger transformou mais de duas décadas de experiência em multinacionais na criação de um ecossistema inédito no setor jurídico. À frente da Aleve LegalTech Ventures S/A, primeira venture builder especializada em startups jurídicas no Brasil, ela lidera um portfólio que já ultrapassa R$ 200 milhões em valuation.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Priscila fala sobre os desafios de inovar em um setor tradicional, as tecnologias que estão remodelando o Direito, o potencial mineiro para startups e a importância da diversidade como motor de inovação.
Como surgiu a ideia de criar a Aleve LegalTech Ventures?
A ideia nasceu da minha vivência como advogada, empreendedora e investidora. Trabalhando fortemente há mais de 20 anos como sócia de grandes bancas e gestora jurídica em algumas empresas multinacionais, percebi que o setor jurídico precisava de muito mais do que tecnologias isoladas. Era necessário um modelo que unisse a vivência nas dores da área jurídica que eu e todo o nosso ecossistema tínhamos, trazendo ideias de empreendedores da área do direito, que não sabiam como construir startups legaltechs e entregando a todos eles modelagem de negócios, produtização, compliance, governança, fundraising, acesso a mercado, inovação e muito mais, tudo em um só local: a nossa holding de participações em startups LegalTechs, Aleve LegalTech Ventures S/A. A Aleve nasceu como uma Venture Builder especializada em LegalTechs, justamente para criar esse ambiente completo e global.
Qual foi o maior desafio para construir a Aleve até o estágio atual?
Transformar a visão em estrutura concreta. Construir uma holding de participações em startups legaltechs no modelo venture builder de nicho, em um setor ainda tão conservador quanto tradicional, exigiu resiliência, articulação com players nacionais e internacionais e, principalmente, educar o mercado sobre o potencial de inovação no direito. Já passamos de 100 investidores diretos em nossa holding e, para atingir este número, tive que me reunir com mais de 1000 investidores, em um trabalho incansável de levar conhecimento sobre a importância da nossa tese na área de inovação e tecnologia para a área do direito. Também trazer as melhores startups legaltechs, com metodologia e envolvimento de todos, foi um grande gol que tivemos em nosso negócio, que já existe há 4 anos e meio e hoje conta com um portfólio que já atinge um valuation total de mais de R$200 milhões.
O que diferencia o modelo de venture building da Aleve de outras iniciativas no mercado?
Nós não somos apenas investidores que entregam dinheiro e aguardam resultados. Atuamos construindo lado a lado com os founders das startups que entram em nosso portfólio, entregando squads dos mais diversos temas, que entregam metodologia própria para desenvolver produtos, negócios, mapear dores jurídicas, estruturar toda a governança e o compliance das startups, abrindo portas comerciais, entregando estratégias de marketing, autoridade e reputação, bem como conectando com capital. Nosso diferencial é ser o elo entre a inovação, a tecnologia, o Direito e o capital investidor, visando negócios globais envolvidos.
Quais tecnologias estão transformando o setor jurídico neste momento?
Inteligência Artificial (IA) generativa para geração de peças jurídicas, análise e gestão de contratos volumosos; blockchain aplicada a registros de propriedade intelectual e contratos; automação de fluxos jurídicos; automatização das áreas de LegalOps, ESG, compliance e analytics para tomada de decisão. Essas tecnologias estão remodelando desde a advocacia até a gestão de tribunais e cartórios.
Como você vê o futuro das LegalTechs no Brasil?
Acredito em uma expansão acelerada. O mercado jurídico brasileiro é um dos maiores do mundo e, ao mesmo tempo, ainda pouco digitalizado. Isso abre espaço para soluções inovadoras em gestão de escritórios, compliance, acesso à Justiça e serviços notariais digitais. Nosso grande diferencial no Brasil, neste momento, é certamente termos dados públicos disponíveis em nossos tribunais, o que é um prato cheio para o desenvolvimento de IA, em detrimento de outros países pelo mundo, que dependem de autorizações diversas para que os sistemas consigam dados e desenvolvam suas IA.
O que torna o Brasil um mercado atrativo para investidores nacionais e estrangeiros em tecnologia jurídica?
O tamanho do mercado, a complexidade regulatória e a velocidade de digitalização criam um ambiente único. O Brasil funciona como um “laboratório” para soluções que depois podem ser exportadas para outros países. Reitero a resposta da pergunta anterior: nosso grande diferencial no Brasil, neste momento, é certamente termos dados públicos disponíveis em nossos tribunais, o que é um prato cheio para o desenvolvimento de IA, em detrimento de outros país pelo mundo, que dependem de autorizações diversas para que os sistemas consigam dados e desenvolvam suas IA.
Quais os principais desafios que o setor jurídico ainda enfrenta para adotar inovação?
A cultura conservadora, a resistência à mudança e a falta de entendimento de que tecnologia não substitui, mas potencializa a atuação jurídica, ainda dificulta a utilização de tecnologia pelos profissionais do Direito, mas isso tem sido revertido, pelo apoio e engajamento das próprias OABs em todo o País, bem como interesse de grandes escritórios, departamentos jurídicos e relacionados. Além disso, ainda há barreiras regulatórias e de investimento, que estão sendo trabalhadas, para mais desenvolvimento do nosso setor de atuação.
Como promover mais diversidade de gênero na liderança de legaltechs?
É preciso dar visibilidade a mulheres empreendedoras, criar redes de apoio e incentivar investimentos que tenham a diversidade como critério. Na Aleve, acreditamos que diversidade é inovação, as lideranças plurais trazem soluções mais criativas e inclusivas para o mercado. Sendo eu a atual CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A e também a acionista majoritário, reconheço meu lugar de privilégio na minha caminhada e priorizo contratação de profissionais mulheres em nossa holding, bem como founders de startups que também sejam mulheres. Tudo isso tem que ser feito de maneira intencional, para que realmente funcione.