- Entrevista
- novembro 1, 2025
- 5 minutos
Entrevista: O novo papel do jurídico nas empresas
Como a tecnologia, a regulação e a cultura corporativa estão redefinindo o papel do jurídico dentro das organizações

(Foto: Arquivo Pessoal)
Se antes o departamento jurídico era acionado só quando o problema já havia explodido, hoje ele é chamado para a primeira reunião de estratégia. Em 2025, o mundo corporativo vive um paradoxo: nunca se falou tanto em inovação, e nunca o risco esteve tão presente. De acordo com o World Economic Forum, quatro dos cinco maiores riscos para as empresas neste ano envolvem tecnologia: ataques cibernéticos, manipulação de informações, falhas em sistemas de IA e privacidade de dados.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Rômulo Soares, advogado e referência em governança, compliance, gestão de riscos e inteligência artificial aplicada aos negócios, aborda sobre as mudanças atuais no universo jurídico.
Rômulo, o que mais mudou na função do jurídico nas empresas nos últimos anos?
Mudou tudo. O jurídico deixou de ser reativo para se tornar estratégico. Antes, atuava como uma área de contenção. Hoje, precisa estar no planejamento. O papel não é apenas proteger, mas ajudar a decidir. As empresas que entenderam isso ganharam velocidade, reduziram riscos e criaram modelos de negócio mais sólidos.
Quais são os riscos que mais preocupam os empresários em 2025?
Os digitais lideram. Segundo o Allianz Risk Barometer, 41% das empresas brasileiras consideram os ciberataques seu principal risco. Logo atrás vem o uso indevido de dados e de inteligência artificial. É o reflexo direto da transformação tecnológica. Quem não tiver governança sobre seus algoritmos está abrindo portas para multas, perda de reputação e até bloqueio de operações.
E as empresas estão preparadas para isso?
Algumas estão avançadas, mas a maioria ainda reage tarde. A Deloitte mostrou que menos de 40% das companhias no Brasil têm maturidade alta em gestão de riscos. A maioria atua de forma reativa. O desafio é cultural. Ainda existe a ideia de que jurídico e inovação são forças opostas, quando na verdade deveriam caminhar juntas.
Como essa desconexão aparece no cotidiano corporativo?
É quando o time de tecnologia lança uma ferramenta de IA sem consultar o jurídico e depois descobre que o modelo usava dados pessoais sem base legal. Ou quando uma empresa de e-commerce aplica algoritmos de precificação dinâmica e acaba discriminando consumidores por região. Esses erros não são apenas técnicos, são estratégicos. E poderiam ser evitados se o jurídico estivesse na mesa desde o início.
Então o jurídico precisa aprender tecnologia?
Precisa compreender o suficiente para dialogar com quem programa. O profissional jurídico de hoje deve falar a língua dos dados, da segurança da informação e da reputação. Também precisa traduzir risco em impacto financeiro. Um erro de governança pode custar milhões e corroer a confiança de investidores. Isso é o que está em jogo.
E o que o CEO pode fazer para integrar melhor essas áreas?
Trazer o jurídico para o início das conversas, não apenas para revisar contratos. Quando a empresa cria comitês multidisciplinares de risco, unindo jurídico, tecnologia, compliance e operação, os resultados são mais sustentáveis. Isso não engessa a inovação, pelo contrário, dá liberdade para inovar com segurança.
Há exemplos concretos desse modelo em prática?
Sim. Grandes grupos que implementaram IA em atendimento e marketing, mas com acompanhamento jurídico desde o início, tiveram aumento de até 20% nas receitas e redução de 30% nos custos de suporte, segundo levantamentos recentes. Isso mostra que inovação e governança não se excluem. Uma sustenta a outra.
Se você pudesse deixar uma única mensagem para os empresários, qual seria?
Enxergue o jurídico como radar, não como freio. Ele é o ponto de convergência entre estratégia, ética e sustentabilidade. Quem entender isso primeiro vai liderar com menos ruído e muito mais resiliência.