Cirurgiã-dentista mineira integra missão de saúde bucal infantil na África
Equipe de voluntários atende a mais de 1 mil crianças na província do Bengo, em Angola

Uma criança pode apresentar dentes saudáveis e, ainda assim, enfrentar necessidades que vão muito além da saúde bucal. Essa percepção marcou a experiência da cirurgiã-dentista mineira, Ana Cláudia Silva, durante uma missão humanitária em Angola. Natural de Uberaba, a coordenadora da Odontologia Digital da Policlínica da Uniube, integrou uma equipe de voluntários que atuou na província do Bengo, em outubro, e retornou ao Brasil com novas reflexões sobre o cuidado infantil.
Selecionada entre cerca de 10 mil inscritos para participar da iniciativa promovida pela organização Zuzu for África, Ana integrou a equipe responsável pela triagem de aproximadamente 1.200 crianças de uma escola vinculada à instituição. A missão reuniu voluntários das áreas de Medicina, Enfermagem e Odontologia. Antes dos atendimentos, a equipe dedicou os primeiros dias à distribuição de alimentos e ao contato com a comunidade.
“Uma das coisas que mais me marcou foi a quantidade de crianças que nos pediam água. Muitas vezes, precisei engolir o choro e continuar o meu caminho, mesmo com o coração partido. Eu também costumava levar bolachinhas na minha pochete e, quando conseguia, entregava algumas. Mas era muito doloroso saber que tantas outras crianças continuariam sem receber. Essas situações me fizeram perceber que a missão me colocaria diante de questões que ultrapassavam a nossa profissão e a nossa capacidade individual de ajudar”, relembra Ana Cláudia.
Durante a missão, a equipe odontológica realizou triagens, aplicação tópica de flúor, escovação supervisionada e orientações de saúde bucal. Os procedimentos clínicos ficaram sob a responsabilidade de médicos-dentistas angolanos, conforme as exigências legais do país. Além disso, um aplicativo integrado ao sistema da escola permitiu registrar as condições de saúde das crianças e organizar futuros acompanhamentos.
Entre as experiências que mais marcaram a dentista está o atendimento a uma criança que apresentava sinais de fragilidade física e pouca interação. Ao examinar sua boca, Ana encontrou uma dentição saudável, sem cáries ou placa bacteriana.
“Naquele momento, percebi que aquela criança estava faminta. Aquilo me fez refletir: uma criança não é apenas a saúde bucal dela. Precisamos olhar para o contexto em que ela vive, porque, por trás de dentes aparentemente perfeitos, podem existir necessidades muito maiores”, relata.
Outros episódios também revelaram as condições enfrentadas pelas crianças. Em uma das ocasiões, uma das crianças pediu para ser filmada e se surpreendeu ao ver o próprio rosto na tela do celular. Ao perceber que muitas não tinham familiaridade com a própria imagem refletida, a equipe providenciou um espelho.
Em outro atendimento, ao perguntar se uma criança tinha escova de dentes em casa, Ana descobriu que ela utilizava o próprio dedo e sabão de lavar roupas para fazer a higiene bucal. A situação reforçou a necessidade de adaptar as orientações profissionais às condições reais de cada paciente.
“Não adianta falarmos sobre escovação e higiene bucal sem considerar se aquela criança tem uma escova em casa, acesso à água ou até mesmo alimento. Precisamos entender a realidade de cada uma para oferecer um cuidado que faça sentido para ela”.
Trajetória da cirurgiã-dentista marcada pelo compromisso social
Formada em Odontologia pela Uniube em 2024, Ana é mestranda em Clínica Odontológica Integrada e coordenadora da Odontologia Digital da Policlínica da Universidade. Seu envolvimento com projetos sociais também está relacionado às dificuldades de acesso à saúde que vivenciou durante a infância em uma comunidade rural.
Em Uberaba, participa do projeto “Sorriso Além do Olhar”, que reúne cerca de 70 cirurgiões-dentistas voluntários em atendimentos a crianças do Instituto dos Cegos. Ela também desenvolve o projeto “Sorriso que Volta para Casa”, voltado às crianças da comunidade rural onde viveu até os 17 anos, no município de Sacramento.
Após retornar de Angola, a dentista pretende compartilhar os aprendizados com os acadêmicos da Uniube e incentivar a participação em ações voluntárias. Segundo ela, a experiência também despertou o interesse de estudantes pela possibilidade de integrar futuras missões humanitárias.
“Recebi mensagens de vários alunos que acompanharam minha viagem, alguns disseram que também sonham em participar de uma missão humanitária. Fiquei muito feliz em perceber que minha experiência despertou em outras pessoas essa vontade de ajudar, acolher e compreender as necessidades do próximo. Acredito que essa vivência não terminou quando voltei para o Brasil. Ela continua em mim, nas escolhas que faço, nos projetos em que me envolvo e na vontade de ajudar. Quero levar a Odontologia a lugares onde ela é necessária, mas, acima de tudo, quero promover ações de humanidade, cuidado e amor às pessoas”, conclui a especialista.