Vacina da UFMG entra em fase de testes humanos e mira tipo de malária sem proteção disponível

Vacina da UFMG entra em fase de testes humanos e mira tipo de malária sem proteção disponível

Autorização da Anvisa marca novo avanço da pesquisa mineira no desenvolvimento de imunizante inédito contra o Plasmodium vivax

Pesquisador segura imunizante durante etapa de desenvolvimento de vacina; estudo da UFMG avança para testes humanos contra tipo de malária sem proteção disponível
Início da fase 1 de testes clínicos da Vivaxin, vacina desenvolvida pela UFMG contra o Plasmodium vivax (Foto: CTVacinas / Divulgação)

 

Da Redação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, nesta quarta-feira (7), o início dos testes em humanos da Vivaxin, vacina contra a malária desenvolvida pelo Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A candidata vacinal é voltada ao combate do Plasmodium vivax, espécie do parasita para a qual ainda não existe vacina aprovada para uso na população no mundo.

O imunizante brasileiro desenvolvido com apoio da Universidade de São Paulo (USP), do laboratório Cristália e de outras instituições parceiras, entra na fase 1 dos estudos clínicos. A autorização abre caminho para avaliar a segurança da vacina e sua capacidade de estimular resposta imunológica em voluntários. 

A relevância do projeto ultrapassa as fronteiras brasileiras. O P. vivax é responsável por grande parte dos casos de malária registrados fora da África Subsaariana e tem ampla circulação nas Américas e na Ásia. Atualmente, as duas vacinas contra a doença recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M, foram desenvolvidas para outra espécie do parasita, o Plasmodium falciparum.

Para o coordenador do CTVacinas, Ricardo Gazzinelli, uma vacina contra a malária vivax pode gerar impactos que vão além da saúde pública.

 

“Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, afirma. 

 

Primeira etapa em humanos

O estudo de fase 1 tem como objetivo avaliar a segurança da Vivaxin, as possíveis reações à aplicação e sua capacidade de estimular uma resposta imunológica. Os resultados servirão de base para as próximas etapas do desenvolvimento, necessárias para verificar a eficácia da vacina contra a doença. 

O protocolo aprovado prevê a participação de 48 voluntários saudáveis, com idade entre 18 e 59 anos e sem histórico de infecção por malária. O teste contará com três dosagens da candidata vacinal, com grupos que receberão a Vivaxin ou placebo. O esquema prevê três aplicações, com intervalo de 28 dias entre elas. 

 

Uma lacuna mundial 

Dados do Relatório Mundial da Malária 2025 da OMS, apontam cerca de 9,9 milhões de casos de malária causados pelo P. vivax em 2024. Nas Américas, a espécie respondeu por 63% dos casos estimados da doença no mesmo período, reforçando a importância de uma vacina específica para esse parasita.

A transmissão ocorre principalmente por meio da picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles. Febre, calafrios e dores de cabeça estão entre os sintomas mais comuns. 

O P. vivax também apresenta uma característica que dificulta seu controle. Algumas formas do parasita podem permanecer dormentes no fígado e voltar a provocar novos episódios de malária mesmo sem uma nova infecção. Por isso, o tratamento precisa combater tanto os parasitas presentes no sangue quanto essas formas latentes para evitar recaídas. 

Embora o P. falciparum esteja associado à maior parte dos casos graves da doença, a malária vivax também pode causar complicações e levar à morte. Entre os riscos apontados pelo Ministério da Saúde estão anemia grave, problemas respiratórios e ruptura do baço. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado são fundamentais para reduzir a gravidade dos casos. 

 

Vídeo – veja mais sobre o CTAVacinas:

 

Caminho para a eliminação da doença 

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 118.037 casos de malária contraídos no território nacional em 2025. Mais de 99% dos casos autóctones estão concentrados na região amazônica, onde o combate à doença enfrenta desafios relacionados ao acesso ao diagnóstico, ao tratamento e às ações de prevenção.

O País mantém um Plano Nacional de Eliminação da Malária, com a meta de interromper a transmissão local da doença até 2035. Caso tenha sua segurança e eficácia comprovadas ao longo dos estudos clínicos, a Vivaxin poderá se tornar uma nova ferramenta para complementar as estratégias de controle do mosquito transmissor, diagnóstico e tratamento.

 

“Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, avalia Gazzinelli. 

 

O pesquisador destaca ainda que uma futura vacina contra o P. vivax poderá beneficiar países asiáticos que também convivem com a doença.

 

Reconhecimento internacional 

Antes da autorização para os testes em humanos, a Vivaxin já vinha recebendo reconhecimento da comunidade científica internacional. Em fevereiro de 2025, a pesquisadora Ana Clara conquistou o prêmio de melhor apresentação oral na Gordon Research Conference sobre Doenças Tropicais Infecciosas, realizada na Toscana, na Itália, ao apresentar os resultados relacionados à candidata vacinal.

 

“Como cientista, essa conquista representa não apenas um marco na minha trajetória, mas também um incentivo para continuar me dedicando à busca por avanços que possam salvar vidas e transformar a saúde global”, afirmou.