Caminhada propõe testar limites do corpo e conhecer particularidades do sertão baiano

Caminhada propõe testar limites do corpo e conhecer particularidades do sertão baiano

Grupo Veredas da Resistência promove todos os meses de julho este verdadeiro passeio pela história e geografia da região retratadas na obra Sertões, de Euclides da Cunha, sobre a Guerra de Canudos

caminhada passa pela história da Guerra de Canudos
No trajeto, os caminhantes passam por lugares emblemáticos como o Alto da Favela, o Vale da Morte e a Lagoa de Sangue, todos eles cenários da Guerra contra Canudos (Foto: Veredas da Resistência/Divulgação)

 

Érika Rohlfs (*)

História, turismo, saúde e resistência. Aspectos que são a essência do grupo Veredas da Resistência, caminhantes que se reúnem todos os meses de julho no interior da Bahia, para refazerem os 65 quilômetros do percurso historicamente conhecido como “madeira da discórdia” retratados na obra de Os Sertões, de Euclides da Cunha – e em diversas outras publicações – durante a Guerra de Canudos há 120 anos. Neste ano, a caminhada começa neste dia 11 de julho e durante três dias, os participantes – muitos deles vindos de Minas Gerais – saem de Canudos Velho e chegam ao município de Uauá. Na noite que antecede o início da caminhada, portanto, nesta quinta-feira, 10 de julho, o grupo é recebido por uma banda de pífanos e pelo acolhimento dos moradores locais

No trajeto, os caminhantes passam por lugares emblemáticos como o Alto da Favela, o Vale da Morte e a Lagoa de Sangue, todos eles cenários da Guerra contra Canudos. Passam também pelas comunidades de Mandaipó, Barra da Fortuna e Algodões.  É nessas comunidades que o grupo acampa, tendo a alimentação garantida pelas mulheres da região, que utilizam produtos oriundos da agricultura familiar em pratos típicos da culinária do lugar.

O motivo para que o Veredas aconteça no mês de julho tem a ver com o clima, que nessa época do ano é um pouco menos quente que nas demais. Mas, sim, o inverno na caatinga é quente. E é seco, com noites de céu estrelado que se transformam em palco para uma programação pedagógica e cultural, que inclui cantoria, festejos e conversas sérias.

No percurso, sempre feito durante o dia, é possível encontrar bodes, cabras, preás, mocós e outros animais típicos daquele habitat. A mata branca, com é chamada a vegetação do semiárido quando adquire um aspecto esbranquiçado com o fim das chuvas, é composta por juazeiros, acácias, umbuzeiros, além do xique-xique, do mandacaru e da coroa de frade. É se embrenhando por essa paisagem que o Veredas da Resistência atravessa um território marcado por grandes contradições de batalhas e resistência que se mantém até os dias atuais.

Nesse contexto, o caminhante também tem a oportunidade de despertar para a importância da preservação da fauna e da flora caatingueira na reprodução da vida das comunidades sertanejas.

Moradora de Uauá e uma das organizadoras do Veredas, Mayara Andrade, aponta a caminhada como “uma oportunidade de adentrar os aspectos socioambientais, territoriais e culturais que permeiam a caatinga do Semiárido baiano”.

A Canudos de hoje é a terceira da história. A primeira, criada no século 18, foi destruída pelo Exército em 1897. A segunda surgiu por volta de 1910, construída sobre as ruínas da anterior e os primeiros habitantes eram sobreviventes do conflito. Em 1950, com o início das obras da barragem que inundaria o local, os moradores começaram a sair, ao formar um novo vilarejo a uma distância de cerca de 20 quilômetros. A segunda Canudos desapareceu sob as águas do açude de Cocorobó, em 1969. O vilarejo tornou-se, em 1985, a terceira Canudos.

 

 

Guias experientes acompanham os caminhantes

A caminhada do Veredas da Resistência é feita desde 2019 e a partir de 2023, é aberta ao público. Os interessados pagam de diferentes formas pela expedição, já que há uma modalidade de financiamento para contemplar quem não tem recursos, porém não carece em desejo de participar. Apesar do apoio das prefeituras de Canudos e de Uáuá e também da Coopercuc, a expedição ainda não conta com patrocínio da iniciativa privada.

Além de água e alimentação, acampamentos organizados, guias experientes e primeiros socorros, o caminhante pode desfrutar de uma rica programação cultural que conta com artistas locais e pesquisadores, que narram sobre o contexto da caatinga, a Guerra contra Canudos e outras particularidades locais.

Não é raro, durante os deslocamentos, um ritmado pandeiro iniciar uma cantoria que costuma contar um pouco da história de quem ali vive. Este ano, a reunião do grupo irá acontecer sob a lua cheia, no Parque Estadual de Canudos, onde o Memorial Antônio Conselheiro garante o não apagamento de um dos momentos mais sombrios vividos no Brasil. Pela manhã, os caminhantes fazem um reconhecimento do parque e, logo depois, partem rumo à Uauá.

No encerramento, já em Uauá, a emoção é grande: depois de três dias em contato com a história, com a dor de uma guerra abominável e também com belezas naturais únicas, o corpo leva junto uma mistura de sensações que se relacionam à resistência – presente também no espinhento bioma da caatinga – e à energia de um povo que, em seus festejos e shows de música, permanece com uma alegria contagiante. Não é uma caminhada para quem quer apenas testar os limites do corpo. É para quem quer sentir e viver algo além, que decifra um pouco as entranhas desse enorme País.

Saiba mais sobre a caminhada

  • O aeroporto de Salvador fica a 405 quilômetros e o de Petrolina a 191 quilômetros de Canudos, para onde se vai de ônibus ou carro.
  • Para saber mais: @veredasdaresistencia
  • Contatos: [email protected]

 

(*) Especial para o CIDADE CONECTA