- Entrevista
- junho 14, 2026
- 6 minutos
Da internet discada à escala nacional
Empresária conta como ajudou a transformar uma operação criada em Itabira em uma das maiores provedoras de internet de Minas Gerais

Em 1998, quando a internet ainda era discada e chegava a poucas casas no Brasil, Michele Reis começava uma trajetória que ajudaria a transformar o acesso à tecnologia no interior de Minas Gerais. Aos 22 anos, instalava placas em computadores de clientes, panfletava pela cidade, fazia cobranças à noite e nos fins de semana e dormia com um caderno ao lado da cama para anotar ideias de madrugada.
Ao lado do marido, Emerson Reis, deu início, em Itabira, à Valenet, empresa que nasceria no interior mineiro e ganharia escala nacional no setor de telecomunicações. Hoje, a companhia atende mais de 216 mil clientes, está presente em mais de 160 localidades, investe acima de R$ 100 milhões por ano e projeta faturamento de R$ 450 milhões em 2026. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, a empresária conta sua trajetória bem-sucedida.
Você começou a empreender em um momento em que a internet ainda era pouco conhecida no Brasil. Como foram os primeiros anos da Valenet?
Foi um começo em que quase tudo precisava ser feito ao mesmo tempo: a infraestrutura, a compreensão dos clientes sobre a internet e a confiança. Muita gente ainda não sabia o que aquela tecnologia poderia representar. Então, além de instalar e atender, era preciso explicar, mostrar utilidade e criar vínculo com cada cliente. O negócio nasceu desse esforço concreto. Eu e o Emerson éramos um casal disposto a empreender, fazer dar certo e buscar uma condição melhor para nós e para nossas famílias. Cada instalação ajudava a consolidar confiança. Empreender no Brasil exige uma musculatura emocional muito forte e, no nosso caso, estávamos criando um mercado praticamente do zero.
Muitas empresas de tecnologia ganham escala apoiadas por grandes rodadas de investimento. Como foi esse processo na Valenet?
A nossa história foi diferente. Não tivemos investidores externos. A expansão dependia dos próprios recursos, então tudo precisava ser muito bem calculado. Cada avanço exigia equipe, caixa e muitas horas de dedicação. Isso exigiu disciplina, responsabilidade e uma rotina pesada. Eu me dividia entre a Valenet, a faculdade, a maternidade e a vida pessoal. Não é leve. É cansativo, exige muito emocionalmente e, muitas vezes, parece que não há espaço para descanso. Mas esse processo também nos deu consciência sobre o valor de cada etapa desse avanço.
A Valenet saiu de Itabira, chegou à capital, ampliou presença em Minas e hoje atende mais de 216 mil clientes. Como crescer sem perder a proximidade da origem?
Esse talvez seja um dos maiores desafios de qualquer empresa em expansão. Quando uma operação ganha escala, existe o risco de o contato ficar mais distante e automatizado. Na Valenet, buscamos fazer o caminho inverso: usar a tecnologia para ganhar eficiência, sem perder o cuidado e a capacidade de entender as necessidades reais de cada cliente. A presença regional, as equipes locais, os canais de relacionamento e a escuta dos clientes ajudam a preservar essa conexão. A Valenet nasceu no interior de Minas, e essa origem moldou nossa forma de atuar. A mineiridade não é apenas atributo de marca. Aparece na hospitalidade, na palavra empenhada, no cuidado com os detalhes e na responsabilidade com cada cliente.
Além do esforço de empreender, você também construiu sua trajetória em um setor historicamente masculino. Como isso atravessou sua caminhada e influenciou sua forma de liderar?
Eu vivi e vivo ambientes muito masculinos e, em alguns momentos, até machistas. Nem sempre existia espaço para a minha voz. Isso trouxe dores, muitas vezes silenciosas, mas também me fez desenvolver força, consciência e posicionamento. Com o tempo, entendi que não bastava estar presente. Era preciso afirmar meu lugar no centro das decisões, participar das decisões estratégicas e mostrar, pelo trabalho, que eu também tinha papel fundamental naquela trajetória. Essa experiência influenciou muito minha forma de liderar. Metas, processos e resultados são importantes, mas não sustentam uma empresa sozinhos. Também é preciso cuidar das pessoas, da cultura e do ambiente. Na Valenet, diversidade, inclusão e saúde mental não aparecem como acessórios, mas como parte da gestão diária. Quero seguir fortalecendo um espaço de trabalho com bem-estar, colaboração, respeito e qualidade de vida para as pessoas que fazem parte dessa jornada.
Essa forma de liderar, mais próxima das pessoas e das regiões atendidas, também acompanha a expansão da Valenet. Como você enxerga o futuro da empresa?
A Valenet ainda tem muito a construir. Nasceu no interior de Minas, avançou mantendo vínculos próximos e segue em expansão com o compromisso de levar tecnologia a novas regiões sem perder suas raízes e sua essência humana. Para mim, a internet sempre foi mais do que infraestrutura. Em muitas regiões, ela encurta distâncias, conecta famílias, amplia o acesso à informação e abre caminhos que antes eram mais difíceis. Essa dimensão humana da conexão é parte importante da nossa história. Tenho orgulho do caminho feito até aqui, mas vejo essa trajetória como base para continuar avançando. Mais do que olhar para trás, a Valenet segue conectando famílias, cidades e oportunidades, com responsabilidade, proximidade e respeito pelos vínculos que sustentaram sua história desde o início.