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  • julho 22, 2026
  • 8 minutos

Impacto das telas no cérebro em desenvolvimento

Impacto das telas no cérebro em desenvolvimento

Especialista alerta para os efeitos do excesso de estímulos digitais sobre a aprendizagem, o comportamento e a saúde mental de crianças e adolescentes

Impacto das Telas no Cérebro em Desenvolvimento é pautado pela especialista em desenvolvimento infantil Letícia Cançado
Impacto das telas no desenvolvimento de crianças e adolescentes é tema de análise da especialista Letícia Cançado (Foto: Arquivo pessoal)

 

Letícia Cançado (*)

“É só mais um vídeo”: Em poucos segundos, a criança desliza a tela e encontra algo novo, engraçado, colorido ou surpreendente. Depois outro, e mais outro. O impacto acontece.

Nunca tivemos acesso a tanta informação, tantos estímulos e tantas recompensas em questão de segundos. Há poucas décadas, esperávamos dias por uma carta chegar. Hoje, uma mensagem cruza continentes em segundos. Antes era necessário procurar informações em livros, enciclopédias ou bibliotecas. Agora, basta um toque na tela.

O cérebro humano nunca precisou lidar com um volume tão grande de estímulos disponíveis de forma tão rápida e constante. Os vídeos curtos, presentes em plataformas como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts, foram criados para capturar e manter nossa atenção, e fazem isso muito bem.  Mas o que acontece com o cérebro de crianças e adolescentes quando ele se acostuma a esse fluxo constante de novidades?

A resposta passa por um neurotransmissor bastante conhecido: a dopamina. Ao contrário do que muitos imaginam, a dopamina não é o “hormônio da felicidade”. Ela está relacionada à motivação, à aprendizagem e à busca por recompensas.

Cada novo vídeo, curtida ou novidade inesperada, ativa esse sistema cerebral. O problema não está em assistir a um vídeo ocasionalmente, mas em passar horas recebendo estímulos rápidos, intensos e constantes.

Com o tempo, atividades que exigem mais esforço e paciência podem parecer menos interessantes. Ler um livro, brincar livremente, ouvir uma aula ou montar um quebra-cabeça passam a competir com um tipo de estímulo que oferece recompensa imediata a cada deslizar de tela.

 

A ciência sugere que o cérebro pode se acostumar a níveis elevados de estimulação, tornando mais difícil encontrar prazer e motivação em atividades que oferecem recompensas mais lentas.

 

Talvez seja por isso que muitos pais observem filhos que se entediam rapidamente, têm dificuldade para esperar ou abandonam tarefas com facilidade. Mas o impacto das telas vai além da atenção.

Diversos estudos têm encontrado associações entre o uso excessivo de telas e alterações no sono, maior irritabilidade, dificuldades de autorregulação emocional, sedentarismo e prejuízos no desempenho acadêmico.

Além disso, pesquisas apontam relações entre o uso excessivo de redes sociais e o aumento de sintomas de ansiedade, depressão, problemas relacionados à imagem corporal e sentimentos de isolamento, especialmente durante a adolescência.

Outro aspecto importante é aquilo que a criança deixa de vivenciar enquanto está diante da tela. O cérebro infantil não se desenvolve apenas observando o mundo. Ele precisa experimentá-lo.

As crianças precisam brincar, correr, explorar, criar, negociar regras, lidar com frustrações e construir relações. São essas experiências que favorecem o desenvolvimento das habilidades motoras, cognitivas, emocionais e sociais. E isso nos leva a uma das perguntas mais frequentes que recebo das famílias: Qual é a idade certa para dar um celular ao meu filho? A resposta não é simples.

Não existe um consenso científico que determine uma idade exata para o primeiro celular. No entanto, especialistas têm defendido que o acesso irrestrito aos smartphones e às redes sociais seja adiado o máximo possível.

OMS se preocupa com o impacto nas saúde das pessoas

As recomendações atuais sugerem cautela desde os primeiros anos de vida. A Organização Mundial da Saúde orienta que crianças menores de 2 anos não sejam expostas a telas, exceto para videochamadas.

Entre 2 e 5 anos, o uso recreativo deve ser limitado e supervisionado.

Já a Academia Americana de Pediatria destaca que a decisão não deve ser baseada apenas na idade, mas também na maturidade da criança, na supervisão familiar e no impacto que a tecnologia exerce sobre o sono, os estudos, as relações sociais e as atividades do cotidiano.

O psicólogo social Jonathan Haidt, autor do livro “A Geração Ansiosa”, defende que crianças não tenham smartphones antes dos 14 anos e que o acesso às redes sociais seja adiado até os 16. Embora essa proposta não represente um consenso científico, ela tem contribuído para um debate importante sobre a proteção da saúde mental durante uma fase de intenso desenvolvimento cerebral.

Talvez a pergunta mais importante não seja “Quando meu filho pode ganhar um celular?”, mas sim: Meu filho está preparado para lidar com tudo o que vem junto com esse celular?

Porque um smartphone não oferece apenas comunicação. Ele também oferece acesso a redes sociais, publicidade, conteúdos inadequados para a idade, comparação social constante e uma quantidade praticamente infinita de estímulos competindo pela atenção. Isso significa que devemos proibir as telas? Não necessariamente.

A tecnologia faz parte da vida moderna e pode trazer benefícios quando utilizada de forma consciente e equilibrada. Existem conteúdos educativos, oportunidades de aprendizagem e formas de conexão que podem enriquecer experiências.

O problema surge quando as telas começam a substituir aquilo que nenhuma tecnologia consegue reproduzir completamente: as experiências reais.

Ao final, talvez a questão mais importante não seja quantas horas a criança passa diante de uma tela, mas o que ela deixa de viver enquanto está nela. O desenvolvimento infantil acontece principalmente por meio do brincar, do movimento, das relações humanas e das experiências vividas.

Algumas estratégias simples podem ajudar: evitar telas durante as refeições, criar períodos livres de dispositivos ao longo do dia, manter celulares fora do quarto durante a noite e garantir que o tempo dedicado às telas não substitua o sono, o brincar, a atividade física e as interações familiares.

O cérebro infantil foi programado para explorar o mundo, não apenas para observá-lo através de uma tela.

Por mais avançada que seja a tecnologia, ainda não existe um aplicativo capaz de substituir o valor de uma brincadeira, de uma conversa, de uma amizade ou de uma infância vivida no mundo real.

A tecnologia continuará evoluindo. O desafio será garantir que nossas crianças também continuem desenvolvendo aquilo que as torna profundamente humanas.

 

(*) Terapeuta Ocupacional há mais de 20 anos, especializada em Reabilitação dos Membros Superiores e em Conceito Neuroevolutivo Bobath (infantil e adulto).