- Artigo
- agosto 27, 2026
- 5 minutos
Pensar IA: O mapa que faltava
A Inteligência Artificial está em todo lugar

Roque Almeida
Quando alguém diz que usa inteligência artificial (IA), costuma estar se referindo a um único aplicativo, aquele que responde perguntas. É mais ou menos como visitar uma cidade grande e conhecer só a praça central. A pessoa esteve lá, tirou fotos, tomou um café e volta para casa achando que conhece o lugar, sem fazer ideia de onde vem a água, de quem paga as contas, de para onde levam as ruas que ela não chegou a percorrer.
A inteligência artificial é uma cidade inteira, e quem frequenta só a praça acaba confundindo o centro com o todo. Passei o último SXSW tentando desenhar esse mapa, movido por uma inquietação. Quase toda conversa sobre o tema fica presa no mesmo quarteirão, o das ferramentas, enquanto as decisões que de fato pesam estão sendo tomadas em bairros que raramente recebem visita.
Nos fundos ficam os que sustentam tudo. Há o da infraestrutura e da computação, feito de energia, chips e centros de processamento do tamanho de fábricas. E há o do poder e do capital, onde poucos países e um punhado de empresas definem quanto essa tecnologia vai custar e a quem ela vai servir.
No miolo, dois bairros bem movimentados. Um é o da própria inteligência, onde os modelos nascem e são treinados. O outro é o das plataformas e dos algoritmos, por onde essa capacidade chega até nós sem que quase ninguém perceba a chegada.
Mais adiante estão os silenciosos, que talvez sejam os mais decisivos. No do comportamento humano, mudamos aos poucos a forma de trabalhar, de confiar e de decidir sem nos darmos conta. No da cultura e da comunidade, a novidade técnica vira hábito coletivo. E no da narrativa e da realidade, fica cada vez mais difícil distinguir o que é verdadeiro daquilo que apenas parece ser.
No fim da linha aparece o bairro que mais interessa a quem toca um negócio, o do trabalho e dos modelos econômicos. É ali que muita gente descobre, às vezes tarde demais, que quem a ultrapassou foi alguém de outro setor, que havia reorganizado a própria operação em torno dessa nova lógica enquanto ela seguia no piloto automático.
O que aprendi ao desenhar esse mapa é que os bairros conversam entre si o tempo todo. O último desemboca no primeiro, e a cidade nunca para de crescer. Quem enxerga apenas a praça central vive chegando atrasado, porque só reage ao que já se tornou visível para todo mundo, quando o essencial já foi resolvido em outra esquina.
Em outubro, vou atravessar o oceano novamente para caminhar por alguns desses bairros na China, onde a infraestrutura, o capital, as plataformas e os novos modelos de trabalho estão entre os mais visíveis do planeta. Até lá há um bom caminho de preparação pela frente, e é justamente esse percurso que pretendo dividir aqui. Nas próximas edições, vamos visitar um bairro de cada vez, com calma, para chegar à viagem já sabendo o que procurar. Fica o convite para me acompanhar nessa jornada.
Pensar IA começa por aí, por sair da praça e entender que a pergunta que importa é menos sobre qual ferramenta escolher e mais sobre em que parte dessa cidade o seu negócio está sendo decidido, com ou sem a sua presença.
Vamos juntos?
(*) Roque Almeida é empresário, consultor, professor, investidor e conselheiro em empresas de diferentes segmentos. É CEO do Grupo Matter&Co.