Entrevista: A revolução tecnológica está entre nós

Entrevista: A revolução tecnológica está entre nós

Digital e analógico se confundem: não faz sentido perguntar se estamos online ou offline

Entrevista Pedro Soares Ibmec BH Foto Arquivo Pessoal
Pedro Soares: “Digital e analógico se confundiram a tal ponto que já não faz sentido perguntar se estamos online ou offline, naquilo que o filósofo Luciano Floridi chama de infosfera” (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Pedro Soares

O mundo moderno está conectado. Não imaginamos mais sair de casa sem o celular, agora, o aparelho se tornou a nossa estação de trabalho. A Inteligência Artificial tem ampliado a nossa maneira de estudar, de nos comunicar e até a medicina está inserida nessa evolução. Para o especialista em direito digital e professor nos cursos de direito e Ciência de Dados do Ibmec BH, Pedro Silveira Campos Soares, sócio de SMP Advogados, a nossa comunicação mudou totalmente. Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Pedro Soares aborda todas essas questões e como elas têm transformado nossas vidas.

A tecnologia está cada vez mais presente em praticamente todos os aspectos da nossa vida. Em que medida ela já transformou a maneira como trabalhamos, estudamos, nos comunicamos e nos relacionamos? 

Transformou por completo. Trabalhamos por vídeo, assinamos contratos pelo celular e tramitamos processos eletrônicos. Estudamos com aulas gravadas e pesquisa com inteligência artificial. A comunicação migrou para mensagens de texto e áudio, e as relações, para grupos de família, aplicativos e redes sociais. Digital e analógico se confundiram a tal ponto que já não faz sentido perguntar se estamos online ou offline, naquilo que o filósofo Luciano Floridi chama de infosfera. A mudança mais profunda está na fronteira entre público e privado. A conversa de sala virou post e o debate da praça virou feed ordenado por algoritmo; expomos o privado e privatizamos o público. 

Quais foram, na sua avaliação, os principais avanços tecnológicos dos últimos anos que mais impactaram a sociedade?

Destaco cinco. O smartphone com internet móvel, um computador no bolso de quase todo mundo. A computação em nuvem, que tornou os dados ubíquos. Os algoritmos de recomendação, que decidem o que cada um de nós vê. O Pix, que mudou a forma de pagar e de vender. E a inteligência artificial generativa, que conversa, escreve e programa. O fio comum é a plataforma, uma forma de organizar a vida, e não um aparelho. É um aspecto revolucionário, mas que não tem mostrado sustentação. Por exemplo, o metaverso, vendido como o futuro, consumiu mais de oitenta bilhões de dólares e foi desligado em 2026 por decisão de quem controlava a infraestrutura, e levou junto o que as pessoas construíram nele. 

A inteligência artificial é hoje um dos grandes protagonistas dessa transformação. O que ela já proporciona de concreto para a sociedade e o que ainda podemos esperar nos próximos anos?

De concreto, a inteligência artificial já lê exames de imagem, traduz conversas e redige textos. No meu escritório, ela lê processos e faz a triagem de contratos em minutos. O passo seguinte, já em curso, são os agentes autônomos, que não apenas respondem, mas agem em nosso nome, comprando e negociando quase sem supervisão humana. Já existe até uma rede social exclusiva para esses agentes, criada em janeiro e comprada pela Meta em março, em que humanos só observam. Mais do que a técnica, inquieta-me o discurso que a acompanha, a promessa de que seremos liberados das tarefas comezinhas para nos dedicarmos ao que importa, sem enfrentar a pergunta mais fundamental: quem responde pelo que o agente decide? 

Tecnologias como telemedicina, educação digital, pagamentos eletrônicos, aplicativos de mobilidade e casas inteligentes estão tornando a vida mais prática. Quais são os benefícios mais significativos dessas inovações?

Cada uma derruba uma barreira. A telemedicina leva o especialista da capital ao paciente do interior. A educação digital permite ao aluno assistir à aula no seu ritmo. O pagamento eletrônico acabou com a fila e deu ao pequeno comerciante um meio de receber sem maquininha. Os aplicativos de mobilidade oferecem transporte sob demanda e rastreável. As casas (e até cidades) inteligentes economizam energia e dão autonomia a idosos e pessoas com deficiência. O benefício comum é a redução de fricção, das barreiras de distância, tempo e custo. Mas todo serviço que elimina um atrito elimina, junto, uma garantia. Morozov mostra o outro lado, direitos duramente conquistados, ao transporte, à segurança, à liberdade de expressão, virando serviços privados eficientes, porém sem garantias. É nisso que precisamos refletir enquanto cidadãos. 

Ao mesmo tempo em que a tecnologia traz facilidades, também surgem preocupações relacionadas à privacidade, à segurança de dados, à dependência digital e ao mercado de trabalho. Quais são os principais desafios que precisamos enfrentar?

A privacidade sofre porque a fronteira entre o público e o privado ficou nebulosa e as plataformas lucram convertendo essa exposição em dados. Floridi diz que você é a sua informação; o que fazem com os seus dados, fazem com você. A segurança falha nos vazamentos e nos golpes montados com dados vazados, piores com crianças. A dependência digital não é acidente, porquanto os algoritmos são desenhados para reter a atenção. No trabalho, os agentes autônomos vão executar tarefas inteiras, e cabe à universidade formar quem saiba trabalhar com eles. Os quatro têm uma raiz comum, o poder concentrado em poucos conglomerados e exercido em segredo. A Amazon, para milhões de vendedores, fixa regras, julga disputas, cobra taxas e pune, funções de Estado, com critérios que ninguém de fora conhece. 

Olhando para o futuro, quais tecnologias ou tendências têm potencial para provocar as maiores mudanças na sociedade e como podemos garantir que esses avanços sejam utilizados para melhorar a qualidade de vida das pessoas?

Vejo três tendências. A primeira, os agentes autônomos de IA agindo em nosso nome. A segunda, a computação quântica, que ameaça a criptografia atual. A terceira, a IA embutida em sensores, câmeras e objetos. Nas três, quem escreve as regras são as empresas donas da tecnologia, e aí se decide se os avanços melhoram a vida das pessoas. É preciso orientar como redigem seus termos de uso, que hoje permitem encerrar uma conta por qualquer razão ou por nenhuma, e como julgam seus usuários. Na Europa, a lei já garante recurso a órgãos independentes, mas a decisão não vincula e a plataforma escolhe se cumpre; sem força de obrigar, transparência efetiva, independência e devido processo, o recurso vira teatro. A infosfera será tão democrática quanto forem as regras que nós, e não apenas as empresas, escrevermos para ela.