- Entrevista
- junho 28, 2026
- 6 minutos
Brincar é uma forma de conhecimento
Fundador da Carretel Cultural, Roque Antônio Soares Júnior, conhecido como Roquinho, tem como premissa que criança é produtora de cultura e traz o entretenimento para o centro das discussões

(Foto: Carretel Cultural/Divulgação)
À frente da Carretel Cultural, Roquinho desenvolve ações, encontros e experiências que reconhecem o brincar como linguagem estruturante da infância — e, portanto, como um direito cultural. Para ele, quando se retira o brincar do centro da vida das crianças, acabamos empobrecendo não só a infância, mas o próprio tecido social.
Nesta entrevista ao CIDADE CONECTA, Roquinho fala sobre a importância do brincar na primeira infância e sua relevância para a formação das crianças.
O Brasil possui um Plano Nacional pela Primeira Infância e acaba de lançar uma Política Nacional Integrada para essa faixa etária. Na prática, o que ainda falta para que as crianças sejam realmente colocadas no centro das políticas públicas?
O primeiro passo já foi dado quando o País reconheceu a importância da primeira infância e construiu instrumentos como o Plano Nacional pela Primeira Infância e, mais recentemente, uma Política Nacional Integrada. Mas acredito que ainda nos falta algo fundamental: escutar as crianças. Muitas vezes elaboramos políticas para a infância sem considerar a própria infância como interlocutora. Colocar as crianças no centro não significa apenas destinar recursos ou criar programas. Significa compreender que elas são produtoras de cultura, de conhecimento e de sentidos sobre o mundo. Precisamos construir cidades, escolas, praças e políticas que nasçam também da observação sensível da forma como as crianças habitam os territórios. Quando uma sociedade aprende a escutar suas crianças, ela passa a fazer escolhas mais humanas para todos.
Você costuma dizer que brincar é uma linguagem universal da infância. O que a sociedade perde quando reduz o tempo e o espaço destinados ao brincar?
Perde muito mais do que imagina. O brincar não é um intervalo entre momentos importantes da vida da criança. O brincar é um dos momentos mais importantes. É por meio dele que a criança experimenta a liberdade, organiza pensamentos, constrói vínculos, compreende emoções e cria hipóteses sobre o mundo. Quando reduzimos o espaço do brincar, reduzimos também a possibilidade de imaginação, de criação e de encontro. Uma sociedade que empobrece o brincar corre o risco de empobrecer sua própria capacidade de sonhar, cooperar e reinventar caminhos para o futuro.
Muitas famílias vivem uma rotina acelerada e cheia de compromissos. O brincar livre está desaparecendo? Quais são os impactos disso para as novas gerações?
Talvez ele não esteja desaparecendo, mas certamente está sendo comprimido. A infância contemporânea vive cercada por agendas, horários e rotinas determinadas por adultos. Em muitos contextos, a criança tem pouco tempo para simplesmente estar, explorar, inventar e conduzir sua própria experiência. O brincar livre é um território onde a criança exercita autonomia, criatividade e protagonismo. Quando esse espaço diminui, perdemos uma dimensão importante do desenvolvimento humano. Não estou dizendo que as atividades estruturadas não tenham valor, mas elas não podem substituir completamente aquilo que nasce da curiosidade, da imaginação e da liberdade próprias da infância.
Você defende que os adultos precisam aprender com as crianças. O que as infâncias contemporâneas têm a ensinar para pais, educadores e gestores públicos?
As crianças nos ensinam a presença. Ensinam a atenção ao que é essencial. Ensinam outras formas de perceber o tempo, o corpo, a natureza e as relações humanas. Muitas vezes buscamos respostas complexas para problemas que poderiam ser enfrentados com mais escuta, mais convivência e mais comunidade. A infância nos lembra diariamente da importância do encontro, da curiosidade e da capacidade de se maravilhar diante do mundo. Talvez uma das maiores lições das crianças seja justamente nos lembrar de que a vida não é apenas produtividade, desempenho e resultado. A vida também é experiência, vínculo e sentido.
Qual a importância do contato com a natureza no desenvolvimento infantil e por que esse tema tem ganhado espaço nos debates sobre educação e primeira infância?
Porque a natureza não é apenas um cenário para a infância. Ela é uma parceira do desenvolvimento humano. É na relação com a terra, com a água, com as árvores, com os ciclos da vida e com os outros seres vivos que a criança amplia sua percepção de pertencimento ao mundo. A natureza oferece desafios, estímulos sensoriais, movimento, contemplação e descoberta de uma forma que poucos ambientes conseguem proporcionar. Talvez estejamos voltando a olhar para esse tema porque começamos a perceber o quanto nos afastamos dele. Defender a presença da natureza na vida das crianças não é uma questão de nostalgia. É uma necessidade contemporânea. É garantir que elas possam crescer em conexão com aquilo que sustenta a própria vida.